A Terra é azul

Gagarin

Na verdade nem sabia sobre o que falar. Precisava de uma terapia para a alma. Escrever sempre me acalmou. Consegui silenciar o tumulto dos pensamentos escrevendo.

Quando era muito pequena formulava pequenos versos e os espalhava pela casa, onde meu pai ou minha mãe pudessem achá-los. Deram-me livros de Monteiro Lobato para ler. Gostei, porém, não era sobre aquelas histórias que gostaria de falar. Olhava os céus e me imaginava voando pelas estrelas, onde encontrava mundos diferentes. Seres diferentes, com linguagens diferentes, sem lhes captar o significado. Ficava feliz nesses espaços. Era como se fizesse parte do Universo.

Quando li numa revista a viagem de Yuri Gagarin para o espaço, tive um acesso de choro misturado com alegria. Parei sobre as frases pronunciadas por aquele homem: “A Terra é azul” e “Olhei para todos os lados, mas não vi Deus”. Passei a admirar aquele homem durante toda a vida. Minha mãe não entendeu a reação. Por que uma garota de dez anos chora por uma descoberta, apesar de importante para a humanidade, mas distante da realidade em que viviam?

Esta garota aqui passou a viver em transe e procurava tudo que pudesse ser escrito sobre ele e sobre o espaço. Recortou reportagens, fez colagens, escreveu suas emoções e o que pensava sobre a descoberta para o mundo. Seu corpo tremia, como se já tivesse vivido uma experiência semelhante. Pensou em seus devaneios sobre outros mundos e já se imaginava viajando pelo espaço. Era isso que faria quando crescesse.

Agora já mais velha, mas ainda curiosa pelo assunto, talvez venha um dia escrever um livro de ficção sobre o além do azul da Terra.

 

 

Nova capa para a terceira edição de Alquimia Final

banner-alquimia-final

O livro Alquimia Final conta a história envolvente de Natália. Uma advogada que sonhou ser artista plástica, suportando uma realidade especial de vida. Seu caminho se iniciou dentro de uma família de sete irmãos, órfãos de mãe e abandono paterno, muito cedo.
Com treze anos começou sua caminhada profissional. Ao formar-se em Direito fugiu dos irmãos a quem ajudava sustentar e foi para a capital do Paraná. Tornou-se uma grande advogada.
Apaixonou-se profundamente por um colega de escritório – Murilo. Através dele conheceu pai Joaquim e uma visão de vida totalmente diversa da sua.
Quando teve sua maior decepção amorosa como mulher, somente pai Joaquim soube consolá-la e levá-la para o centro espírita e repassar-lhe ensinamentos sobre a religião dos negros que vieram para o Brasil.
Voltou a envolver-se com Carlos Eduardo, que se transformou em seu marido. O casamento com Carlos Eduardo foi caindo na rotina, já que Natália se deixou transformar numa simples dona de casa. Isto despertou nela insegurança e solidão. Reencontrou Murilo e voltou a sentir aquela paixão forte que a embriagara antigamente.
Nessa época tentou fazer com que sua arte, a pintura, se tornasse reconhecida na França, através de Jacques, um marchand. Também Murilo se envolveu com a pintura, através de Pierre, um amigo e conhecedor de artes. Foi com Pierre que Murilo aprendeu muito sobre arte e pode apreciar a arte de Natália e ajudá-la a se desenvolver.
Natália viveu essa vida dupla até o momento em que decidiu abandonar seu grande amor e dedicar-se exclusivamente ao seu casamento e à sua família. Sua consciência não mais a deixava em paz. Também Murilo concordou com a ideia e desapareceu completamente da vida dela.
Profundamente desiludida com tudo, Natália deixou também sua pintura e nunca mais procurou Jacques, que respeitou essa sua decisão. Retornou Natália para sua vida e sua realidade, deixando que o rio de Oxum seguisse seu rumo, como sempre lhe aconselhava pai Joaquim, permitindo assim que o processo alquímico da transformação da vida se completasse. Nesse caminho finalmente Natália alcança o que tanto buscou.

capa-do-livro-A-Terra-e-azul

I Capítulo

 Yuri Gagarin

 

Na verdade ela nem sabia sobre o que falar. Precisava de uma terapia para a alma. Escrever sempre a acalmou. Conseguia silenciar o tumulto dos pensamentos escrevendo.

Quando era muito pequena formulava pequenos versos e os espalhava pela casa, onde o pai ou a mãe pudessem achá-los. Deram-lhe livros de Monteiro Lobato para ler. Gostou, porém, não era sobre aquelas histórias que gostaria de falar. Olhava os céus e se imaginava voando pelas estrelas, onde encontrava mundos diferentes. Seres diferentes, com linguagens diferentes, sem lhes captar o significado. Ficava feliz nesses espaços. Era como se fizesse parte do Universo.

Quando leu numa revista a viagem de Yuri Gagarin para o espaço, teve um acesso de choro misturado com alegria. Parou sobre as frases pronunciadas por aquele homem: “A Terra é azul” e “Olhei para todos os lados, mas não vi Deus”. Passou a admirar aquele homem durante toda a vida: A mãe não entendeu a reação. Por que uma garota de dez anos chora por uma descoberta, apesar de importante para a humanidade, mas distante da realidade em que viviam?

A garota passou a viver em transe e procurava tudo que pudesse ser escrito sobre ele e sobre o espaço. Recortou reportagens, fez colagens, escreveu suas emoções e o que pensava sobre a descoberta para o mundo. Seu corpo tremia, como se já tivesse vivido uma experiência semelhante. Pensou em seus devaneios sobre outros mundos e já se imaginava viajando pelo espaço. Era isso que faria quando crescesse.

***

Engraçado como imaginamos coisas impossíveis. – pensou. Há alguns anos atrás teve um relacionamento com um homem separado de sua mulher e ficou grávida dele. Quando lhe falou sobre o bebê ele entrou em pânico, dizendo que ia voltar para a família e que não desejava um filho fora do casamento. Olhou-o como se olha um monstro. Continuou a vida normalmente.

Quando ele soube da decisão começou a pressioná-la para tirar a criança. Aquilo se tornou um pesadelo. Não conseguia mais trabalhar com aquele homem ligando a todo tempo, pedindo que fosse ao médico e solicitasse o aborto.

Decidiu que iria fazer o que ele queria. Procurou um médico de confiança. Explicou detalhadamente o caso e pediu que encenasse todo o processo. O ex-namorado, agora “bem casado” novamente, foi junto no dia em que ocorreria o procedimento. O médico fez com que ele ficasse na sala de espera. Uma hora após dormir dentro de um pequeno quarto escuro, com janelas todas trancadas, saiu. Ainda sentia a tontura. Fora sedada. Mas sentiu seu bebê preservado dentro do útero.

Muitas vezes ele tentou retornar o relacionamento, mas ela não aceitou. Aquela atitude havia quebrado o encanto. Ele a observava desconfiado, quando vez ou outra se encontravam pelo caminho do trabalho. Mas, os caminhos da vida nem sempre respeitam nossos desejos. O aborto foi espontâneo. Ela chorou muito a sua perda.

***