DIGNIDADE MANCHADA

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Estou escrevendo um livro de suspense sobre a história de um homem íntegro que se viu às voltas com a Justiça de forma inarredável, apesar de sua inocência. Este  é o início do primeiro capítulo, já revisado, cortado e talvez ainda venha a sofrer mudanças, mas deixo aqui para que meus leitores opinem.

1º Capítulo

Era Auditor Fiscal da Receita Federal e funcionário público federal. Esta é uma história longa e recheada de altos e baixos, como de resto é a vida.

Tinha 32 anos quando aconteceu. Passado quatro anos do ato de posse, abriram um processo administrativo contra ele.

“Talvez seja por ter levantado com o pé esquerdo ou passado por uma semana ruim no trabalho” — pensou Henrique. Mas, aquela situação insólita desencadeou uma crise de desânimo, confundindo-o.

Quanto mais tentava entender o imbróglio em que estava metido mais o estresse desorganizava seus pensamentos. O medo de continuar analisando os processos esfriava suas mãos, o estômago revolto trazia ânsias quase ao descontrole.

O tempo não passava, enquanto o processo administrativo corria contra ele e muitos mais que foram culpados de improbidade administrativa.

No final isentaram-no de culpa. Seu ânimo tinha ido a zero. Precisava acreditar no futuro, afinal sempre fora um homem honesto, íntegro. Seu ânimo começou a se erguer quando se recordou de seu pai.

— Você será um grande homem, filho. Eu não pude estudar, mas dei a você todo o estudo que precisa para enfrentar o caminho da vida. Tenho certeza de que não vai me decepcionar nunca. Você é honesto, estudioso, respeitador. Tudo que um homem de bem deve ser.

Porém, um grupo de insatisfeitos dentro da Receita Federal não quis ficar quieto, havia muita inveja e vingança no ar. O brilhantismo dele o alçara a Chefe de Seção. Isso acirrara os ânimos. O processo administrativo foi enviado pelo Procurador-Chefe da Fazenda Nacional direto ao Ministério Público Federal. Dado início ao processo judicial na Justiça Federal levou 6 meses e a sentença foi proferida em primeiro grau, por uma jovem juíza federal, que substituiu o Juiz Faizal, titular em suas férias. Desconhecedora das filigranas do processo prolatou sentença condenando Henrique ao crime de evasão de divisas para uma conta numerada e em seu nome no exterior.

Henrique só entendeu o embrulho em que estava metido quando leu os jornais e assistiu a televisão sobre o assunto. O jornal dizia algo assim:

Esquema de corrupção e sonegação é descoberto em delegacia da Receita Federal

A PF e a própria Receita descobriram que alguns fiscais recebiam propina de empresários e em troca não cobravam deles todos os impostos devidos. Prejuízo aos cofres públicos é calculado em mais de R$ 3 bilhões.

Um golpe descoberto em uma delegacia da Receita Federal, provocou prejuízos aos cofres públicos estimados em mais de R$ 3 bilhões.

Dinheiro guardado assim coisa boa não é: no fundo da casa, em fundos falsos, dentro de caixas de leite e levados para fora do país, numa conta na Suíça. O equivalente a quase R$ 13 milhões, inclusive em moeda estrangeira que, segundo suspeita da Polícia Federal, o dinheiro vinha de propina. Uma fonte que serviu para compra de carrões e mansões. Patrimônio incompatível com o salário de fiscal da Receita Federal. Mesmo sem provas cabais de que Henrique era dono de algum desses bens, constava contra ele a tal conta numerada e com vários saques.

Aquilo o deixava tonto e cada vez mais buscava entender como alguém podia abrir uma conta no exterior sem o seu consentimento.

O banco suíço enviou os documentos e os peritos brasileiros afiançaram que a assinatura do contrato era de Henrique, apesar de ele negar peremptoriamente.

Em uma investigação que começou em janeiro, a Polícia Federal e a própria Receita descobriram que alguns fiscais recebiam propina de empresários e em troca não cobravam deles todos os impostos que deviam. Algumas pessoas físicas também entraram no esquema para sonegar.

E mais um blá,blá,blá…”

Ele não quis mais ler. Já havia entendido onde o haviam colocado – no bolo dos desonestos – aquilo apenas o desalentava diante de tanto disparate. Tinha um advogado com grande cabedal de conhecimentos na área administrativa criminal e ele tentava fazer aquele homem entender a sua descrença.

 — Bastante difícil de acreditar que você desconhecia todos esses fatos dentro do setor que comandava. Sou seu advogado, mas sinto dizer-lhe que preciso da verdade. Essa ingenuidade não tem pé nem cabeça. Um homem que passa num concurso público, é alçado ao cargo de chefia do setor onde propinas eram o corrente, não há como lhe dar crédito se não ouvir a sua verdade dos fatos. – Mas, Henrique continuava negando, apesar de lembrar vagamente de uma conversa tida com o candidato ao Senado federal para as eleições daquele ano. Porém, nem mesmo aquilo o fazia cúmplice da bandidagem que havia se formado na Receita.

Depois daquela conversa ácida com seu advogado ele não mais o viu. As novidades seguintes lhe foram dadas pelos advogados dos demais quadrilheiros. Nem toda explicação sobre o assunto o convencia de sua participação. Somente se fora drogado para assinar um documento jamais visto. Ele não podia entender, pois nada havia feito daquilo que lhe imputavam.

O processo caminhava regular, enquanto o titular da Vara Federal estava em exercício. Nas férias do titular a jovem juíza foi procurada por um dos Procuradores da Fazenda Nacional e decidiu pela condenação. Não se provou fraude ou recebimento de propina, mas sabidamente a manipulação e evasão de divisas. A sentença dizia que ele mantinha uma conta no exterior em seu nome, de onde foram feitos saques de milhões de dólares.

O advogado contratado tinha fama nacional na área do Direito Administrativo e Criminalista, pagou regiamente seus honorários adiantado, mas foi o estagiário do escritório a defendê-lo. Ele deduziu que o advogado não deu crédito a nada que ouvira dele e deixou o processo a cargo de um jovem e brilhante advogado, sem qualquer experiência prática na área. Recém-formado na faculdade de Direito. Entrou com todos os recursos, seguindo seus cursos, e não houve procedimento, mecanismo, estatuto cautelar, tecnicidade, brecha ou pai-nosso que restasse em seu arsenal de medidas e procedimentos a obstar o prosseguimento do processo e ao final inocentá-lo.

— Não tenho mais nada a fazer, Sr. Henrique Vaz. Como conheço nossa lei brasileira, posso fazer o que alguns colegas fazem e entupir os tribunais com pilhas de petições e mandados de segurança inúteis e tantas outras papeladas imprestáveis, mas nada ajudaria nossa causa. A realidade é que não entendo como após tantas considerações, provas, os juízes e ministros se fazem surdos ao óbvio. Vários outros peritos que contratamos foram unânimes em dizer que sua assinatura naquele documento era de uma falsidade kafkiana.

O rapaz não devia estar carregando nos ombros aquela responsabilidade, pois apesar de haver sido pago, o professor deixou o caso nas mãos dele.

Os problemas disciplinares com a Estatal foram relatados no jornal corrente da cidade. Foi despojado de sua dignidade, sua honradez. A linguagem jornalística estava certa — uma condenação por cometer crime equivalente à cassação do cargo público por improbidade administrativa e evasão de divisas.

Ora, se improbidade administrativa é o designativo técnico para conceituar corrupção administrativa, ou seja, o contrário à honestidade, à boa-fé, à honradez, à correção de atitude, ele não havia cometido qualquer ato que o colocasse naquela situação. Mas, o processo dizia que o ato de improbidade cometido por ele era uma omissão praticada no exercício da função, possibilitando seus comparsas a enviarem divisas para um banco na Suíça e ainda a sua adesão e ganância no mesmo passo.

O enquadraram em violação ao princípio da Administração. Seu enquadramento foi feito baseado na Lei 8.429/92, também conhecida como Lei do “colarinho branco”. Havendo a evasão de divisas, além de responder civilmente, perder o cargo e ficar com uma dívida impagável, também foi processado na área criminal.

Antes do ocorrido, sendo e Chefe da Fiscalização da Estatal recebeu uma proposta de um candidato ao Senado Federal, um amigo pessoal, Hudson Carvalho de Morais, que frequentava sua casa. Ele solicitou:

— Henrique você pode resolver esse caso para mim. Você sabe que eu ganho o pleito se meu adversário for preso. Depois, ele é culpado e seus colegas estão levando grana alta nessa história. Encontre tudo contra aqueles que estão se locupletando do erário público. Como Senador eu poderei remanejar você para um cargo de alto escalão no Senado.

Mas, a consciência do homem probo não acreditou na conversa do amigo. “Afinal trabalho num órgão de pessoas idôneas, são funcionários públicos e precisam zelar pelo seu nome”. Tudo o impediu de dar guarida ao pedido. Do outro lado estava o dono de uma empresa fiscalizada pela Estatal que precisava ser fechada. Como Auditor Fiscal Chefe do setor na Receita Federal do Brasil tinha em mãos a decisão de proferir parecer no processo administrativo-fiscal; examinando a contabilidade daquela sociedade empresarial e em seguida encaminhar sua conclusão ao Procurador-Geral que normalmente cumpria o hábito de enviar ao Ministério Público Federal, solicitando o fechamento da empresa com averiguação de irregularidade fiscal. Este era o caso. Se ele o fizesse antes das eleições, prestes a acontecer, estaria colaborando com o amigo e aceitando tacitamente uma proposta indesejável para seus princípios morais. O cargo de Senador cairia no colo de Hudson Carvalho de Morais com facilidade e não de Ricardo Tomaz Aquino.

Henrique entrou em contato com seu superior hierárquico, via telefone e solicitou orientação. Deveria ele enviar o processo com um despacho para o fechamento da empresa, antes das eleições? No outro do lado do telefone o tom foi peremptório e quase estridente. — Não! Era preciso esperar o deslinde da questão, afinal faltavam apenas dez dias para o pleito eleitoral.

Ingenuamente fez questão de que todos soubessem que não ajudaria Hudson Carvalho de Morais. Ficaria neutro na questão e só encaminharia o processo com o pedido de fechamento da fiscalizada, assim que passassem as eleições.

Em seu pequeno mundo Henrique Vaz era conhecido como uma pessoa determinada, trabalhadora e sem ambições mirabolantes. Em todas as áreas em que operou dentro da Estatal antes de prestar o concurso para Auditor Fiscal era o auxiliar dos companheiros, ouvindo seus problemas, tentando solucionar com diplomacia qualquer empecilho familiar ou financeiro, sempre com suas planilhas contábeis, demonstrando a possibilidade de o colega sair do vermelho sem precisar se endividar mais. Nem isso fez com que o grupo de invejosos parassem.

Capítulo 1 do livro A CERTEZA

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A vida tinha tomado um rumo bem diverso de anos atrás. Após o falecimento da mãe ele voltou a se separar da segunda mulher. Havia ganhado um dinheiro na loteria na primeira vez que resolveu quebrar sua indiferença com aquele jogo. Aplicou todo o dinheiro de forma bastante diversificada e, com as ótimas dicas da Corretora, recebia um ganho como jamais imaginara ter com um emprego. Pagou todas as suas dívidas e resolveu a pensão das duas filhas. Ele agora podia vê-las a cada quinze dias, nos finais de semana. Mas, algo lhe faltava. Resolveu voltar a estudar. Fez faculdade de Administração, seguiu com o mestrado e já caminhava para seu término.

Estava saindo da Universidade quando a viu. O tempo só fizera bem a ela. Loura, alta, esguia, não envelhecera, apenas a expressão era de uma mulher madura e segura de si. Ficou estupefato ao sentir o estômago apertar como da primeira vez.

Ela seguiu seu caminho ser perceber a presença dele, parado, olhando-a, sem conseguir dar um passo sequer. O coração disparado. Começou a rir de si mesmo sem acreditar que naquela altura da vida ainda era capaz de sentir emoção tão intensa. Aliás, pensar em emoção fez Thales lembrar de um tempo em que embotou esse lado. Foi o tempo em que mais cometeu enganos na vida. Racionalizar tudo não foi o melhor caminho para uma vida saudável. Tinha muitas certezas na época. Perdeu muito tempo de alegria e espontaneidade tentando planificar tudo.

Voltou a caminhar em direção a seu apartamento. Quando abriu a porta sentiu o vazio lá dentro. Não atinava o porquê da sensação. A figura dela disparou em sua mente e ele teve a sensação que fora ela quem despertara nele o que sentia no momento.

Ouviu o telefone fixo tocar. Normalmente não gostava de atender, mas pensou num cliente inoportuno, já velho conhecido e bastante mão aberta para os negócios. Levantou o fone

— Alô.

— Uau! – comentou Jonathas -. Vi o seu descontrole quando Elizabeth passou do outro lado da rua. Thales imaginou-o levantando uma sobrancelha, tique especial do colega quando descobria alguma coisa interessante e que pudesse apelar em algum momento de negociação.  — Enquanto ela andava para subir na calçada você a devorava com o olhar.

— Hum. — grunhiu Thales.

— Não adianta negar meu caro, você se desconcertou de um jeito que não dava para não notar. Pode me chamar de abelhudo não me importa. Agora acho que você devia procurar por ela. Vou lhe dar uma chance. Ela está hospedada no Sheraton. Vai passar uns tempos aqui no Brasil e depois volta para Nova York. Sabia que agora ela é a presidente da empresa.

— Era só isso?

— Cara, você continua o mesmo. Não mudou nadinha. Nem ajuda você aceita.

— Exatamente.