Aquele beijo

dois jovens enamorados se beijando

Éramos jovens. Ele tinha dezenove anos e eu dezessete. Foi meu primeiro amor.

Desde o momento que o vi pela primeira vez, senti um aperto no peito e soube que ele seria importante para mim. Aliás, já era importante.

Sempre gostei de dançar, mas ele não. Ficava me olhando de longe e não tinha coragem para chegar.

Na primeira vez em que atravessou o salão e me convidou para dançar, meu coração disparou, minha mão suava frio o corpo todo tremia. Não conseguia controlar. Mas o dele também tremia. Nos olhamos nos olhos e lágrimas assomaram teimosas em nossos olhos. Já nos conhecíamos de outro espaço sideral. Estrelas pipocavam, a música era só nossa “Dio come te amo”, o salão ficou vazio e pudemos dançar sem olhares curiosos. Não conseguíamos pronunciar uma única palavra. Somente nossos corpos diziam nossos sentimentos. A orquestra parou e a magia se desfez. Ele ainda pareceu indeciso, não queria tirar o braço de minha cintura e continuava a me olhar. A boca não articulou palavra, mas o olhar me disse tudo. Daquele dia em diante seríamos namorados.

Jamais fui beijada daquele jeito. Os anos passaram. Tive vários namorados. Casei. Tive filhos, mas os braços que rodearam minha cintura, o olhar que cintilou estrelas diante de mim e os lábios que colaram nos meus, jamais encontrei.

Dizem os poetas que quando beijamos alguém e viajamos aos céus, tudo o que virá depois será perfeito. Nada pode ser mais convincente de que uma relação dará certo depois desse beijo paraíso.

Temos de nós o ar que respiramos

a pessoa que você gosta está se afastando

Preciso lhe dizer algo que me vai no coração. Eu não faço ideia de como anda sua vida, nem os planos que você fez e seguiu ou deixou de lado. Também não sei dizer como deve estar seu coração em relação a mim ou a tudo que lhe aconteceu neste tempo em que não nos vemos. Não tenho a mínima ideia de tudo que ocorreu em sua vida sem a minha presença. Não sei se em seu calendário consta a época em que estivemos juntos, ou que importância tive para sua vida nesse nosso longo tempo afastados. Sei apenas que o tempo existe, que passou e eu continuo a lembrar sua voz, seu olhar, seu sorriso, o primeiro beijo e os outros também.

Na verdade você foi meu primeiro amor, meu primeiro namorado, meu primeiro beijo na boca… e o gosto ficou até hoje. Depois… nos afastamos. Casei. Você casou. Enviuvei. Você se lamentou. A vida nos separou. Foi nosso primeiro desencontro. Mas a vida seguiu e nossos caminhos foram eternos desencontros. Quando nos encontrávamos estávamos com outros parceiros.

Não tenho a menor ideia das adversidades passadas por você, assim como você também não sabe das minhas. No entanto, lembro de cada momento em que nos encontramos pela vida, nossas mãos se tocaram no dia em que meus pacotes de presente de Natal caíram e alguém ajudou a pegá-los do chão. Quando ergui meus olhos, já arrepiada pelo toque, encontrei seu olhar no meu. Não sei se você me ajudou porque já sabia que era eu, ou foi solícito com alguém desconhecido.

Sabe, sua voz está tão entranhada em mim que aquela vez que uma aluna pediu para eu ligar ao chefe dela não me toquei. Eu liguei e ouvi você. Do outro lado estava você! Pensei sufocar. Tive ímpetos de lhe dizer: Eu ainda amo você. Mas, o racional foi mais assentado e meu marido estava do outro lado da sala. Você me convidou. Estava sozinho. Eu havia voltado para meu ex.  Senti um arrepio de amor e uma vontade louca de descobrir nós dois. Um repuxo de arrependimento, olhando para aquele com quem eu levava minha vida.

Não sei como é sua companheira de caminho. Imagino que a ame, mas gostaria muito de estar colada lá no fundo de sua alma, como você está na minha.

Espero que um dia você possa ler esta carta e, quem sabe, responder pela internet que alguém que você muito amou deixou o perfume de sua inocência dos nossos anos dourados impregnado no ar que respiramos juntos, porque apenas isso temos de nós.