A Tempestade

Um-homem-sob-a-chuva

Lá fora o vento virou e o tempo esfriou, trazendo um céu cinzento e brumoso. Alexandre Nogueira Ramos revirava na cama. Culpou a indigestão pela sua insônia. Resolveu sair para a rua repleta de gente. Pessoas aparentemente indiferentes a sua passagem, mas ele tinha certeza que dentre elas estariam os homens que o perseguiam. A qualquer instante eles poderiam agarrá-lo, empurrando-o para uma viela e retirar dele todas as informações que não podia dar.

Aquilo se tornara uma constante. Cada vez que deitava sabia que iria acordar encharcado em suor, com o coração batendo descompassadamente e a respiração entrecortada. Era o terror de viver naquele suspense.

Sentou-se na cama, pegou o maço de cigarros automaticamente e acendeu um. Olhou o quarto demoradamente e a cabeça começou a latejar alucinada. Amassou o cigarro no cinzeiro e foi até o banheiro em busca de um comprimido.

Quando a dor cedeu avaliou a situação com clareza. Admitiu que havia sido inconsciente ao atender aquele pedido de Rodrigo. Qual era a importância de Rodrigo Steinbrock ser seu colega de escritório de advocacia, se não podia tirá-lo daquela situação escusa?

Recordava um tempo bom em que tudo parecia passar lenta e acalentadamente. Na época da primavera tudo havia sido diferente. Os problemas desapareciam e se era mais feliz. Nas manhãs primaveris peticionar era uma chama acesa a todo instante. Subia as venezianas e via o asfalto secar, sob o sol cálido, após as chuvas. Por que havia chegado o inverno? Frio e duro daquela forma? Uma tempestade fora e dentro dele?

Decidiu descer e comprar a edição matutina do jornal da cidade. A expressão de cansaço ainda estava estampada no rosto. Virou a esquina e entrou na banca de revistas. Olhou ao derredor e o medo diminuiu. A cidade dormia. Raros transeuntes passavam por ali e ninguém o observava como se fosse abordá-lo. Os pingos da chuva tamborilavam sobre seu guarda-chuva, a capa mal o resguardava do temporal. Apressou o passo.

Ele sabia o quanto tinha sido prudente e como as coisas haviam corrido mal, mesmo assim. Dedicara seu tempo ao seu trabalho e acreditava na ética que um colega deve ter com o outro, mas jamais imaginou que Rodrigo pudesse colocá-lo numa situação incerta e desonesta. Ainda bem que sua mulher havia entendido a situação, aceitado viajar para o interior do estado e ficar na companhia dos pais. Até aquele caso se resolver era o melhor a fazer. Ela havia chorado, sim, lembrava-se agora, mais por ele do que pelo dinheiro não entrando, após o afastamento do escritório de advocacia. Ele havia sido estúpido o suficiente para tomar aquela canoa furada, mas agora não era hora de lamúrias e sim de soluções. Tudo vinha como parte da luta contra a pobreza que ambos enfrentaram quando crianças. É um sentimento que nunca se vence. Carrega-se pela vida. Os dois não admitiam isso com clareza, antes do fato. Pensavam ser superiores às outras pessoas, porque haviam vencido aqueles tempos duros e transposto o portal da infelicidade financeira. Agora aqueles conceitos haviam se banalizado por completo. Era o momento de defender sua honradez.

Ao deixá-la na rodoviária, para a volta à pequena cidade interiorana, sentiu como se retornassem à parte mais triste de suas vidas. Era cedo ainda e caminhavam enroscados nas capas de chuva, inclusive, cada qual puxando os capuzes sobre os rostos, para não serem reconhecidos. Ela voltava para o ambiente pardacento da meia-água de madeira caiada, à beira do rio Tibagi, no município de Telêmaco Borba. Ele continuaria em Curitiba, porém não se sentia o vitorioso de antes. Era como se houvesse se afastado do centro do palco teatral e entrado novamente no picadeiro circense. Triste ser que sorri de sua própria desgraça.

Mal haviam ganhado uma bolada com aquela causa e Rodrigo os envolvera num caso de tráfico de drogas e lavagem de dinheiro. Não sabia que a empresa sob sua defesa era mera fachada para lavar dinheiro sujo. Como explicar para a polícia que um advogado tinha sido envolvido e não prestara atenção em detalhes tão claros daquela situação. Era sócio de Rodrigo, mas não se preocupara em acompanhar suas causas. Apenas aceitava a procuração e deixava o caso sob a responsabilidade do outro. A ambição o cegara. Fora incapaz no uso do intelecto preparado para o raciocínio jurídico. Era tudo tão óbvio, agora. Bastava uma leitura dos documentos arquivados no escritório. Preferira a ingenuidade como parceira. Agora ele questionava sua inteligência.

Precisava decidir que caminho tomar. Procurar a polícia e confessar sua total estreiteza de raciocínio, provando com os documentos que guardava naquela pasta, e correr o risco de ser desacreditado, ou enfrentar os miseráveis que o haviam envolvido num conluio com eles. A segunda hipótese era fatal. Faria dele tão ou mais pérfido do que aquela gente. A primeira hipótese era o risco de ser preso e desacreditado. Mas ainda assim talvez o único caminho a ser encetado.

Caminhou de volta ao apartamento. Foi abordado na porta do prédio. Imaginou ser um dos “clientes”. Tarde demais, percebeu que era policial.

– Doutor! Bom dia. Sou o policial Neto e gostaria de solicitar uma ajuda sua, num caso que estamos estudando há algum tempo. – Olhou o policial e decidiu escutar tudo.

Ficou sabendo que eles queriam sua ajuda naquele caso, apesar de ele também ser procurador dos denunciados. Precisavam de alguém que os auxiliassem em maiores conhecimentos sobre os fatos. Perguntaram-lhe se não preferia ferir a ética profissional a ferir a Justiça.

Suspirou aliviado. Era o caminho que lhe restava.

Luar do meu sertão

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Retornar, após oito anos de ausência, transformou-se numa aventura muito intensa. O carro rodava na estrada sem curvas e deserta. Era uma motorista sem experiência a guiar na solidão da estrada. Mas nada podia assustar aquela mocinha que ia em busca de sua infância e de sua terra natal. A mãe cochilava ao lado. Os braços inexperientes começaram a formigar. Precisava parar para descansar.

Finalmente avistou um restaurante. Acordou a mãe. Desceram. Era a hora do almoço. Já ao sentarem à mesa perceberam a diferença dos costumes alimentares. Eram tantos os pratos de carnes quantos não havia os de verdura. Era o Estado das pastagens e do gado de corte.

Lá pelas duas horas da tarde seguiram viagem. Queriam chegar em Campo Grande à noitinha. O carro voltou a rodar na estrada vazia. O sono ia e vinha em razão do estômago saciado. Não havia como desistir. Era muita estrada para rodar. Vez ou outra cruzavam com alguém que vinha em direção oposta.

Chegaram em Campo Grande perto das oito horas da noite. Fora um dia inteiro na estrada. Estava exausta. Tomou um banho e dormiu doze horas seguidas. No dia seguinte acordou com o sol despontando e o coração estourando de alegria. Estava novamente na sua terra, mas a aventura apenas começara. Seguiram para a estação de trem. Subiram no vagão próprio, em busca da cabine. O trem começou com a sua a marcha. Lentamente foi deixando a estação. O barulho da Maria-fumaça seguia o seu ritmo contínuo, naquele estranho murmurar. Vez ou outra se ouvia o apito. Estavam próximos de alguma estação. Desciam muitos e subiam outros tantos.

À noitinha foram ao vagão restaurante. Era delicioso tomar aquela sopa no jogo gostoso e contínuo do trem. Assomaram à memória tantas lembranças. Velhas lembranças de criança. Um coreto. Uma banda. A quadra do cinema onde as moças mais velhas faziam o footing, o chamado passeio para namorar. Tudo era tão ingênuo e puro para aquelas bandas.

Ela deitou feliz no beliche de cima.

A mãe não conseguiu fechar a janela do trem e, a cada parada noturna, as luzes invadiam a cabine, mas o sono da menina de dezoito anos era tão tranqüilo que nem os olhos curiosos podiam despertar.

Finalmente a estação de Três Lagoas. A pequena cidade encravada no interior de Mato Grosso do Sul.

Desceram felizes como duas crianças. As primeiras imagens foram a praça e o coreto. Depois o grande relógio central e lá no fundo a catedral, única igreja católica da cidade.

De malas em punho dispensaram o táxi velho e desengonçado e subiram na charrete, toda pintada e reformada para o passeio com os turistas. Velhas memórias vieram-lhe à mente. Tantas e tantas viagens naquelas charretes em busca do Grupo Escolar Afonso Pena. Naquele tempo os cascos dos cavalos não batiam no asfalto, as patas animais afundavam na areia quente do calor escaldante daquela região do Brasil, seguindo num ritmo lento e calorento. Era sempre muito bom chegar à escola. A sombra das mangueiras à volta do velho prédio trazia o refresco agradável e tépido, amenizando o calor.

A charrete seguia, enquanto ouviam o tamborilar dos cascos dos cavalos até a casa de Tia Maria. Uma enorme casa cercada de mangueiras, com uma imensa varanda, onde as redes pareciam permanecer cotidianamente estendidas esperando o descanso do corpo que trazia a moleza do calor.

A alegria do reencontro foi imensa.

Não acreditávamos que viessem, dizia um.

Que bom que tiveram coragem para enfrentar a estrada, dizia outro. E a euforia era imensa.

Foi um reboliço a arrumação do quarto que não estava esperando as visitas. Atestava-se a incredulidade da viagem.

À noite as cadeiras foram sendo colocadas na calçada à frente da casa. Ela agora, como os adultos, também tinha uma cadeira para sentar.

Os vizinhos foram chegando e mais cadeiras foram sendo agregadas. A conversa era aquela de tantos anos atrás. Os filhos, a vida, a política do governo e o céu estrelado com a lua observando a cantilena de sempre. Mas como era bom conversar sob o céu estrelado do sertão da terra natal, mesmo que a prosa não tivesse mudado um tiquinho sequer. Nada era mais acolhedor do que sentir aquele cheiro de terra e ouvir aquele povo simples falar de coisas simples.

Lá pelas dez horas eles foram chegando. Violão debaixo dos braços, um velho acordeão e a música sertaneja e chorosa tomou conta de todos, enquanto a lua imensa e clara observava tudo do alto.

Mesmo que precisasse enfrentar novas doze horas de viagem sem parar e mais uma noite de trem, não desistiria de ouvir sua gente e ver aquele luar do seu sertão.

casal-na-praia

 

O rebuliço era imenso dentro do escritório. Havia adrenalina no ar. Mesmo após o estresse do ano todo, aquele dia parecia mais agitado. Alguns funcionários iriam sair de férias e, dentre eles, alguns advogados também.

A instituição aterrorizava a muitos advogados em relação aos prazos processuais. Não se permitia que assoberbassem os demais colegas com seus processos pendentes. Os prazos estavam vencendo e as férias forenses terminaria em meados de janeiro. Nem toda ansiedade e angústia vivida pelo ano inteiro poderia ser maior do que aquele vivenciado nos dias anteriores ao início das férias.

Márcia terminou finalmente a última petição e estava nas recomendações ao funcionário que faria a entrega dos autos na vara forense, quando percebeu a presença dele. Fernando entrou e a observou de longe. Ela sentiu o olhar queimá-la, mas não levantou os olhos. Não queria recomeçar todo aquele sofrimento dos dois últimos anos.

Aquela relação começara pela carência de Márcia.

Ela o sabia perfeitamente. Fernando era um homem charmoso e profundamente sensual. A sensualidade aparecia à flor da pele, e ela se envolvera completamente, esquecendo que ele era casado e tinha dois filhos.

A conversa havia sido a balela de sempre. Um homem mal casado, com uma mulher completamente desligada de suas necessidades físicas e emocionais e que não acompanhava a sua ambição em crescer social, financeira e intelectualmente. Neste momento quem sentia vergonha do próprio intelecto era Márcia. Ela não tivera um minuto sequer para desconfiar de que tudo aquilo não passava da lengalenga tantas e tantas vezes repetidas.

Juntou os papéis sobre a mesa. Havia terminado todo o suplício. Os processos pendentes haviam sido todos estudados e encaminhados. Levantou-se lentamente da cadeira e sabia que o suplício maior viria agora. Teria que se despedir de todos, inclusive dele. Não cabia na cabeça dela que os colegas sentissem pena de sua situação deplorável de “a outra”, posta de lado.

Decidiu que iniciaria por ele, assim poderia demonstrar todo o seu orgulho e coragem e… como dizem: é sempre mais interessante iniciar pelo pior.

Entregou os processos já prontos nas mãos dele. Além do mais era o chefe do setor e responsável pelo andamento dos serviços. Estendeu a mão para cumprimentá-lo, em despedida. Ele a puxou para si e deu-lhe um abraço forte. Ela pode sentir percorrer pelo corpo dele uma corrente elétrica, que imediatamente tomou o seu corpo. Quase fraquejou. Empertigou-se. Segurou uma lágrima teimosa, prestes a descer pela face. Deu-lhe um sorriso, que depois imaginou poderia ter sido mais um rito para careta, mas nada a importava. Queria apenas sair dali.

Passou em cada mesa. Abraçou os colegas, desejando para aqueles que também sairiam de férias um bom descanso e, aos demais, força para suportar a espera das próximas férias.

Dirigiu pela Marechal Deodoro e relembrou um tempo em que Curitiba ficava vazia naquela época do ano. Janeiro era um mês em que todos estariam na praia. A cidade havia crescido realmente, pensou. Finalmente estava na rua. Em casa pegou as malas já arrumadas e rumou direto ao aeroporto. Chegou na Região dos Lagos, perto de Búzios, as cinco da tarde. Pegou um táxi e após enfrentar alguns solavancos da estrada chegou naquela praia quase selvagem. Era ali o paraíso onde iria ficar por uns tempos. Tempo bastante, pensava, para esquecer Fernando.

Chegou no bangalô que havia alugado, soltou as malas no chão, retirou um short minúsculo e vestiu. Pegou uma cadeira de praia e seguiu para a areia. Sentou e se perdeu no tempo. O entardecer chegou como um espetáculo. O céu se pintou de todas as cores até chegar a um vermelho fogo, quando finalmente o sol se escondeu atrás do morro. Voltou para o bangalô, tomou um banho e deitou-se no sofá de almofadas fofas da pequena saleta. Pegou um livro e deliciou-se com o romance. Como era bom envolver-se com a ficção. Lá era o mundo do tudo certo, do tudo termina bem.

Acordou na manhã seguinte sentindo as costas. Havia dormido no sofá e o corpo sofrera o desconforto.

Iniciou sua rotina que viveria dali até o término de suas férias. Colocou um biquíni, juntou toda a parafernália que seria levada à praia: cadeira, guarda-sol, chapéu, livro, protetor solar e os colocou no carrinho. Seguiu seu caminho como uma garota que descobria uma novidade. Ficou sob o guarda-sol até perto das 11:30. Depois, como outras pessoas, foi para debaixo das árvores e lá ficou a ler seu livro. Observava a barraca de longe e ninguém mexia, ou mesmo chegava perto. Ficou feliz com essa constatação. Foi até o restaurante à beira mar e fez uma deliciosa refeição. Voltou para sua árvore. Espreguiçou-se na toalha. Quando acordou nem mesmo havia percebido o quanto dormira. A praia já estava quase vazia, até que somente restou sua cadeira sob seu guarda sol. Voltou a sentar sob o guarda-sol esperando, ansiosa, o espetáculo. Ele não demorou muito a acontecer. O céu se pintou de várias cores desde o amarelo, rosa, azul, lilás, até tingir-se totalmente de vermelho. Ela entregou-se ao êxtase até que o negro cobriu-o, por completo. Voltou para o bangalô. A alma ia leve. Apenas lá no fundo ainda persistia uma dor quase imperceptível.

Já vinte dias se passaram daquela rotina que lhe fazia tão bem. Havia se entregado completamente à beleza da natureza.

Voltou a sentar sob o guarda-sol. O céu começou a apresentar seu espetáculo do entardecer. Quando iniciou a colorir-se de vermelho, ela notou uma figura masculina recortada pelo lusco-fusco. Ele caminhava em sua direção. Parecia fazer parte de uma apresentação que a Natureza havia preparado para aquela tarde.

Quando ele chegou finalmente, ela o reconheceu. Mário era um ex-colega de faculdade que havia se casado na mesma época da formatura.

Foi esfuziante ao vê-la. Abraçou-a com carinho. Como era bom vê-lo! Percebeu que a paixonite da época da faculdade ainda lhe dava borboletas no estômago, mas logo em seguida retesou-se. Outro homem casado em sua vida… nunca!

Ele sentou-se feliz na areia ao lado dela e contou sobre o fim bastante dolorido de seu casamento por conveniência, como a fazer um “mea culpa”. Um ano já se passara que estava separado, mas não pretendia nova união tão cedo.

Ela sentiu-se tão envolvida com a história dele que lhe contou a dela.

Ele a olhou e ela percebeu que no fundo daqueles olhos havia certa alegria.

A rotina agora era a dois. Sentavam-se na areia e esperavam que a Natureza lhes proporcionasse a beleza diária.

Mas a Natureza não estava apenas preparando esse espetáculo a ambos. Certa manhã, quando ela saía do banho, ele entrou porta adentro. Olhou-a e encantou-se com o que viu e a natureza humana fez o resto.

Naquela tarde o entardecer perdeu dois espectadores assíduos, mas os últimos raios de sol foram espiar por entre as frestas, que o balanço da cortina proporcionava, os dois corpos nus, perdidos em si mesmos.

contos

            Natália olhava o mar de Caiobá. Sentada na sacada parecia ver a figura dele andando pela areia. Chegava a sorrir ao imaginá-lo acenando alegremente.

            Ligou para Carlos Eduardo. Precisava ouvir sua voz. Ele costumava escutar música clássica no final da tarde. O som entrou pelo telefone. Era Debussy. Carlos Eduardo apreciava Debussy.

            O marido dizia que “ninguém sonhara que Achille Claude Debussy chegaria algum dia a ser um grande artista. Aquele era um luxo impossível para a modesta pobreza dos Debussy”. Voltou a prestar atenção ao som da música. Tinha certeza que era Nuvens de os Três Noturnos. Conforme Carlos Eduardo, os Noturnos haviam representado um degrau na produção debussyniana. “A orquestração é mais atrevida do que em suas peças anteriores e o sistema harmônico alcança inovações insuspeitas diante do pleno aproveitamento das escalas orientais e gregas, que o mestre conseguiu tirar. Ele conseguiu juntar um mundo de sonhos por meio de sensações novas”. Carlos Eduardo simplesmente delirava ao ouvir Debussy e em especial os Três Noturnos.

            Prestou atenção a ele. Quando você pretende voltar? Ele falava da casa de praia no condomínio Atami, onde passavam as férias de verão. Continuou a conversa, discorrendo sobre a rotina, o trivial. O desejo de ouvi-lo passou. O encanto daqueles momentos diante do mar de Caiobá quase evaporou. Respondeu com secura. Só o faria no dia seguinte. Depois se arrependeu do tom, mas pareceu-lhe ele não ter notado.

            Voltou a ouvir o som do mar, naquele seu murmúrio contínuo. O sol se punha no horizonte. Ainda com as notas musicais no ouvido apreciou a beleza presente na Natureza.

            Foi num fim de tarde assim que ela se entregara a Murilo e ao seu amor. As areias mornas, pelo sol do dia inteiro, receberam os corpos dos dois.

            Olhou em derredor. A sala onde tantas vezes estiveram juntos parecia intacta. O sofá onde saciaram a sede da paixão que os envolvia parecia o mesmo. Ainda estava lá, como para testemunhar aquele amor. Mas o amor… O amor já não existia. Ou existia dentro dela?

            Seu amor por Murilo fora feito de tantos encontros e desencontros, tantas alegrias e uma profunda tristeza.

            O seu trabalho no escritório a fazia dedicar-se inteiramente a advocacia. Seu tempo pessoal era escasso. Viera de uma infância pobre, órfã de mãe e abandono de pai. Fora o arrimo familiar, desde tenros treze anos, juntamente com os dois irmãos mais velhos, dos quatro mais novos. Depois de formada seguira seu caminho. Saíra quase como uma fugitiva de sua pequena cidade no interior do estado de São Paulo. Seguira para Curitiba, a convite de alguns advogados, para fazer parte do escritório. Aquilo a entusiasmara. Era sua oportunidade. Salto ficara para trás e sua família também. Os irmãos a condenaram. Não aprovavam seu afastamento da família.

            Já fazia muito tempo que trabalhava no escritório quando conheceu Carlos Eduardo. Fora ela a advogada a acompanhá-lo na audiência de separação. Depois ele não mais a procurara, apesar de havê-la encantado com doces palavras.

            Murilo, também advogado do escritório, descobrira, de um momento para outro, seu interesse por ela.

            Naquele tempo, além de suas pinturas, tinha Murilo. Sua solidão parecia desvanecer-se diante da alegria quase infantil dele.

            Fê-la conhecer pai Joaquim, como o chamava. Aprendeu a amar aquele velho negro com o mesmo amor que Murilo lhe dedicava. Visitavam constantemente pai Joaquim, na pequenina casa caiada de branco no sopé da Serra da Graciosa. Ouvia, feliz, lendas sobre os Orixás. Outras vezes se deliciava com seu hobby e pintava o velho negro enrodilhando a fumaça de seu cachimbo, sentado à frente da pequena casinhola.

Pai Joaquim lhe falava de Oxum, seu orixá protetor. E pedia que ela seguisse o rio de Oxum porque lá estava seu destino.

            Ficou encantada com o ramalhete de flores encontrado sobre a mesa de sua sala no escritório e um cartão com palavras que a emocionaram.

            A partir daquele dia ele passou a presenteá-la com um ramo de flores silvestres todos os dias e enchê-la de mimos.

            Numa noite, após irem ao Teatro Guaíra e se enlevarem com a Orquestra Sinfônica interpretando Brams, Rachmaninov e Ravel, convidou-a para verem a lua na Serra do Mar. Apesar do susto inicial, seguiu Murilo na busca do romantismo do luar.

            A lua cheia e redonda iluminava o asfalto. Ele a convidou para apreciarem o espetáculo. Saíram do carro e foram plenamente iluminados. Ele a tocou de leve inicialmente, depois ela sentiu sua urgência. Entraram no carro e se amaram até a madrugada. Depois dormiram nos braços um do outro, extenuados pelo amor.

            O telefone tocou novamente e tirou-a de seus pensamentos. Pensou em não atender, mas sabia que era ele. O marido devia estar sentindo a sua falta. Atendeu amuada, porém não deixou transparecer na voz.

            Ele queria saber se estava tudo bem, se havia pagado o condomínio e se a porteira vinha mantendo o apartamento limpo?

            Respondeu a todas as perguntas práticas do marido e despediu-se dele. No dia seguinte estariam juntos, era melhor dormirem.

            Voltou às suas lembranças e de tantas vezes que se deitaram, Murilo e ela, nas mornas areias de Caiobá. Já agora a lua cheia estava empinada no céu. Preferiu tentar dormir, mas a mente estava revolta e cheia de fatos já passados.

            Fora praticamente um ano de amor até que, também em Caiobá, recebera a notícia que mudaria sua vida.

Eles se separaram no final do ano. Ela acostumada a uma vida mais pacata preferiu ficar em Caiobá e esperá-lo. Seriam alguns dias de separação, para que pudesse se refazer da vida social agitada. Sua solidão desaparecera, mas sua vida se agitara. Murilo fora a Nova York passar o Natal e Ano Novo, enquanto aproveitava para solucionar um caso difícil do escritório. Um acidente de avião na volta de Nova York. Murilo estava morto.

A notícia lhe caíra como uma bomba. A subida da Serra do Mar, o caixão fechado, os pais dele que ela não conhecia, os amigos do escritório, tudo parecia o desenrolar de um filme de terror.

A solidão voltou a ser sua companheira. Ninguém a procurava. Tirara férias para beber sua dor até o último gole.

Seu único lenitivo foi procurar pai Joaquim. Ele era o único elo verdadeiro entre ela e Murilo. As semanas foram passando e quando voltou de férias seu coração já estava mais leve da dor.

Nessa época Carlos Eduardo voltou a procurá-la. Insistiu com sua companhia. Mostrou-lhe um mundo de altas rodas sociais. Veio-lhe à memória uma das primeiras noites em que saíra com Carlos Eduardo.

A noite estava clara, apesar da lua crescente. Era agradável respirar o ar noturno de Curitiba. Naquele junho já se começava a sentir a caída da temperatura, mas a noite mostrava o céu negro salpicado de estrelas.

            Carlos Eduardo a observava do carro. Colocara um vestido preto curto com uma pequena pelerine em veludo, sobre os ombros, que lhe caíam muito bem. Trocara o Paris pelo Bulgari, da Cristian Dior. Não queria que o odor do perfume lhe trouxesse à lembrança a figura de Murilo.

            Ele a levou até o Challet Suisse, em Santa Felicidade.

            O restaurante era numa casa em estilo suíço, construída bem no alto do terreno, toda rodeada por jardins, extremamente bem cuidados. A iluminação indireta e amarelada sobre as plantas conferia-lhe um ar bucólico.

            Sua alma de artista encantou-se com a cena.

            Carlos Eduardo, percebendo o encantamento de Natália. Brincou:

            — Pena você ter esquecido a tela e os pincéis, não?

            — Não se preocupe, eu tenho ótima memória. — Completou Natália, já imaginando como ficaria bela aquela cena impressa numa tela.

Já no interior, eles penetraram no amplo e agradável ambiente, com o ar impregnado de cheiros e odores de pratos deliciosos, flores e perfumes. Grupos de pessoas elegantemente trajadas sentavam-se aqui e acolá. A conversa discreta daquela gente despertara em Natália a sensação de um mundo distante daquele vivido com Murilo.

 Olhou o ambiente e se sentiu feliz em companhia de Carlos Eduardo, porém aquilo não a entusiasmaria a casar-se com ele, no entanto a perspectiva maior e mais profunda ao seu ser era voltada para o fato de constituir uma família. Teria duas filhas adotivas do primeiro casamento dele e a possibilidade de ter filhos seus. Encantou-se com a idéia.

Conheceu Armand, o mordomo e amigo pessoal de Carlos Eduardo. Ocorreu a empatia. Percebia nas maneiras sutis e fleumáticas de Armand o carinho por ela e uma aprovação tácita de seu casamento com Carlos Eduardo.

Armand tornou-se seu anjo da guarda. Nas recepções era ele a organizar para que ela recebesse as honras.

Sentiu-se acolhida e amada.

O casamento aconteceu, mas a felicidade completou-se realmente com a vinda de Letícia.

Estava tão envolvida com o mundo de Carlos Eduardo e com o ambiente romântico criado por Armand a cada jantar dos dois na mansão que não percebeu até onde ia seu amor ou sua admiração pelo marido.

Entregou-se à família, a pedido de Carlos Eduardo, esquecendo a profissão e suas tintas. A monotonia tomou conta dela. A memória de Murilo cada vez mais voltava a assombrá-la. Até que o encontrou no Shopping Novo Batel, numa exposição de quadros.

Seu bom senso evaporou-se. Voltou a encontrar o caminho do velho apartamento de solteira e lá, em longas tardes de primavera, esteve novamente nos braços de seu velho amor.

Parecia ter abandonado sua vida.

Armand a observava, mas nada comentava, apenas sentia tristeza por sua solidão e alienação.

Ela fugira até de pai Joaquim, o velho negro que se tornara seu único parente de coração.

Quando finalmente voltou a procurar pai Joaquim e contou-lhe sobre a volta de Murilo ele a olhou demoradamente e simplesmente pediu que ela voltasse a seguir o rio de Oxum, que seguisse seu destino, lá ela encontraria a felicidade.

Procurou Murilo e despediu-se dele. Foi uma despedida mútua, porque Murilo também decidira pela separação.

Depois daqueles dias ele evaporou no ar, não mais o encontrou ou soube dele. Seu psicanalista afiançava que aquilo fora uma criação de sua cabeça. Nada acontecera entre eles. Murilo estava morto. Apenas sua mente o fazia viver.

Nada importava agora. Voltara para sua realidade, seu marido, suas filhas. Ali era seu mundo.

Deixaria o rio de a vida seguir seu rumo.

O tempo passou. A vida a envelheceu. Passou pelo seqüestro de Carlos Eduardo, seu sofrimento e insegurança, o afastamento da empresa que ele tanto amava e o viu morrer, definhando lentamente. Bebeu o cálice de sua dor até o fim.

No casamento de Letícia sentiu falta do marido, mas entrando na biblioteca daquela casa que conhecia toda a sua história e guardava os momentos dos finais de noite, quando ambos conversavam sobre a vida e sobre a filhas, sentiu que se despedia de tudo. Uma sensação de dever cumprido.

Naquela tarde, entusiasmada com o lançamento de seus quadros não percebeu o perigo. A chuva fina caía incessante. Ela parou no sinaleiro e esqueceu-se de arrancar. As luzes piscavam: verde, amarelo, vermelho, verde, amarelo, vermelho…Quando se apercebeu da distração, lá estava ele lhe apontando a arma. Sua mente trabalhou incessantemente relembrando os momentos sofridos no seqüestro de Carlos Eduardo. A dor, o relato repetido milhares de vezes e jamais esquecido. Resolveu acelerar o carro e fugir dali.

Ouviu um estampido. Um zumbido no ouvido. As mãos amoleceram, soltando o volante.

De repente ela o viu. A mão estendida e o sorriso largo e maroto nas faces. Era Murilo, convidando-a para segui-lo. Estendeu-lhe a sua feliz, e sentiu o corpo levitar suavemente. Olhou lá embaixo a cena que ficava.

Finalmente estava livre do rio de Oxum.

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Acalanto

O mundo tem aspectos que por vezes desconhecemos ou esquecemos. É uma ideia estranha pensar que podemos esquecer pequenas lembranças da infância, até o momento em que nos deparamos com uma realidade tão forte que nos transporta para aquele tempo.

Assim foi com Acalanto.

A realidade se instalou na minha frente. Observei aquele lugar e senti repulsa, num primeiro momento. Voltei para casa decidida a não trocar meu estado social por aquele local tão deprimente.

Há momentos em que a proteção sentida dentro do seu mundo é balançada e você fica exposta à fatalidade e imprevistos. Aquele era um deles.

Criei uma barreira, que me parecia intransponível. Mas a ponte fora lançada, eu precisava atravessá-la. Não havia volta naqueles tempos. Tudo me impulsionava para aquela aceitação.

Três meses depois lá estávamos, meu marido e eu, diante daquele pedaço de terra, cercados por vizinhos de poucas posses, vivendo a vida simples que me recordava a infância enterrada. Não tão enterrada, pois agora explodia diante do quadro que minha vista alcançava.

O terror se instalou até passar daquele estado ao êxtase. Foram emoções encadeadas pela fantasia de transformar aquele pedacinho de fim do mundo num paraíso.

Numa torrente de alegria lancei-me ao trabalho de limpar o terreno com a ajuda de um nativo. Enquanto ele capinava, deixando a terra nua, os tabletes de grama iam sendo assentados no terreno. O mestre-de-obras, contratado por baixo salário, paralelamente ia transformando a pequena casa de dois quartos em um belo e arejado chalé.

As treliças foram esmaltadas de branco, da cor das janelas de madeira e do teto, contrastando com o amarelo canário da casinhola, agora aconchegante e agradável. Os móveis, comprados numa feira própria, estavam sendo lixados e patinados. Os almofadados de um floral alegre recheavam os móveis de vime. Tudo cheirava a tinta fresca. O jardim à volta da casa também chegava ao seu final. Na entrada de duzentos metros, onde corria a ladeira até a casa, foram colocadas as palmeiras. Agora elas balouçavam suavemente à brisa da tarde e tudo convidava ao descanso e ao acalanto do colo materno. O nome surgiu assim, num repente.

A vida não pode ser encarada como um movimento de recuo – foi o que pensei – olhando para aquela paisagem. Estamos sempre caminhando em frente, descobrindo matizes dantes não revelados. Aquele era um matiz de minha vida. Sobreviver era preciso. Meu marido ainda se ressentia de ter sido despedido aos cinqüenta e dois anos de idade, sem eira nem beira, como gostava de repetir. A aposentadoria voara de suas mãos por alguns anos apenas. A rescisão salarial recebida fora toda usada para as reformas, esquecimento de lembranças desagradáveis e a transformação de Acalanto. O meu minguado salário de professora e o aluguel do belo apartamento na capital nos sustentariam. O ambiente não incitava gastos extras. Tudo seria medido dali em diante. Depois, era importante aquele presente que tornava a realidade mais palatável.

Os vizinhos foram se achegando devagar. Começamos a receber pessoas simples e o entrosamento foi sentido aos poucos. A vida interiorana invadiu nossos seres.

A brisa noturna do verão e o céu forrado de estrelas amainavam nossos espíritos, enquanto balançávamos nossos corpos molemente nas redes engastadas nas colunas do avarandado. Conversávamos, recordando passagens vividas. O convívio nos fez mais amigos e confidentes, conforme os dias e noites iam se desenrolando. Já não eram duas as redes. Apenas uma. Nossos corpos nus se ajustavam sob o céu estrelado. A sensualidade aguçada pelo clima tropical. Um encontro por inteiro.

Certo dia meu marido recebeu uma correspondência. Foi para um canto e ficou olhando fixo para o horizonte. Acompanhei o olhar e sondei o recorte da Serra do Mar. Esperei calma até que ele se decidisse falar.

– Recebi um convite para trabalhar em Curitiba.

– É mesmo…?

– Sim…

– Vai aceitar?

– Não sei ainda. Preciso pensar. – Afastou-se e seguiu para o bosque. Sentou-se naquele banco, onde gostava de meditar vez por outra, e ali ficou pela manhã toda.

Era a época das férias escolares e eu segui minha rotina cotidiana. Nada tinha pressa naquele lugar. Não seria eu a mudar aquilo, apenas me adaptara. No início havia sentido muita dificuldade. Agora, aquela angústia antiga não fazia sentido.

Eu o percebi ao meu lado.

– Acho que vamos voltar.

– Tem certeza?

– Tenho. Fui convidado para ser Diretor-Presidente de uma empresa em alta expansão. O salário é melhor do que o anterior. Preciso recomeçar. Retomar minha vida.

– Retomar sua vida?

-…Nossa vida, se prefere assim. Não há sentido continuarmos aqui se temos condições de voltar à vida anterior, aos velhos amigos. Foi um tempo de sossego, de férias, pelo menos para mim… – Olhou-me nos olhos e percebi a esperança brilhar, nos dele.

Aquiesci, sentindo uma dor profunda no peito. Teríamos que deixar Acalanto e tudo o quê ele havia significado para nós. …Ou para mim.

Os dias correram aparentemente calmos. A venda se concretizou. Voltamos a colocar nossas máscaras e o belo apartamento voltou a ser ocupado por nós, após o distrato do aluguel.

Os amigos de sempre, que voltaram com o retorno à situação econômica e social, viagens para a Europa, conversas sobre mazelas brasileiras indefinidas…

Acalanto ficou para trás. Uma bela lembrança, apenas. O tempo se encarregaria de torná-la apenas um borrão.

homem-na-tempestade

 

Lá fora o vento soprou forte e o tempo esfriou, trazendo um céu cinzento e brumoso. Alexandre Nogueira Ramos revirava na cama. Culpou a indigestão pela sua insônia. Resolveu sair para a rua repleta de gente. Pessoas aparentemente indiferentes à sua passagem, mas ele tinha certeza que dentre elas estariam os homens que o perseguiam. A qualquer instante eles poderiam agarrá-lo, empurrando-o para uma viela e retirar dele todas as informações que não podia dar.

Aquilo se tornara uma constante. Cada vez que deitava sabia que iria acordar encharcado em suor, com o coração batendo descompassadamente e a respiração entrecortada. Era o terror de viver naquele suspense.

Sentou-se na cama, pegou o maço de cigarros automaticamente e acendeu um. Olhou o quarto demoradamente e a cabeça começou a latejar alucinadamente. Amassou o cigarro no cinzeiro e foi até o banheiro em busca de um comprimido.

Quando a dor cedeu avaliou a situação com clareza. Admitiu que havia sido inconsciente ao atender aquele pedido de Rodrigo. Qual era a importância de Rodrigo Steinbrock ser seu colega de escritório de advocacia, se não podia tirá-lo daquela situação escusa?

Recordava um tempo bom em que tudo parecia passar lenta e acalentadamente. Na época da primavera tudo havia sido diferente. Os problemas desapareciam e se era mais feliz. Nas manhãs primaveris peticionar era uma chama acesa a todo instante. Subia as venezianas e via o asfalto secar, sob o sol cálido, após as chuvas. Por que havia chegado o inverno? Frio e duro daquela forma? Uma tempestade fora e dentro dele?

Decidiu descer e comprar a edição matutina do jornal da cidade. A expressão de cansaço ainda estava estampada no rosto. Virou a esquina e entrou na banca de revistas. Olhou ao derredor e o medo diminuiu. A cidade dormia. Raros transeuntes passavam por ali e ninguém o observava como se fosse abordá-lo. Os pingos da chuva tamborilavam sobre seu guarda-chuva, a capa mal o resguardava do temporal. Apressou o passo.

Ele sabia o quanto tinha sido prudente e como as coisas haviam corrido mal, mesmo assim. Dedicara seu tempo ao seu trabalho e acreditava na ética que um colega deve ter com o outro, mas jamais imaginou que Rodrigo pudesse colocá-lo numa situação incerta e desonesta. Ainda bem que sua mulher havia entendido a situação, aceitado viajar para o interior do estado e ficar na companhia dos pais. Até aquele caso se resolver era o melhor a fazer. Ela havia chorado, sim, lembrava-se agora, mais por ele do que pelo dinheiro não entrando, após o afastamento do escritório de advocacia. Ele havia sido estúpido o suficiente para tomar aquela canoa furada, mas agora não era hora de lamúrias e sim de soluções. Tudo vinha como parte da luta contra a pobreza que ambos enfrentaram quando crianças. É um sentimento que nunca se vence. Carrega-se pela vida. Os dois não admitiam isso com clareza, antes do fato. Pensavam ser superiores às outras pessoas, porque haviam vencido aqueles tempos duros e transposto o portal da infelicidade financeira. Agora aqueles conceitos haviam se banalizado por completo. Era o momento de defender sua honradez.

Ao deixá-la na rodoviária, para a volta à pequena cidade interiorana, sentiu como se retornassem à parte mais triste de suas vidas. Era cedo ainda e caminhavam enroscados nas capas de chuva, inclusive, cada qual puxando os capuzes sobre os rostos, para não serem reconhecidos. Ela voltava para o ambiente pardacento da meia-água de madeira caiada, à beira do rio Tibagi, no município de Telêmaco Borba. Ele continuaria em Curitiba, porém não se sentia o vitorioso de antes. Era como se houvesse se afastado do centro do palco teatral e entrado novamente no picadeiro circense. Triste ser que sorri de sua própria desgraça.

Mal haviam ganhado uma bolada com aquela causa e Rodrigo os envolvera num caso de tráfico de drogas e lavagem de dinheiro. Não sabia que a empresa sob sua defesa era mera fachada para lavar dinheiro sujo. Como explicar para a polícia que um advogado tinha sido envolvido e não prestara atenção em detalhes tão claros daquela situação. Era sócio de Rodrigo, mas não se preocupara em acompanhar suas causas. Apenas aceitava a procuração e deixava o caso sob a responsabilidade do outro. A ambição o cegara. Fora incapaz no uso do intelecto preparado para o raciocínio jurídico. Era tudo tão óbvio, agora. Bastava uma leitura dos documentos arquivados no escritório. Preferira a ingenuidade como parceira. Agora ele questionava sua inteligência.

Precisava decidir que caminho tomar. Procurar a polícia e confessar sua total estreiteza de raciocínio, provando com os documentos que guardava naquela pasta, e correr o risco de ser desacreditado, ou enfrentar os miseráveis que o haviam envolvido num conluio com eles. A segunda hipótese era fatal. Faria dele tão ou mais pérfido do que aquela gente. A primeira hipótese era o risco de ser preso e desacreditado. Mas ainda assim talvez o único caminho a ser encetado.

Caminhou de volta ao apartamento. Foi abordado na porta do prédio. Imaginou ser um dos “clientes”. Tarde demais, percebeu que era policial.

– Doutor! Bom dia. Sou o policial Neto e gostaria de solicitar uma ajuda sua, num caso que estamos estudando há algum tempo. – Olhou o policial e decidiu escutar tudo.

Ficou sabendo que eles queriam sua ajuda naquele caso, apesar de ele também ser procurador dos denunciados. Precisavam de alguém que lhes os auxiliassem em maiores conhecimentos sobre os fatos. Perguntaram-lhe se não preferia ferir a ética profissional a ferir a Justiça.

Suspirou aliviado. Era o caminho que lhe restava.