Capítulo 1 do livro A CERTEZA

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A vida tinha tomado um rumo bem diverso de anos atrás. Após o falecimento da mãe ele voltou a se separar da segunda mulher. Havia ganhado um dinheiro na loteria na primeira vez que resolveu quebrar sua indiferença com aquele jogo. Aplicou todo o dinheiro de forma bastante diversificada e, com as ótimas dicas da Corretora, recebia um ganho como jamais imaginara ter com um emprego. Pagou todas as suas dívidas e resolveu a pensão das duas filhas. Ele agora podia vê-las a cada quinze dias, nos finais de semana. Mas, algo lhe faltava. Resolveu voltar a estudar. Fez faculdade de Administração, seguiu com o mestrado e já caminhava para seu término.

Estava saindo da Universidade quando a viu. O tempo só fizera bem a ela. Loura, alta, esguia, não envelhecera, apenas a expressão era de uma mulher madura e segura de si. Ficou estupefato ao sentir o estômago apertar como da primeira vez.

Ela seguiu seu caminho ser perceber a presença dele, parado, olhando-a, sem conseguir dar um passo sequer. O coração disparado. Começou a rir de si mesmo sem acreditar que naquela altura da vida ainda era capaz de sentir emoção tão intensa. Aliás, pensar em emoção fez Thales lembrar de um tempo em que embotou esse lado. Foi o tempo em que mais cometeu enganos na vida. Racionalizar tudo não foi o melhor caminho para uma vida saudável. Tinha muitas certezas na época. Perdeu muito tempo de alegria e espontaneidade tentando planificar tudo.

Voltou a caminhar em direção a seu apartamento. Quando abriu a porta sentiu o vazio lá dentro. Não atinava o porquê da sensação. A figura dela disparou em sua mente e ele teve a sensação que fora ela quem despertara nele o que sentia no momento.

Ouviu o telefone fixo tocar. Normalmente não gostava de atender, mas pensou num cliente inoportuno, já velho conhecido e bastante mão aberta para os negócios. Levantou o fone

— Alô.

— Uau! – comentou Jonathas -. Vi o seu descontrole quando Elizabeth passou do outro lado da rua. Thales imaginou-o levantando uma sobrancelha, tique especial do colega quando descobria alguma coisa interessante e que pudesse apelar em algum momento de negociação.  — Enquanto ela andava para subir na calçada você a devorava com o olhar.

— Hum. — grunhiu Thales.

— Não adianta negar meu caro, você se desconcertou de um jeito que não dava para não notar. Pode me chamar de abelhudo não me importa. Agora acho que você devia procurar por ela. Vou lhe dar uma chance. Ela está hospedada no Sheraton. Vai passar uns tempos aqui no Brasil e depois volta para Nova York. Sabia que agora ela é a presidente da empresa.

— Era só isso?

— Cara, você continua o mesmo. Não mudou nadinha. Nem ajuda você aceita.

— Exatamente.

utopia

Enquanto aflora no território nacional a expectativa de um novo rumo na governabilidade do País, que tem como meta principal anunciada combater a corrupção, exigir segurança, educação, saúde, e a afamada reforma política, dentre tantas outras requisições, chamadas de difusas pelos donos do poder, mas que sabem exatamente o que precisam fazer e não fazem. Porém, que não brinquem com a sociedade irmanada e empenhada nessa realização, seja o cidadão um político ou não, muitos colocam a ideia no arquivo da utopia. Claro que o princípio basilar é belo, porém há que se ressaltar pode resvalar realmente para a utopia. Os poderes Executivo, Legislativo e Judiciário ficaram balançados, já não há o poderio impenetrável. O povo resolveu lembrar que é brasileiro e que o Brasil somos nós. Esta luta vai limitar as mazelas do povo brasileiro. Será árdua é bem verdade, e talvez por vezes arrefeça a força da unidade, mas tenho certeza de que o gigante levantou e disse basta!

A unidade da sociedade no direcionamento do bem comum e sua contribuição sistemática poderão ser o caminho para a extinção desse cancro denominado corrupção. Mas quem fará a Assembleia Constituinte? Partirá o movimento do governo? Quem se engajará na política em favor dessa unidade? Creio que chegou o momento de reformar princípios e ideias assentados de há muito nesse país, por gente que só encontra soluções para problemas pessoais e se esquece das múltiplas dificuldades nacionais. Diante da premissa inicial é que se deve partir para a “guerra” contra a corrupção, a falta de segurança, a melhoria na educação, o cuidado com a saúde, e tantos outros melancólicos legados de desonestidade e incúria que permeiam nossa sociedade.

Ora, da obra deverão ser evitados os sentimentalismos e partidarismos exagerados e inúteis, as neutralidades muito perigosas. É preciso ajudar a ideia, fazendo da inteligência, da ordem, da medida e da parcimônia amigos diletos e constantes.

O Brasil não é apenas composto de políticos, mas somos todos nós. Se quisermos continuar a falar em transformação da sociedade brasileira, temos que nos ater também ao engajamento social e não em razões eleitoreiras, posto que então continuaremos a insistir nas velhas e empoeiradas dissensões partidárias que tão somente despertam polêmicas inúteis e efêmeras. Os velhos estilos ruminadores que têm por hábito fazer nascer morta a melhor das ideias devem sim deixar de existir, para dar espaço ao novo, responsável e realmente intelectual político brasileiro. Aquele que irá tomar a si a missão que se propôs ao candidatar-se ao Executivo ou ao Legislativo, respondendo com eficácia aos anseios do povo.

Por outro lado, a sociedade para conseguir concretizar a sonhada utopia, deverá transformá-la de sonho a plano e seguir com gestos audazes, feitos por vezes de renúncias generosas de aspirações inapropriadas para o momento, como também fazer exercer cada um o seu papel de cidadão, permanecendo envolvido em iniciativas que levem ao bem comum. Somente assim, será verdadeira e possível a exterminação paulatina desse câncer, denominado corrupção e o Brasil poderá irromper num caminho de sucesso e seguranças financeira, educacional, sanitária e econômica.

Não se espere um passe de mágica. Os tempos dos salvadores da pátria eram outros. Parece-me que no Brasil não nos damos conta do quanto necessitamos ser ousados e não voltemos mais a ser alienados ou paternizados. O entusiasmo das manifestações não pode arrefecer, deve ser uma contínua, para que se possa conseguir concretizar, com a necessária energia, os sonhos idealizados. E, mais, é preciso lembrar que somos donos de um poder inalienável: o nosso voto. O caminho está apenas começando. As ideias deixam de ser utópicas quando lançamos nossos corações e nossos gestos na direção delas.