capa-do-livro-A-Terra-e-azul

I Capítulo

 Yuri Gagarin

 

Na verdade ela nem sabia sobre o que falar. Precisava de uma terapia para a alma. Escrever sempre a acalmou. Conseguia silenciar o tumulto dos pensamentos escrevendo.

Quando era muito pequena formulava pequenos versos e os espalhava pela casa, onde o pai ou a mãe pudessem achá-los. Deram-lhe livros de Monteiro Lobato para ler. Gostou, porém, não era sobre aquelas histórias que gostaria de falar. Olhava os céus e se imaginava voando pelas estrelas, onde encontrava mundos diferentes. Seres diferentes, com linguagens diferentes, sem lhes captar o significado. Ficava feliz nesses espaços. Era como se fizesse parte do Universo.

Quando leu numa revista a viagem de Yuri Gagarin para o espaço, teve um acesso de choro misturado com alegria. Parou sobre as frases pronunciadas por aquele homem: “A Terra é azul” e “Olhei para todos os lados, mas não vi Deus”. Passou a admirar aquele homem durante toda a vida: A mãe não entendeu a reação. Por que uma garota de dez anos chora por uma descoberta, apesar de importante para a humanidade, mas distante da realidade em que viviam?

A garota passou a viver em transe e procurava tudo que pudesse ser escrito sobre ele e sobre o espaço. Recortou reportagens, fez colagens, escreveu suas emoções e o que pensava sobre a descoberta para o mundo. Seu corpo tremia, como se já tivesse vivido uma experiência semelhante. Pensou em seus devaneios sobre outros mundos e já se imaginava viajando pelo espaço. Era isso que faria quando crescesse.

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Engraçado como imaginamos coisas impossíveis. – pensou. Há alguns anos atrás teve um relacionamento com um homem separado de sua mulher e ficou grávida dele. Quando lhe falou sobre o bebê ele entrou em pânico, dizendo que ia voltar para a família e que não desejava um filho fora do casamento. Olhou-o como se olha um monstro. Continuou a vida normalmente.

Quando ele soube da decisão começou a pressioná-la para tirar a criança. Aquilo se tornou um pesadelo. Não conseguia mais trabalhar com aquele homem ligando a todo tempo, pedindo que fosse ao médico e solicitasse o aborto.

Decidiu que iria fazer o que ele queria. Procurou um médico de confiança. Explicou detalhadamente o caso e pediu que encenasse todo o processo. O ex-namorado, agora “bem casado” novamente, foi junto no dia em que ocorreria o procedimento. O médico fez com que ele ficasse na sala de espera. Uma hora após dormir dentro de um pequeno quarto escuro, com janelas todas trancadas, saiu. Ainda sentia a tontura. Fora sedada. Mas sentiu seu bebê preservado dentro do útero.

Muitas vezes ele tentou retornar o relacionamento, mas ela não aceitou. Aquela atitude havia quebrado o encanto. Ele a observava desconfiado, quando vez ou outra se encontravam pelo caminho do trabalho. Mas, os caminhos da vida nem sempre respeitam nossos desejos. O aborto foi espontâneo. Ela chorou muito a sua perda.

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