A ciência da literatura

Livros- ciencia da literatura

Da mesma forma que o foco de análise da física é o universo e o foco de análise da biologia é a vida, o foco de análise da literatura consiste nos textos que foram escritos pelos seres humanos desde os tempos dos símbolos atribuídos a significados claros moldados por antigos artistas em paredes de cavernas. A escrita cuneiforme é tida como a primeira forma de escrita surgida verdadeiramente no mundo, e estima-se datar por volta de 3000 AC. De lá pra cá a civilização ocidental vem acumulando cada vez mais um repertório de símbolos que predispostos em pedras, papéis ou mídias eletrônicas têm contado a história de nossa civilização e das vidas de seres humanos vivendo aqui e ali ao longo dos tempos. A escrita é sem dúvida o principal método de transmissão cultural e de valores de nossa sociedade e a própria Bíblia é um dos principais textos estudados em literatura, justamente por guardar em si um conjunto de valores morais que vêm sendo (bem ou mal) aplicados em nossa sociedade ao longo dos últimos 2 milênios. Textos da Grécia antiga e os dramas de Shakespeare também estão entre as obras mais estudadas pelos literatos.

Da mesma forma, portanto, que o físico está interessado no universo e que o biólogo se interessa pela vida, o literato interessa-se pelos escritos. Da mesma forma que o físico procura regularidades que possam ser observadas no universo, o biólogo procura regularidades presentes na vida e o literato procura regularidades em textos históricos. O objeto de estudo das três ciências é diferente, assim como são as metodologias de trabalho. Também a literatura, como a biologia, é um sistema complexo derivado diretamente da forma como os seres humanos com seus cérebros humanos conseguem conceitualizar o mundo e o representar em forma de símbolos encadeados em busca de significado. A ciência da literatura, entretanto, não pode e não deve se separar de outras ciências que a rodeiam, como a linguística, a filosofia e até mesmo a psicologia. O literato utiliza regularidades observadas por outros artífices das ciências humanas e emprega tais regularidades pré-dispostas à análise textual.

Os seres humanos, desde o surgimento dos alfabetos, têm escrito de forma livre, ou da forma que lhes parecesse mais natural. Com o tempo surgiram esses curiosos por regularidades dos textos escritos, cientistas cuja curiosidade não está na natureza ou no universo, porém no homem e em suas representações simbólicas. Estes curiosos quiseram então estudar como as pessoas escreviam e têm escrito ao longo dos séculos, desde que a escrita foi inventada, eles tentaram e conseguiram descobrir alguns padrões conservados em textos que vão desde o aparecimento do alfabeto até os dias de hoje. Esses padrões se repetem e podem ser caracterizados se estudados com detalhes e dedicação. O estudo de tais padrões existentes em textos é normalmente chamado de “crítica literária,” mas acredito que deva ser preferencialmente chamado de ciência literária, tal como o estudo das leis no universo é chamado de ciência exata e o estudo da vida na Terra é chamado de ciência biológica. A metodologia de grande parte dos literatos é sim científica, mas como já argumentado o objeto de estudo é diferente e exige, portanto, métodos diversos de análise. E da mesma forma que a biologia se dividiu em genética, bioquímica, ecologia, zoologia, botânica… também a crítica literária se dividiu em modernista, pós-modernista, estruturalista, crítica feminina, marxista gay, pós-colonial, psicanalítica, etc. Vários escritos clássicos e modernos de nossa história literária podem ser caracterizados e relidos tendo tais regularidades como fio condutor, esses padrões regulares observados nos textos permitem aos cientistas classificá-los e entendê-los de forma genérica e tão precisa quanto possível.

A crítica literária é tão ciência quanto ela pode ser: ela é curiosa e séria, ela busca, estuda, encontra padrões e os descreve com precisão e rigor.

Além disso, os mesmos programas de computador que são hoje utilizados nos estudos de biologia podem também ser aplicados ao estudo da literatura, sendo ambas ciências onde a complexidade é eminente e jamais pode ser descartada. Programas de inteligência artificial têm sido produzidos e podem ser treinados para reconhecer padrões em textos de determinados autores. Tais padrões podem ser utilizados, por exemplo, para verificar se um determinado texto não assinado deve ser mesmo de um autor clássico que se imagine.

Toda a história cultural do homem pode ser hoje reconstruída através da ciência literária, tentando também fazer viajar o leitor no tempo e compreender as situações da forma como as pessoas da época as entendiam.

Honestidade Contestada

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Com base num fato real escrevi esta crônica. Acho que é preciso criticar o sistema, exercer nosso direito/dever de cidadão.
Era Auditor Fiscal da Receita Federal e funcionário público federal. Esta é uma história longa e recheada de altos e baixos, como de resto é a vida, por isso idealizei escrever um livro sobre o tema.

Tinha 38 anos quando aconteceu. Passados dezoito anos do ato de posse, abriram um processo administrativo contra ele. No final isentaram-no de culpa. Porém, um grupo de insatisfeitos dentro da Receita Federal não quis ficar quieto, havia muita inveja e vingança no ar. O brilhantismo dele o alçara a Chefe de Seção. Isso acirrara os ânimos. O processo administrativo foi encaminhado pelo Procurador-Chefe da Fazenda Nacional ao Ministério Público Federal. Dado início ao processo judicial na Justiça Federal levou 6 meses sendo lido, estudado, esmiuçado, por uma jovem juíza federal de primeiro grau, estudiosa e conhecedora das filigranas do processo. O processo caminhava regular, enquanto a titular da Vara Federal estava em exercício. Nas férias da titular um jovem juiz a substituiu. Foi procurado por um dos Procuradores da Fazenda Nacional e decidiu pela condenação. Não se provou fraude ou recebimento de propina, mas sabidamente a manipulação e evasão de divisas.

O condenado havia contratado um advogado de fama nacional na área do Direito Administrativo, pagou regiamente seus polpudos honorários adiantado, mas foi o estagiário do escritório a defendê-lo. Um jovem e brilhante advogado, sem grande cabedal de experiência. Recém-formado na faculdade de Direito. Entrou com todos os recursos, seguindo seus cursos, e não houve procedimento, mecanismo, estatuto cautelar, tecnicidade, brecha ou pai-nosso que restasse em seu arsenal de medidas e procedimentos a obstar o prosseguimento do processo e ao final inocentá-lo.

Esta é uma história ficcional, baseada em um caso real, porém adaptada por respeito as partes. No entanto, um inocente (como no caso em tela) por vezes é envolvido numa teia de corrupção e sequer sabe encontrar o fio da meada para poder compor uma defesa, enquanto os verdadeiros cabeças se escondem sob seus mantos negros da impunidade, auxiliados por julgadores corruptos ou omissos, que sequer estudam o processo e esmiuçam o caso, para detetar a verdade dos fatos, e o processo segue um curso de uma total teratologia do Direito, chegando às barras do Supremo Tribunal Federal que, no mínimo, devia considerar nulo o processo desde o seu início. Contudo, isso não acontece, enquanto grandes corruptos são soltos ou protegidos por estratégias esdrúxulas criadas por seus advogados e aceitas pela Justiça.

O cronista Gabriel Garcia Márquez

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O jornalismo ocupa um espaço de especial importância na obra de Gabriel García Márquez. Funciona como laboratório para sua escrita. Embora tenha produzido um número expressivo de trabalhos literários e jornalísticos, o objetivo desta crônica está centrado na produção das crônicas do autor colombiano.

A atividade de García Márquez como cronista inicia simultaneamente à sua caminhada jornalística. A consagração desse pendor literário do escritor acontece a partir de 1980. É o momento que assinala seu retorno às páginas do jornal El Espectador, de Bogotá, o periódico que ele havia deixado 20 anos atrás, quando publicou o último texto da série Jirafas. Sua coluna diária foi mantida por mais de um ano sob o pseudônimo de Septimus, nome inspirado no personagem de Virginia Woolf. Inúmeros pseudônimos, aliás, era uma constante na vida de Garcia Márquez.

Afastado das redações, posto que assoberbado entre suas atividades com compromissos políticos, reportagens de campo e a produção de seus romances, retoma o ritmo da escrita jornalística, e assume a tarefa em outubro de 1980, voltando a escrever uma crônica por semana. Como ele próprio afirma “com a mesma alegria, a mesma vontade, a mesma consciência, a mesma alegria e muitas vezes com a mesma inspiração que teria para escrever uma obra maior”.

Nos primeiros quatro anos da década de 80 o escritor produziu 167 crônicas, que foram publicadas também em outros importantes veículos da imprensa internacional como os jornais The New York Times, La Nación, El País e El Tiempo e, as revistas: Cambio, Time e Vogue. A razão de escolher falar sobre suas crônicas é mostrar como se comporta o cronista García Márquez desde o ponto de vista de suas posições ideológicas de esquerda. O mesmo vale para conhecer suas reações quando o tema diz respeito ao universo dos escritores.

A partir desse entremeio foi possível chegar às relações que o Jornalismo mantém estreita relação com a Literatura. É a época do advento do novo jornalismo. Passaram a se ajustar ainda mais pois foi à Literatura que a imprensa recorreu para conferir às crônicas e reportagens um novo olhar sobre a notícia. De lá para cá, depois de Truman Capote, Gay Talese, Tom Wolfe, entre outros, os limites entre o fazer literário e o fazer jornalístico deixaram as fronteiras e se aportaram nas crônicas.

Dessa hibridez, os textos ficam na ambiguidade entre a ficção e o jornalismo. Agregam características marcantes como a ambivalência, a fragmentação e a subjetividade. Esse caminho permite ao escritor colombiano recuperar sua boa forma no escrever e sua impulsão ao eleger temas pertinazes ao complexo momento político e social enfrentado pelo mundo no início da década de 80. Mas, da mesma maneira permite que García Márquez perambule entre a ficção e o cotidiano, usando de seu refinado e perspicaz humor para tratar de assuntos triviais também eleitos por consagrados outros escritores. Tudo isso acomodado nas várias camadas que a arquitetura do texto supõe. O que desvela um cronista erudito, entranhado à sua dedicação visceral com as palavras e à tessitura da narrativa. Não, com isso, o afasta de seu compromisso com o jornalismo, o de informar.

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Conforme noticiado na Globo, o livro  escrito há 60 anos por Guimarães Rosa, “Grande Sertão Veredas, já consagrado, ganhou contornos sensoriais em uma programação especial da Fundação Clóvis Salgado (FCS), em Belo Horizonte. O público pode ler, ouvir e se emocionar com elementos bem característicos de uma das obras mais importantes da literatura brasileira.

A Fundação preparou  uma programação gratuita, que passa pelo teatro, música, literatura, artes visuais e pelo cinema. A distribuição de ingressos está sujeitos à lotação de espaço.

Para o evento em que Maria Bethânia vai ler trechos de Guimarães Rosa, a retirada de ingressos foi feita na sexta-feira (4/11), a partir das 10h, na bilheteria do Palácio das Artes.
Cada pessoa terá direito a apenas um ingresso. Os demais eventos terão a retirada de ingresso 1 hora antes das apresentações.

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Ilumine seu cérebro lendo, lendo muito e vários estilos

A ciência comprovou recentemente o que parecia óbvio: literatura faz bem para o cérebro! Nos Estados Unidos, um grupo de teste foi convidado a ler um capítulo do romance Mansfield Park, de Jane Austen, dentro de uma máquina de ressonância magnética, enquanto pesquisadores da universidade de Stanford analisavam os resultados neurológicos. Para o experimento, era preciso ler o capítulo de duas formas distintas: primeiramente, uma leitura descompromissada; depois, uma leitura para análise crítica da obra. A conclusão do estudo apontou que a leitura de livros pode ser um exercício valioso para o cérebro, já que quando lemos, o sangue flui para diversas áreas associadas à concentração e, no caso de uma leitura mais crítica, também para áreas menos ativas do cérebro. Logo, o estudo concluiu que a forma de leitura afeta o cérebro e através dela podemos treiná-lo para ser cada vez melhor em atividades que exigem compreensão e concentração. Logo, o estudo conclui que a forma de leitura afeta o cérebro e pode indicar formas de treiná-lo para ser cada vez melhor em atividades que exigem compreensão e concentração.

Estudos semelhantes para avaliar os benefícios da leitura com máquinas de ressonância magnética já haviam sido realizados antes na Europa. Em 2010, o neurocientista Stanislas Dehaene, diretor da Unidade de Neuroimagiologia Cognitiva do Inserm-CEA, na França, usou exames de ressonância magnética para avaliar o cérebro de adultos alfabetizados e analfabetos. Os cientistas descobriram, então, que os cérebros dos adultos que podiam ler eram mais ativos, ainda que, em contrapartida, perdessem parte de sua memória visual, possuindo menos habilidade no reconhecimento facial.

Não existe nada mais espetacular para treinar o cérebro do que a leitura. Aumenta a capacidade de armazenar informações, aprimora a memória, aumenta a compreensão e a associação… Além de funcionar como um verdadeiro catálogo de maneiras de viver, de encarar os desafios, amplia o vocabulário, a compreensão de mundo. Já imaginou a diferença que faz no cenário atual, feito de relacionamentos e marketing pessoal?

Interessados nos ganhos que um livro pode trazer para nossas vidas buscamos os 10 benefícios da leitura. Sinta-se à vontade para acrescentar outros benefícios, comentando este post.

  1. A leitura estimula a memória, expandindo a capacidade de nossa mente.
  2. A leitura é combustível inesgotável para a imaginação.
  3. A leitura nos dá as palavras, instrumento para expressar nossos sentimentos.
  4. A leitura nos aproxima da compreensão de mundo e da autocompreensão.
  5. Ao ler, nos deparamos com aquilo que pensamos: com nossas crenças.

contos

            Natália olhava o mar de Caiobá. Sentada na sacada parecia ver a figura dele andando pela areia. Chegava a sorrir ao imaginá-lo acenando alegremente.

            Ligou para Carlos Eduardo. Precisava ouvir sua voz. Ele costumava escutar música clássica no final da tarde. O som entrou pelo telefone. Era Debussy. Carlos Eduardo apreciava Debussy.

            O marido dizia que “ninguém sonhara que Achille Claude Debussy chegaria algum dia a ser um grande artista. Aquele era um luxo impossível para a modesta pobreza dos Debussy”. Voltou a prestar atenção ao som da música. Tinha certeza que era Nuvens de os Três Noturnos. Conforme Carlos Eduardo, os Noturnos haviam representado um degrau na produção debussyniana. “A orquestração é mais atrevida do que em suas peças anteriores e o sistema harmônico alcança inovações insuspeitas diante do pleno aproveitamento das escalas orientais e gregas, que o mestre conseguiu tirar. Ele conseguiu juntar um mundo de sonhos por meio de sensações novas”. Carlos Eduardo simplesmente delirava ao ouvir Debussy e em especial os Três Noturnos.

            Prestou atenção a ele. Quando você pretende voltar? Ele falava da casa de praia no condomínio Atami, onde passavam as férias de verão. Continuou a conversa, discorrendo sobre a rotina, o trivial. O desejo de ouvi-lo passou. O encanto daqueles momentos diante do mar de Caiobá quase evaporou. Respondeu com secura. Só o faria no dia seguinte. Depois se arrependeu do tom, mas pareceu-lhe ele não ter notado.

            Voltou a ouvir o som do mar, naquele seu murmúrio contínuo. O sol se punha no horizonte. Ainda com as notas musicais no ouvido apreciou a beleza presente na Natureza.

            Foi num fim de tarde assim que ela se entregara a Murilo e ao seu amor. As areias mornas, pelo sol do dia inteiro, receberam os corpos dos dois.

            Olhou em derredor. A sala onde tantas vezes estiveram juntos parecia intacta. O sofá onde saciaram a sede da paixão que os envolvia parecia o mesmo. Ainda estava lá, como para testemunhar aquele amor. Mas o amor… O amor já não existia. Ou existia dentro dela?

            Seu amor por Murilo fora feito de tantos encontros e desencontros, tantas alegrias e uma profunda tristeza.

            O seu trabalho no escritório a fazia dedicar-se inteiramente a advocacia. Seu tempo pessoal era escasso. Viera de uma infância pobre, órfã de mãe e abandono de pai. Fora o arrimo familiar, desde tenros treze anos, juntamente com os dois irmãos mais velhos, dos quatro mais novos. Depois de formada seguira seu caminho. Saíra quase como uma fugitiva de sua pequena cidade no interior do estado de São Paulo. Seguira para Curitiba, a convite de alguns advogados, para fazer parte do escritório. Aquilo a entusiasmara. Era sua oportunidade. Salto ficara para trás e sua família também. Os irmãos a condenaram. Não aprovavam seu afastamento da família.

            Já fazia muito tempo que trabalhava no escritório quando conheceu Carlos Eduardo. Fora ela a advogada a acompanhá-lo na audiência de separação. Depois ele não mais a procurara, apesar de havê-la encantado com doces palavras.

            Murilo, também advogado do escritório, descobrira, de um momento para outro, seu interesse por ela.

            Naquele tempo, além de suas pinturas, tinha Murilo. Sua solidão parecia desvanecer-se diante da alegria quase infantil dele.

            Fê-la conhecer pai Joaquim, como o chamava. Aprendeu a amar aquele velho negro com o mesmo amor que Murilo lhe dedicava. Visitavam constantemente pai Joaquim, na pequenina casa caiada de branco no sopé da Serra da Graciosa. Ouvia, feliz, lendas sobre os Orixás. Outras vezes se deliciava com seu hobby e pintava o velho negro enrodilhando a fumaça de seu cachimbo, sentado à frente da pequena casinhola.

Pai Joaquim lhe falava de Oxum, seu orixá protetor. E pedia que ela seguisse o rio de Oxum porque lá estava seu destino.

            Ficou encantada com o ramalhete de flores encontrado sobre a mesa de sua sala no escritório e um cartão com palavras que a emocionaram.

            A partir daquele dia ele passou a presenteá-la com um ramo de flores silvestres todos os dias e enchê-la de mimos.

            Numa noite, após irem ao Teatro Guaíra e se enlevarem com a Orquestra Sinfônica interpretando Brams, Rachmaninov e Ravel, convidou-a para verem a lua na Serra do Mar. Apesar do susto inicial, seguiu Murilo na busca do romantismo do luar.

            A lua cheia e redonda iluminava o asfalto. Ele a convidou para apreciarem o espetáculo. Saíram do carro e foram plenamente iluminados. Ele a tocou de leve inicialmente, depois ela sentiu sua urgência. Entraram no carro e se amaram até a madrugada. Depois dormiram nos braços um do outro, extenuados pelo amor.

            O telefone tocou novamente e tirou-a de seus pensamentos. Pensou em não atender, mas sabia que era ele. O marido devia estar sentindo a sua falta. Atendeu amuada, porém não deixou transparecer na voz.

            Ele queria saber se estava tudo bem, se havia pagado o condomínio e se a porteira vinha mantendo o apartamento limpo?

            Respondeu a todas as perguntas práticas do marido e despediu-se dele. No dia seguinte estariam juntos, era melhor dormirem.

            Voltou às suas lembranças e de tantas vezes que se deitaram, Murilo e ela, nas mornas areias de Caiobá. Já agora a lua cheia estava empinada no céu. Preferiu tentar dormir, mas a mente estava revolta e cheia de fatos já passados.

            Fora praticamente um ano de amor até que, também em Caiobá, recebera a notícia que mudaria sua vida.

Eles se separaram no final do ano. Ela acostumada a uma vida mais pacata preferiu ficar em Caiobá e esperá-lo. Seriam alguns dias de separação, para que pudesse se refazer da vida social agitada. Sua solidão desaparecera, mas sua vida se agitara. Murilo fora a Nova York passar o Natal e Ano Novo, enquanto aproveitava para solucionar um caso difícil do escritório. Um acidente de avião na volta de Nova York. Murilo estava morto.

A notícia lhe caíra como uma bomba. A subida da Serra do Mar, o caixão fechado, os pais dele que ela não conhecia, os amigos do escritório, tudo parecia o desenrolar de um filme de terror.

A solidão voltou a ser sua companheira. Ninguém a procurava. Tirara férias para beber sua dor até o último gole.

Seu único lenitivo foi procurar pai Joaquim. Ele era o único elo verdadeiro entre ela e Murilo. As semanas foram passando e quando voltou de férias seu coração já estava mais leve da dor.

Nessa época Carlos Eduardo voltou a procurá-la. Insistiu com sua companhia. Mostrou-lhe um mundo de altas rodas sociais. Veio-lhe à memória uma das primeiras noites em que saíra com Carlos Eduardo.

A noite estava clara, apesar da lua crescente. Era agradável respirar o ar noturno de Curitiba. Naquele junho já se começava a sentir a caída da temperatura, mas a noite mostrava o céu negro salpicado de estrelas.

            Carlos Eduardo a observava do carro. Colocara um vestido preto curto com uma pequena pelerine em veludo, sobre os ombros, que lhe caíam muito bem. Trocara o Paris pelo Bulgari, da Cristian Dior. Não queria que o odor do perfume lhe trouxesse à lembrança a figura de Murilo.

            Ele a levou até o Challet Suisse, em Santa Felicidade.

            O restaurante era numa casa em estilo suíço, construída bem no alto do terreno, toda rodeada por jardins, extremamente bem cuidados. A iluminação indireta e amarelada sobre as plantas conferia-lhe um ar bucólico.

            Sua alma de artista encantou-se com a cena.

            Carlos Eduardo, percebendo o encantamento de Natália. Brincou:

            — Pena você ter esquecido a tela e os pincéis, não?

            — Não se preocupe, eu tenho ótima memória. — Completou Natália, já imaginando como ficaria bela aquela cena impressa numa tela.

Já no interior, eles penetraram no amplo e agradável ambiente, com o ar impregnado de cheiros e odores de pratos deliciosos, flores e perfumes. Grupos de pessoas elegantemente trajadas sentavam-se aqui e acolá. A conversa discreta daquela gente despertara em Natália a sensação de um mundo distante daquele vivido com Murilo.

 Olhou o ambiente e se sentiu feliz em companhia de Carlos Eduardo, porém aquilo não a entusiasmaria a casar-se com ele, no entanto a perspectiva maior e mais profunda ao seu ser era voltada para o fato de constituir uma família. Teria duas filhas adotivas do primeiro casamento dele e a possibilidade de ter filhos seus. Encantou-se com a idéia.

Conheceu Armand, o mordomo e amigo pessoal de Carlos Eduardo. Ocorreu a empatia. Percebia nas maneiras sutis e fleumáticas de Armand o carinho por ela e uma aprovação tácita de seu casamento com Carlos Eduardo.

Armand tornou-se seu anjo da guarda. Nas recepções era ele a organizar para que ela recebesse as honras.

Sentiu-se acolhida e amada.

O casamento aconteceu, mas a felicidade completou-se realmente com a vinda de Letícia.

Estava tão envolvida com o mundo de Carlos Eduardo e com o ambiente romântico criado por Armand a cada jantar dos dois na mansão que não percebeu até onde ia seu amor ou sua admiração pelo marido.

Entregou-se à família, a pedido de Carlos Eduardo, esquecendo a profissão e suas tintas. A monotonia tomou conta dela. A memória de Murilo cada vez mais voltava a assombrá-la. Até que o encontrou no Shopping Novo Batel, numa exposição de quadros.

Seu bom senso evaporou-se. Voltou a encontrar o caminho do velho apartamento de solteira e lá, em longas tardes de primavera, esteve novamente nos braços de seu velho amor.

Parecia ter abandonado sua vida.

Armand a observava, mas nada comentava, apenas sentia tristeza por sua solidão e alienação.

Ela fugira até de pai Joaquim, o velho negro que se tornara seu único parente de coração.

Quando finalmente voltou a procurar pai Joaquim e contou-lhe sobre a volta de Murilo ele a olhou demoradamente e simplesmente pediu que ela voltasse a seguir o rio de Oxum, que seguisse seu destino, lá ela encontraria a felicidade.

Procurou Murilo e despediu-se dele. Foi uma despedida mútua, porque Murilo também decidira pela separação.

Depois daqueles dias ele evaporou no ar, não mais o encontrou ou soube dele. Seu psicanalista afiançava que aquilo fora uma criação de sua cabeça. Nada acontecera entre eles. Murilo estava morto. Apenas sua mente o fazia viver.

Nada importava agora. Voltara para sua realidade, seu marido, suas filhas. Ali era seu mundo.

Deixaria o rio de a vida seguir seu rumo.

O tempo passou. A vida a envelheceu. Passou pelo seqüestro de Carlos Eduardo, seu sofrimento e insegurança, o afastamento da empresa que ele tanto amava e o viu morrer, definhando lentamente. Bebeu o cálice de sua dor até o fim.

No casamento de Letícia sentiu falta do marido, mas entrando na biblioteca daquela casa que conhecia toda a sua história e guardava os momentos dos finais de noite, quando ambos conversavam sobre a vida e sobre a filhas, sentiu que se despedia de tudo. Uma sensação de dever cumprido.

Naquela tarde, entusiasmada com o lançamento de seus quadros não percebeu o perigo. A chuva fina caía incessante. Ela parou no sinaleiro e esqueceu-se de arrancar. As luzes piscavam: verde, amarelo, vermelho, verde, amarelo, vermelho…Quando se apercebeu da distração, lá estava ele lhe apontando a arma. Sua mente trabalhou incessantemente relembrando os momentos sofridos no seqüestro de Carlos Eduardo. A dor, o relato repetido milhares de vezes e jamais esquecido. Resolveu acelerar o carro e fugir dali.

Ouviu um estampido. Um zumbido no ouvido. As mãos amoleceram, soltando o volante.

De repente ela o viu. A mão estendida e o sorriso largo e maroto nas faces. Era Murilo, convidando-a para segui-lo. Estendeu-lhe a sua feliz, e sentiu o corpo levitar suavemente. Olhou lá embaixo a cena que ficava.

Finalmente estava livre do rio de Oxum.