Luar do meu sertão

luar do meu querido sertao

Retornar, após oito anos de ausência, transformou-se numa aventura muito intensa. O carro rodava na estrada sem curvas e deserta. Era uma motorista sem experiência a guiar na solidão da estrada. Mas nada podia assustar aquela mocinha que ia em busca de sua infância e de sua terra natal. A mãe cochilava ao lado. Os braços inexperientes começaram a formigar. Precisava parar para descansar.

Finalmente avistou um restaurante. Acordou a mãe. Desceram. Era a hora do almoço. Já ao sentarem à mesa perceberam a diferença dos costumes alimentares. Eram tantos os pratos de carnes quantos não havia os de verdura. Era o Estado das pastagens e do gado de corte.

Lá pelas duas horas da tarde seguiram viagem. Queriam chegar em Campo Grande à noitinha. O carro voltou a rodar na estrada vazia. O sono ia e vinha em razão do estômago saciado. Não havia como desistir. Era muita estrada para rodar. Vez ou outra cruzavam com alguém que vinha em direção oposta.

Chegaram em Campo Grande perto das oito horas da noite. Fora um dia inteiro na estrada. Estava exausta. Tomou um banho e dormiu doze horas seguidas. No dia seguinte acordou com o sol despontando e o coração estourando de alegria. Estava novamente na sua terra, mas a aventura apenas começara. Seguiram para a estação de trem. Subiram no vagão próprio, em busca da cabine. O trem começou com a sua a marcha. Lentamente foi deixando a estação. O barulho da Maria-fumaça seguia o seu ritmo contínuo, naquele estranho murmurar. Vez ou outra se ouvia o apito. Estavam próximos de alguma estação. Desciam muitos e subiam outros tantos.

À noitinha foram ao vagão restaurante. Era delicioso tomar aquela sopa no jogo gostoso e contínuo do trem. Assomaram à memória tantas lembranças. Velhas lembranças de criança. Um coreto. Uma banda. A quadra do cinema onde as moças mais velhas faziam o footing, o chamado passeio para namorar. Tudo era tão ingênuo e puro para aquelas bandas.

Ela deitou feliz no beliche de cima.

A mãe não conseguiu fechar a janela do trem e, a cada parada noturna, as luzes invadiam a cabine, mas o sono da menina de dezoito anos era tão tranqüilo que nem os olhos curiosos podiam despertar.

Finalmente a estação de Três Lagoas. A pequena cidade encravada no interior de Mato Grosso do Sul.

Desceram felizes como duas crianças. As primeiras imagens foram a praça e o coreto. Depois o grande relógio central e lá no fundo a catedral, única igreja católica da cidade.

De malas em punho dispensaram o táxi velho e desengonçado e subiram na charrete, toda pintada e reformada para o passeio com os turistas. Velhas memórias vieram-lhe à mente. Tantas e tantas viagens naquelas charretes em busca do Grupo Escolar Afonso Pena. Naquele tempo os cascos dos cavalos não batiam no asfalto, as patas animais afundavam na areia quente do calor escaldante daquela região do Brasil, seguindo num ritmo lento e calorento. Era sempre muito bom chegar à escola. A sombra das mangueiras à volta do velho prédio trazia o refresco agradável e tépido, amenizando o calor.

A charrete seguia, enquanto ouviam o tamborilar dos cascos dos cavalos até a casa de Tia Maria. Uma enorme casa cercada de mangueiras, com uma imensa varanda, onde as redes pareciam permanecer cotidianamente estendidas esperando o descanso do corpo que trazia a moleza do calor.

A alegria do reencontro foi imensa.

Não acreditávamos que viessem, dizia um.

Que bom que tiveram coragem para enfrentar a estrada, dizia outro. E a euforia era imensa.

Foi um reboliço a arrumação do quarto que não estava esperando as visitas. Atestava-se a incredulidade da viagem.

À noite as cadeiras foram sendo colocadas na calçada à frente da casa. Ela agora, como os adultos, também tinha uma cadeira para sentar.

Os vizinhos foram chegando e mais cadeiras foram sendo agregadas. A conversa era aquela de tantos anos atrás. Os filhos, a vida, a política do governo e o céu estrelado com a lua observando a cantilena de sempre. Mas como era bom conversar sob o céu estrelado do sertão da terra natal, mesmo que a prosa não tivesse mudado um tiquinho sequer. Nada era mais acolhedor do que sentir aquele cheiro de terra e ouvir aquele povo simples falar de coisas simples.

Lá pelas dez horas eles foram chegando. Violão debaixo dos braços, um velho acordeão e a música sertaneja e chorosa tomou conta de todos, enquanto a lua imensa e clara observava tudo do alto.

Mesmo que precisasse enfrentar novas doze horas de viagem sem parar e mais uma noite de trem, não desistiria de ouvir sua gente e ver aquele luar do seu sertão

O poeta e a dor

castro-alves

A data é 14 de março de 1847. Nasce um poeta. Na fazenda Cabeceiras, a sete léguas de Curralinho, vem ao mundo Castro Alves, filho do Dr. Antônio José Alves e Dona Clélia Brasília da Silva Castro.

Tem a infância de um menino feliz. Vive seus tenros anos no sertão amado. Em 1854 parte para as plagas da capital baiana, iniciando sua vida estudantil. Quando aos dezesseis anos é enviado para o Recife para completar seus estudos e habilitar-se à matrícula na Academia de Direito, descobre a liberdade. A cidade ficou insípida para aquele poeta. Cai na irresponsabilidade que a liberdade somada a imaturidade conduz. Vem a reprovação no exame de geometria.

O ano de 1864 faz o adolescente matricular-se no Curso Jurídico.

A par de ser mau estudante, já lhe aparecem os pendores para a poesia.

Em anos seguintes haveria de escrever o poema “A Destruição de Jerusalém” e seguidamente “Pesadelo”, “Meu Segredo”, este inspirado em sua musa do momento, a atriz Eugênia Câmara. Outros viriam a seguir, “Cansaço”, “Noite de Amor”, “A Canção do Africano”, e outros mais. O poeta começa a desabrochar, inobstante ainda não o melhor de sua poesia.

Como dizia o adolescente Castro Alves: “A poesia é um sacerdócio, onde Deus é o belo e seu tributário o Poeta”.

Chega um dia fatal. O dia é 9 de novembro de 1864. A fumaça do cigarro enrodilhando no ar. O poeta sente uma dor fina no peito e o pressentimento lhe toma conta da alma. Bebe na sua dor a fonte maior da poesia. Cria por sobre sua dor individual o poema “Mocidade e Morte”.

Depois de suportar sua própria dor desperta o poeta para a dor do próximo e é no martírio dos negros escravos em “O Navio Negreiro”, seu canto poético maior. Em seguida, como ninguém, impinge os acentos da poesia ao exprimir a dor de todo um continente em “Vozes D’ África”.

Já não era mais o menino-poeta, mas o poeta maior que alçava vôo na terra brasilis.

Naquele ano de 1867, em meio ao Curso Jurídico, apaixonado pela portuguesa Eugênia Câmara, parte com ela para a Bahia, onde faz representar um drama em prosa que não lhe fazia jus, “Gonzaga” ou a “Revolução de Minas”.

Pretendia concluir o curso em São Paulo, para onde segue no ano seguinte. Passa pelo Rio de Janeiro assinalando os mesmos triunfos já vivenciados em Pernambuco.

Quando em São Paulo, em final do ano de 1868, fere o pé com um tiro acidental por ocasião de uma caçada. Resulta-lhe uma longa enfermidade, impelindo-o a submeter-se a inúmeras intervenções cirúrgicas e finalmente à amputação do pé. As forças já lhes esvaiam com a tuberculose pulmonar avançada que o faria regressar à província natal e sucumbir em 1871.

Em 1870, antes de voltar à terra natal, publica o livro “Espumas Flutuantes”, cantos definidos por ele como o estalar fatídico do látego da desgraça, refletindo o prisma fantástico da ventura ou do entusiasmo.

Profundamente melodramático na desgraça, mas gracioso e belo na ventura, assim, é Castro Alves. No seu entusiasmo de mocidade, apaixonado pelas causas da liberdade e da justiça, envolvido nas lutas da independência da Bahia, na insurreição dos negros de Palmares, deixa impresso em seus poemas toda a força e beleza de sua luta.

É um abolicionista ferrenho lutando pela causa do negro escravo. Mas este tema não fez parte de as “Espumas Flutuantes”. As composições de que trata o tema são o poema “Os Escravos”, arrematado pelo “A Cachoeira de Paulo Afonso”, obra publicada postumamente.

Castro Alves, o poeta dos poetas desta terra, atinge um lirismo supremo na sua obra “Adormecida”, depois pinta com cores admiráveis da verdadeira poesia “O Crepúsculo Sertanejo”. Mas foi cantando a dor de um povo com “Vozes D’ África” e “O Navio Negreiro” onde este poeta de escol mostra o melhor e o maior de sua poesia.