Crônica do Ano Novo

Boas-Festas

Ano novo, vida nova, assim é, como todos falamos. O mundo fala pela televisão, pela internet, em suas redes sociais, o mundo todo fala na melhoria da vida, dos fatos. São nossos sonhos, nossas expectativas para um novo melhor momento que começa a nascer devagar, enquanto outro vai morrendo entre fogos, espumantes, festas e até muita bebedeira, porque não dizer.

As pessoas escolhem cores para entrar com o pé direito no novo ano nascente. Os pudores desaparecem, a criança vem à tona, a confiança num Ser Maior explode dentro de cada um , a seu jeito de ser e de entender a vida.

Inúmeros lotam praias, jogam flores para Iemanjá, a rainha do mar, mesmo sem nunca ter pisado num terreiro antes. Entram no mar passando por todo tipo de perigo, ondas altas, ondas baixas mas com correntes até traiçoeiras, o importante é levar o seu presente.  Mais muitos mais, assistem as belas queimas de fogos. É o ano novo que arrebenta as correntes e se destrava o velho ano e seus desprazeres de nossos pés, as dores se esvaem pelas pontas dos dedos. O espírito do ser humano canta com histeria e loucura coletiva as músicas natalinas desde novembro. É uma loucura boa, como quem tira a roupa velha colada no corpo e que trouxe tantas decepções e agora veste a roupa nova e branca, e sem qualquer mancha, do ano que vai escrever uma nova história.

Comemorar a virada do ano com a ideia de que, já em janeiro, a beleza da vida vai explodir em beleza, sonhos e canções de amor aquele ano novinho em folha. É o ano da vitória nos dias que se seguirão pela vida, jogando por terra todo problema que existiu no ano anterior, enterrando dores e cantando louvores ao Divino, na espera de uma vida nova, pois na verdade estamos virando uma página e ela está totalmente branca a espera de escrevermos novos fatos.

Que importa aqueles que dizem ser um ano exatamente igual ao anterior, importa sim, acreditar na felicidade no desvendar mágico e nas resoluções infindáveis e belas de um novo desabrochar, como desabrocha a rosa branca levada para Iemanjá.

É nessa mesma época que fazemos planos, resoluções e desejos para o novo ano, em que planejamos tudo. Não importa se a gente acaba muita das vezes esquecendo nossos planos anteriores. Agora é hora de novos planos, novas resoluções e no recôndito do coração acreditarmos piamente que conseguiremos construir um futuro melhor.

Não tem a menor importância se acabamos com mais um ano sem metas cumpridas. Jogamos fora aqueles planos tolos e fazemos outros mais brilhantes e azuis da cor do céu. criando mais um ciclo maravilhoso de alegria que nos impulsiona a mudar e sair dessa grande redoma que fez o ano velho impossível de realizar nossos mais caros desejos.

Claro que às vezes as melhores coisas da vida são aquelas que não planejamos ou que não desejamos, ou o que desejamos tanto, e acabamos conseguindo nos momentos que nem mesmo percebemos ou até mesmo quando pensamos em desistir, e a vida acaba de nos devolver. O importante é acreditar no melhor e festejar o entusiasmo novo para criar com alegria momentos de felicidade. Essa é a força motriz da verdadeira melhoria do ano que explode em festa.

Temos de nós o ar que respiramos

a pessoa que você gosta está se afastando

Preciso lhe dizer algo que me vai no coração. Eu não faço ideia de como anda sua vida, nem os planos que você fez e seguiu ou deixou de lado. Também não sei dizer como deve estar seu coração em relação a mim ou a tudo que lhe aconteceu neste tempo em que não nos vemos. Não tenho a mínima ideia de tudo que ocorreu em sua vida sem a minha presença. Não sei se em seu calendário consta a época em que estivemos juntos, ou que importância tive para sua vida nesse nosso longo tempo afastados. Sei apenas que o tempo existe, que passou e eu continuo a lembrar sua voz, seu olhar, seu sorriso, o primeiro beijo e os outros também.

Na verdade você foi meu primeiro amor, meu primeiro namorado, meu primeiro beijo na boca… e o gosto ficou até hoje. Depois… nos afastamos. Casei. Você casou. Enviuvei. Você se lamentou. A vida nos separou. Foi nosso primeiro desencontro. Mas a vida seguiu e nossos caminhos foram eternos desencontros. Quando nos encontrávamos estávamos com outros parceiros.

Não tenho a menor ideia das adversidades passadas por você, assim como você também não sabe das minhas. No entanto, lembro de cada momento em que nos encontramos pela vida, nossas mãos se tocaram no dia em que meus pacotes de presente de Natal caíram e alguém ajudou a pegá-los do chão. Quando ergui meus olhos, já arrepiada pelo toque, encontrei seu olhar no meu. Não sei se você me ajudou porque já sabia que era eu, ou foi solícito com alguém desconhecido.

Sabe, sua voz está tão entranhada em mim que aquela vez que uma aluna pediu para eu ligar ao chefe dela não me toquei. Eu liguei e ouvi você. Do outro lado estava você! Pensei sufocar. Tive ímpetos de lhe dizer: Eu ainda amo você. Mas, o racional foi mais assentado e meu marido estava do outro lado da sala. Você me convidou. Estava sozinho. Eu havia voltado para meu ex.  Senti um arrepio de amor e uma vontade louca de descobrir nós dois. Um repuxo de arrependimento, olhando para aquele com quem eu levava minha vida.

Não sei como é sua companheira de caminho. Imagino que a ame, mas gostaria muito de estar colada lá no fundo de sua alma, como você está na minha.

Espero que um dia você possa ler esta carta e, quem sabe, responder pela internet que alguém que você muito amou deixou o perfume de sua inocência dos nossos anos dourados impregnado no ar que respiramos juntos, porque apenas isso temos de nós.

Sonhos de escritor

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Calma e quietude. Solidão diante da máquina. A inspiração demora. Nada escrito. Olhos que se voltam de um lado para outro em busca da continuidade. O livro parece adormecer. Os pensamentos pairam no ar. Através dos pensamentos parece que a mente está vazia, mas o poder fantástico da imaginação conduz os dedos no teclado. Viaja a uma aventura quase delirante.

Imagens pululam. O escrever é inevitável. Alguma recordação ainda que breve chega ao cérebro. Teclar é preciso. Deixa a personagem acordar e ficar presente. O momento prestes a se perder retorna ao ponto da exaustão. Reflexão sobre a infância, tão familiares que se introduzem nos acontecimentos da trama. Situações marcantes da vida, de decepções e de frustrações recentes, de arrependimentos dentre uma imensidão de reflexões, emergem como numa enxurrada avassaladora e tomam conta do ser. Os planos e projetos futuros com suas incertezas e possibilidades num momento otimista também fazem parte do turbilhão de pensamentos. A obra se impõe.

Até que não mais se apercebe nitidamente. Apenas os dedos teclam num ritmo alucinante. Seu senso de alerta é engolfado pela personagem deslizando para a tela do computador. A história se recobra. Com ela os intrigantes sonhos são registrados, horizontes descobertos. A personalidade traz algumas de suas manifestações sombrias e enigmáticas.

Em meio a essa loucura um alcançar. O sonho gera inspiração, se torna obsessão, o despertar, para quem prefere ser escritor, é um alívio. Se não houvesse sequer recordação de momentos, então o despertar é estranho: tudo pode voltar ao começo. A dificuldade invade novamente e a cena se desconstrói. Ou não: apenas um breve momento até chegar ao ponto. Pode durar somente o instante de olhar a hora e voltar ao estado vesano.

Geralmente nesse estágio, as horas se tornam criança. O tempo se esvai sem pios, enquanto avança no drama. Se houver sucesso, então o aprazível descanso restaurador e salutar agracia o autor a espera de um novo momento extasiado de dor e amor.