Você está cansado da corrupção no Brasil?

Oi!
Eu acabei de assinar o abaixo-assinado “Concurso público para escolha de ministros do STF”. É importante. Você pode assinar também?
Aqui está o link:
https://www.change.org/p/concurso-público-para-escolha-de-ministros-do-stf?utm_medium=email&utm_source=petition_signer_receipt&utm_campaign=triggered&share_context=signature_receipt&recruiter=640680905
Obrigado,
Silvia Regina

Sonhos de escritor

o voo da aguia

 

Calma e quietude. Solidão diante da máquina. A inspiração demora. Nada escrito. Olhos que se voltam de um lado para outro em busca da continuidade. O livro parece adormecer. Os pensamentos pairam no ar. Através dos pensamentos parece que a mente está vazia, mas o poder fantástico da imaginação conduz os dedos no teclado. Viaja a uma aventura quase delirante.

Imagens pululam. O escrever é inevitável. Alguma recordação ainda que breve chega ao cérebro. Teclar é preciso. Deixa a personagem acordar e ficar presente. O momento prestes a se perder retorna ao ponto da exaustão. Reflexão sobre a infância, tão familiares que se introduzem nos acontecimentos da trama. Situações marcantes da vida, de decepções e de frustrações recentes, de arrependimentos dentre uma imensidão de reflexões, emergem como numa enxurrada avassaladora e tomam conta do ser. Os planos e projetos futuros com suas incertezas e possibilidades num momento otimista também fazem parte do turbilhão de pensamentos. A obra se impõe.

Até que não mais se apercebe nitidamente. Apenas os dedos teclam num ritmo alucinante. Seu senso de alerta é engolfado pela personagem deslizando para a tela do computador. A história se recobra. Com ela os intrigantes sonhos são registrados, horizontes descobertos. A personalidade traz algumas de suas manifestações sombrias e enigmáticas.

Em meio a essa loucura: um despertar. O sonho gera inspiração, se torna obsessão, o despertar, para quem prefere ser escritor, é um alívio. Se não houvesse sequer recordação de momentos, então o despertar é estranho: tudo pode voltar ao começo. A dificuldade invade novamente e a cena se desconstrói. Ou não: apenas um breve momento até chegar ao ponto. Pode durar somente o instante de olhar a hora e voltar ao estado vesano.

Geralmente nesse estágio, as horas se tornam criança. O tempo se esvai sem pios, enquanto avança no drama. Se houver sucesso, então o aprazível descanso restaurador e salutar agracia o autor a espera de um novo momento extasiado de dor e amor.

A Terra é Azul – Terceiro Capítulo

  1. Filho de Rogério

 

capa-do-livro-A-Terra-e-azul

— Engraçado como imaginamos coisas impossíveis, pensou. Há alguns anos atrás teve um relacionamento com um homem casado e ficou grávida dele. Quando lhe falou sobre o bebê ele entrou em pânico, dizendo que tinha sua família e que não desejava um filho fora do casamento. Olhou-o como se olha um monstro. Continuou a vida normalmente. Não tiraria seu filho!

Quando ele soube da decisão, começou a pressioná-la para tirar a criança. Aquilo se tornou um pesadelo. Não conseguia mais trabalhar com aquele homem ligando a todo tempo, pedindo que fosse ao médico e solicitasse o aborto.

Decidiu que iria fazer o que ele queria. Procurou um médico de confiança. Explicou detalhadamente o caso e pediu que encenasse todo o processo. O ex-namorado, agora “novamente bem casado”, foi junto no dia em que ocorreria o procedimento. O médico fez com que ele ficasse na sala de espera. Uma hora após dormir dentro de um pequeno quarto escuro, com janelas todas trancadas, saiu. Ainda sentia a tontura. Fora sedada. Mas sentiu seu bebê preservado dentro do útero.

Muitas vezes ele tentou retomar o relacionamento, mas ela não aceitou. Aquela atitude havia quebrado o encanto. Ele a observava desconfiado, quando vez ou outra se encontravam pelo caminho do trabalho. Engordou apenas seis quilos e usava roupas folgadas, que condiziam com a moda da época.

— O que aconteceu? – ouviu a pergunta. Não era nenhum sonho. Rogério adentrou ao quarto, um quarto vulgar, bastante acanhado, ali estava, como de costume, entre as quatro paredes que lhe eram familiares. Por sobre a cama, onde estava deitada desnuda, alimentava o filho no seio. A face se fez lívida, enquanto ela cobria-se com o lençol do quarto em completa desordem. Uma série de roupas infantis ainda esticadas na cama.

Rogério era fiscal da Receita Federal. Estava retornando de uma de suas viagens e resolveu procurá-la. Renata deixou a criança, já satisfeita, sobre a cama desarrumada e lentamente pôs-se a pendurar cada peça de roupa num velho armário com portas que não fechavam. Enquanto as portas teimavam em abrir, Rogério olhava, enfurecido, a criança que dormia placidamente, sobre os lençóis amarfanhados.

Recentemente alguém lhe mostrara um recorte de uma revista, onde ilustrava a foto de Renata com uma criança ao colo. Um garoto de rua havia tentado roubar-lhe a bolsa e fortuitamente fora flagrada e dera ensejo à matéria.

Ouviam-se os pingos de chuva baterem na calha da janela e isso o fez sentir-se bastante melancólico. Em épocas anteriores era sua foto colocada numa bonita moldura dourada sobre a cômoda antiga. Mostrava um homem bem posto a sorrir. Mas quem sorria agora era aquele garotinho deitado e ausente de toda dor que lhe calcava o peito.

Rogério desviou então a visão para a janela e deu com o céu nublado. – Não seria melhor rodar nos calcanhares e esquecer todo aquele delírio? – cogitou. Mas era impossível, estava envolvido na presente situação, não podia virar-se e ir embora tão somente.

Por mais que se esforçasse por aceitar o fato e toma-lo como resolvido, continuava a debater-se entre culpa e ira. Inclinou o corpo para a direita, tentando esconder da visão o garoto deitado. Tentou, pelo menos, cem vezes, fechando os olhos, para evitar ver a cama, onde se deitaram ele e Renata e ali fizeram o menino. Lembrava as pernas longas e torneadas envolverem seu corpo. Só desistiu quando começou a sentir no flanco uma ligeira dor entorpecida que nunca antes experimentara.

Oh, meu Deus, pensou, que situação tão aterradora escolhi! Viajar, a negócios, mês sim, mês não, lhe fora propício. Era um trabalho muito mais irritante e cansativo do que o trabalho do escritório propriamente dito, e ainda por cima havia o desconforto de andar sempre a visitar empresas, onde gerentes tentavam enganá-lo; preocupado com as conexões corriqueiras

dos aviões; com a cama e com as refeições irregulares; com conhecimentos casuais, que são sempre novos e nunca se tornam amigos íntimos.

— Diabos tirem tudo isto da minha mente! Sentiu uma leve comichão nas costas; arrastou-se lentamente para a cadeira vazia, mas seus olhos se voltaram para cima da cama. Não conseguia mexer um músculo. Estava estático diante do fato consumado. Identificou o local da comichão, que estava rodeado de uma série de pequenas bolhas, cuja natureza não compreendeu no momento e fez menção de coçar. Depois, lembrou-se da alergia em momentos de angústia e imediatamente sentiu-se percorrido por um arrepio gelado.