Fuga

amor maduro

 

O mais encantador nele é que sua simples presença fazia todos, homens e mulheres, se sentirem mais atraentes e vivos, quando o normal seria que se considerassem incomodados.

Susana suspirou. Sentia-se desajeitada ao comparar sua vivência com a daquele rapaz de vinte e oito anos. Sua vida parecia-lhe insípida e sem cor. Tal como Joana, sua filha, não se esforçava para impressionar o visitante, como faziam os demais. Susana via-se com um jeito decidido, eficiente e objetivo que, por implicação, repudiava as futilidades, muito embora apreciasse imensamente o senso de humor.

Olhar e ouvir aquele homem era como viajar num mar de conhecimentos e verdades insondáveis novas para todos os ouvintes.

Começou a sentir a garganta apertada e os olhos marejados de lágrimas. Quebrou o clima sutil com um:

– Vou fazer café para todos.

À sua saída olhos e atenções continuaram voltados ao narrador. O sotaque arrastado dava-lhe um charme especial.

Susana não era vaidosa ou arrogante. De qualquer modo nunca se sentira à vontade para chorar diante de estranhos, mesmo que os ouvidos lhe trouxessem imagens doloridas.

Ao retornar à sala, inclinou-se para frente, enquanto pegava o bule de prata com o café ao gosto de Almeida. Um gracioso serviço de prata Sheffield, o favorito dela, e finíssimas xícaras de porcelana inglesa, com uma pequena bombonière com alguns biscoitos amanteigados, feitos por sua sogra, arrumados com capricho sobre um guardanapo de linho bordado.

Sentia-se desajeitada servindo pessoas que pegavam as xícaras sem prestarem atenção ao gesto.

Percebeu naquele momento que havia perdido muito da narrativa, mas agora era inútil pensar no caso. Seu gesto de fuga diante da emoção excluíra-lhe os fatos. Balançou a cabeça num gesto enérgico, como a retirar o pensamento impertinente, e continuou a servir o café.

Omar levantou-se. Estava tarde e precisava voltar ao hotel, onde se instalara desde a chegada a Foz de Iguaçu.

Observou o homem de cabelo escuro e feições queimadas de sol. Os olhos penetrantes olharam-na e com uma inclinação de cabeça, num cumprimento, tentaram um misto de sorriso.

– Agradeço sua gentileza Da. Susana e desculpe o trabalho. – Comentou à guisa de despedida, olhando de relance a bandeja disposta sobre a mesa e as xícaras espalhadas.

– Trabalho algum. Foi um prazer e lembre-se que a casa é sua.

Madalena olhou a mãe com carinho. Havia um agradecimento mudo naquele olhar. Era estranho para Susana pensar que a filha pudesse estar apaixonada por um homem com costumes e vivências tão diversos dos deles. Enfim… Balançou os ombros, num gesto de desalento.

Seu pensamento voltou-se para quando conheceu Almeida. Também ele tinha os cabelos escuros naquele tempo, as feições eram menos fortes, bem verdade. Os olhos miúdos tinham sempre um misto de ingenuidade e doçura. Foram felizes por anos. Agora ele se dedicava inteiramente a fabriqueta de camisetas, após a aposentadoria do serviço público, até altas horas da noite. Vez por outra reclamava do governo, por causa dos empréstimos que estavam se tornando impagáveis pelos juros escorchantes. Tinham as duas filhas moças, prontas para o casamento e muito diferentes entre si.

Madalena independente, autoconfiante e competente, além de muito bonita. Contrariamente Joana nunca se sentira competente, não tinha confiança em si mesma e certamente não era independente. Não se podia dizer que fosse feia, mas era de uma beleza tão sem cor que desaparecia ao lado da irmã.

De vez em quando ainda esperava que Almeida a surpreendesse com algum gesto apaixonado, qualquer sentimento mais ardente, em que ordem fosse. Tudo seria melhor que aquele vazio. Os ecos dos anos da juventude não são facilmente aquietados, apesar de já se estar na casa dos cinqüenta. Não se recordava quando aquilo tudo se amornara e continuava a querer de Almeida algum arroubo que lhe trouxesse ânimo, mas nada disso acontecia e a vida a envelhecia.

Certo dia Omar chegou com o pai. Também ele viera do Iraque antes mesmo da primeira guerra dos Estados Unidos contra seu país de origem. Estava ali para oficializar o noivado do filho com Madalena. Os olhos tão penetrantes quanto os do filho, os cabelos com alguns fios brancos e a pele morena já lhe denotavam a idade, porém continuava a manter as feições delineadas e firmes, que lhe marcavam a beleza da raça. Mantinha o bigode bem aparado e nada nele demonstrava a dor que havia passado alguns anos atrás, quando soubera do falecimento da esposa e do filho mais novo, após um ataque de artilharia aérea americana. Somente quando a conversa girou sobre o assunto as lágrimas correram soltas por aqueles olhos escuros.

Novamente Susana se esquivou de ouvir relatos sobre fatos dolorosos. Saiu da sala, à busca do café, sabendo que ficaria alheia aos detalhes. Não podia evitar. Nem mesmo à época da última guerra conseguia manter-se diante do televisor. Aquilo tudo lhe parecia tão distante de sua realidade. Preferia alienar-se às dores daquele povo. Era uma forma de se proteger dos desalentos que não podia evitar. Agora eles pareciam teimar em adentrar ao seu ambiente familiar, através das narrativas do futuro genro e do pai dele.

O café jazia frio e insosso dentro das xícaras. Pensou que poderia se permitir um pedaço de torta. Ergueu os olhos para observar as fisionomias que continuavam voltadas para o novo narrador e, como quem rouba, serviu-se.

Dois meses se passaram e eles continuavam a freqüentar-lhe a casa. Madalena se preparava para o casamento e já se engajara na empresa de comércio exterior do futuro sogro. Pelo que Susana pudera depreender de conversas esparsas, faziam exportação de sapatos para vários países da Europa.

Seu pensamento andava tumultuado com os preparativos de última hora para o casamento da filha. Enquanto caminhava pelas ruas comprando pequenos detalhes, resolveu descansar os pés tomando um chá na confeitaria do hotel. O prédio de construção clássica fazia esquina entre as duas ruas. Observou o interior por entre as cortinas que recobriam as janelas. Entrou. Estava sentada e já havia feito o pedido ao garçom, quando o viu. Ele atravessou a sala em passos largos e veio ao seu encontro. Os olhos penetrantes pareciam invadi-la. Educadamente pediu licença para sentar-se à mesa.

Após cumprimentá-la e perguntar pela família convidou com a maior naturalidade:

– Não quer subir ao meu apartamento? Podemos tomar o chá mais tranqüilamente.

– Talvez seja uma inconveniência…

– Inconveniência a sogra de meu filho visitar-me em minha casa? Absolutamente. Não vejo qualquer inconveniência nisso. Depois moro com Omar. Ele não está no momento porque foi até o escritório, porém não vejo qualquer motivo que a impeça de visitar-me.

Ela mantinha os olhos pregados na toalha da mesa, suas mãos foram primeiro às faces afogueadas, num gesto desesperado para acalmar-lhes a vermelhidão, então vagamente procurou o casaco nas costas da cadeira.

Ele levantou-se solícito e ajudou-a a vesti-lo. Chamou o garçom e disse que a senhora iria tomar o chá em seu apartamento.

Subiram. Ela entrou e ele ajudou-a a desvestir o casaco.

O garçom chegou com o chá, biscoitos e torradas. Serviu-os e retirou-se discretamente.

Ele falava animadamente sobre o casamento dos filhos até que em certo momento tocou-lhe a mão direita num gesto delicado. Ela estremeceu e ele sentiu sua emoção. Olhou-a profundamente. Levantou-se, sem largar-lhe a mão, estreitou-a nos braços.

Os lábios se procuraram sôfregos. Não disseram palavra. Os corpos se colaram e sentiram um calor intenso abrasá-los. As mãos dele corriam pelo corpo dela sentindo-lhe as curvas. Os seios intumescidos arfavam num delírio de há muito esquecido. Perdeu-se no redemoinho das sensações.

Ainda sentia os braços dele molemente envolvendo seu corpo desnudo. Ficou na expectativa, sentindo-se frágil como o cristal, como se por dentro pudesse estilhaçar-se em miríades de pedacinhos. Embora estática diante do acontecido, tinha a impressão de seguir um túnel escuro onde, há milhares de quilômetros, pudesse adivinhar um filete de luz que se ampliaria e a envolveria, aquecendo-lhe a alma vazia. Mas não podia ficar ali, não depois do acontecido. Vestiu-se lentamente enquanto ele ressonava e saiu do quarto.

Em casa sentiu-se segura. O perigo, por ora, havia passado.

***

Não ousou olhar ao redor e localizá-lo. Vê-lo no salão apinhado de gente, enquanto se desenrolava o casamento ao estilo muçulmano, aceito por Madalena, a enchia de temores. Naqueles últimos dias tinham se evitado. Não mais reuniões de finais de tarde em sua casa.

Depois de todo o cerimonial religioso passaram aos jardins onde tudo estava ornamentado para um baile convencional.

O som da orquestra lembrou-a do local em que estava. Enxugou os olhos com cuidado por causa do rímel, depois bebeu um gole do champanhe que lhe haviam enchido a taça. Sentiu o líquido borbulhante descer-lhe pela garganta.

Havia uma coisa da qual podia se orgulhar: tinha mantido as aparências e Almeida não suspeitara em minuto algum do turbilhão que envolvia seu ser. Não era justo com o marido, nem com as filhas.

Relembrou de tantos momentos em que se desesperava vendo os momentos e anos que nunca mais tornaria a viver com Almeida se desintegrarem em nada. Agora aquilo lhe parecia tão distante. Uma ânsia feroz de vida lhe tomava o ser. Era-lhe quase impossível deter aquela torrente de desejo insaciado.

Quando Mansur a fitou com aquele brilho abrasador nos olhos ficou-lhe impossível discernir tudo o que ele estava sentindo. Se fosse outro homem Susana afirmaria que era desejo físico, puro e simples. Mas ele… Não sabia. Nem queria saber.

A festa de casamento durou “anos” para terminar.

Quando se viu só no quarto, ouvindo o marido elogiá-la por sua habilidade na decoração e escolha de tudo, sua vida pareceu pálida e cinzenta.

Com um pequeno suspiro recostou no travesseiro e percebeu que sempre fugira da realidade. Sua vida sempre fora um imenso deserto, organizado sim, mas um deserto, sem ninguém com quem compartilhar opiniões ou sentimentos. Não atinava desde quando isso começara a acontecer. Ela e Almeida jantavam fora inúmeras vezes em reuniões de amigos que acabavam em conotação comercial. Era importante que ela o acompanhasse. O casal perfeito. Outras vezes as reuniões eram feitas em sua casa. Uma silenciosa conspiração para evitar ficarem sozinhos.

O dia seguinte amanheceu brusco. Com toda força Susana se negou saborear o desjejum que Maria servia com tanto apreço. Afastou o pão e a manteiga em penitência aos excessos da noite anterior. Poderia não ter nunca seios pequenos ou quadris estreitos, mas ao menos não se sentiria gorducha, nunca mais.

Desde aquele dia vinha mantendo alimentação mais saudável e cuidava da aparência. Um calafrio percorreu-lhe a espinha. Não entendia porque tantos cuidados. Almeida sequer a olhava e quando mantinham relação o faziam sob os lençóis. Era algo mecânico como o desempenho de uma função para ela e uma necessidade física para ele.

Ultimamente Almeida vinha reclamando mais amiúde de noites insones. Eram as dívidas que se acumulavam. Susana o aconselhava vender a fabriqueta e viverem apenas de sua aposentadoria. Ele retorquia sempre sobre a impossibilidade de manterem aquele padrão com a miséria que recebia do governo. Aquilo se tornara um círculo vicioso. Agora nem mais a procurava. Tornara-se assexuado.

Dois anos após o casamento de Madalena, Almeida teve o derrame. Susana chamou a filha e o genro e eles providenciaram o pedido de falência da fabriqueta e organizaram um cronograma para o pagamento das dívidas.

Três meses depois ele enfartou. Foi para cirurgia e não conseguiu superar o pós-operatório.

Susana andava como um fantasma naquela casa. Madalena, Omar e Mansur haviam se mudado para São Paulo, inclusive levando a sede das empresas para aquela capital. Joana transferira-se para Curitiba, decidindo estudar arquitetura.

Como cinzas ao vento seu casamento desaparecera. Fazia grande esforço diante das pessoas. Ninguém adivinharia que ela sentia alívio pelo término do casamento, mas a sensação de culpa a esmagava por dentro.

Ela jogou a cabeça para trás, como a espantar os pensamentos que a perseguiam. Decidiu sair. Vestiu-se com esmero. Muitas vezes se desleixava, outras abusava da elegância. Via o olhar das pessoas pesarosas pela sua batalha interior. Supunham dentro dela uma viúva sofredora. Que importava o que pensavam. Vivia como achava melhor. Hoje desejava estar elegante e assim o faria.

Saiu sem rumo certo. Passeou pelas ruas a pé. Parou defronte ao hotel. Olhou a confeitaria. Estava cheia de gente. Decidiu entrar.

O garçom se aproximou. Fez o pedido.

Novamente o garçom veio até ela. A visão de seu nome – Susana Souza Almeida – escrito naquele bilhete a assustou. Olhos pregados na bandeja segura pela mão enluvada à espera de uma reação. Passou nervosamente a mão pelos cabelos, num gesto característico, então vagamente correu os olhos e o encontrou.

Por fim, pegou o envelope e leu: “Posso me sentar à sua mesa?”

Levantou os olhos para o garçom e respondeu:

– Por favor, diga ao cavalheiro que sim.

– Obrigado por me receber. – disse ele, sentando-se em frente a ela.

Depois fez sinal ao garçom e pediu que ele levasse tudo para o seu apartamento. Naturalmente levantou, tomou a mão dela e a levou docemente para o elevador. Ela o seguia maquinalmente sem nada dizer. Aliás, não sabia o que dizer.

Ele esperou que o garçom arrumasse a mesa e saísse. Voltou-se para ela e carinhosamente a puxou para si. Beijou-a longamente. Ela sentiu novamente aqueles calafrios e a quentura entre as pernas, para então se perder no redemoinho das sensações que as mãos e o calor do corpo dele lhe causavam.

Acordou e recordou aquele outro dia a três anos passados. Tentou levantar e fugir. Ele gemeu docemente e envolveu seu corpo com uma das pernas, prendendo-a. Ela deixou-se ficar. Não podia mesmo fugir.

Paixão adolescente

jovens-apaixonados

Apaixonei-me por George naquela primavera inesquecível, lavada de sol e cheia de sonhos. Tinha dezesseis anos, e ele vinte e dois.  Nunca havia me apaixonado antes, o que me tornara extremamente perceptiva. Objetos anteriormente desapercebidos tornavam-se belos; folhas e árvores, flores, tudo tinha brilho especial – era tudo pura magia da novidade, como se eu nunca tivesse conhecido nenhuma dessas coisas no dia a dia.

Tudo começou com nossas idas para o trabalho. O papa-filas parava e lá estava ele me aguardando com o lugar marcado. Depois vieram os piqueniques no Clube. Apenas ele e eu. As idas para o lago nadar, inúmeras partidas de vôlei de mesa, mas o melhor eram os momentos de tranquilidade, o conhecer casual um do outro. Deitar no gramado do Clube, sem se preocupar com olhos curiosos. Ficávamos horas olhando alguém lançar o anzol com um pedaço de minhoca enrolada, como isca tradicional. Ou andar pelo campo ao entardecer para apanhar os últimos resquícios de sol, após o trabalho diário.

No final tivemos nosso feriado, A Sra. Alzira, proprietária na pensão onde ele se hospedava organizou uma pequena festa. Tiramos os móveis da antiga salas de visitas, levamos vitrola e discos de Elvis Presley, Bob Dylan, Chico Buarque, Elis Regina, Erasmo Carlos, Fran Sinatra e tantos outros.  George não se deu por vencido ao saber que eu não sabia dançar. Passou a mão pela minha cintura e começou a ensinar-me os passos de cada tipo de música. Rodava comigo até o momento em que perdi o fôlego. Foi no final daquela noite que ele me beijou, mas não me senti feliz, pois ele teria que voltar para Curitiba, ao término de seu estágio como engenheiro na fábrica e seria na manhã seguinte, e eu nunca tive certeza se aquele beijo foi de afeto ou de despedida.

Logo depois de George partir eu vivi um mundo de fantasias, esperando receber cartas e telefonemas dele dizendo-me que não poderia viver sem mim. Mas tudo o que aconteceu foi ele começar a trabalhar em Curitiba, na firma do pai, e, depois disso, não mais voltara a Harmonia para a programada Páscoa. Se conseguia alguns dias livres, a Sra. Alzira contava que ele tinha ido esquiar, e eu imaginava garotas ricas e elegantes, e ficava doente de ciúme.

Certa vez roubei uma foto de George de um álbum que encontrei na biblioteca da Sra. Alzira. Soltar-se da página, portanto não fora propriamente um roubo. Coloquei-a no bolso e, depois, entre as páginas de meu diário. Sempre a mantive guardada, embora não tenha voltado mais a ver George. E desde que comecei a namorar para valer, aos dezoito anos, soube notícias dele.

E, agora, a Sra. Alzira mencionara seu nome, trazendo-me à memória o jovem George, com seus olhos azuis e a pele queimada de nossos passeios pelo clube.

— O que ele faz na América? — perguntei.

— Oh, ele trabalha em Nova York. O pai dele faleceu e ele agora se dedica exclusivamente a cuidar dos negócios e da fortuna da família.

—Ele deve estar casado e estar com filhos.

— Não, George nunca se casou e imagino que não o faça nunca. Esta casado com seus negócios.

UMA LINDA HISTÓRIA DE AMOR

um garoto e uma garota sentados num banco

              Elizabeth era uma garota simples que gostava de sair ao final da tarde. Ver o pôr do sol, a encantava e embalava seus sonhos de adolescente. Encontrar as amigas, após essa dose de emoção a fazia sorrir e espalhar alegria entre todas. Aquilo era rotina, elas se falavam todos os dias.

Ao sol se pôr Elizabeth se imaginava encontrando o garoto mais desejado da escola e nascia entre eles uma forte paixão. Era uma ilusão que chegava ao ponto de ela senti-lo ao seu lado.

Elizabeth estava com aquele ar imaginativo, quando as garotas chegaram e riram. Sabiam dos sonhos encantados da amiga.
_ Tá bom, você não quer acreditar, não acredite, mas não diz que não avisamos. Henrique terminou com aquela garota. Ele disse para o ficante da Ângela que está caído por uma garota muito quieta e estudiosa e acha que não tem chance com ela.

No caminho de casa Elizabeth deu de cara com Henrique, ele a cumprimentou:

              _Oi, como vai você?

 _Vou bem e você?

              _Tudo bem! Não, não fuja de mim. Por que sempre se comporta assim, quando me encontra? Que tal sentarmos ali no banco, de frente para o mar e tomarmos um sorvete. Juro que não vou machucá-la. Falou, Henrique, sorriso maroto e olhar dentro dos olhos dela.

Elizabeth espantou-se com o convite e muito mais com aquele sorriso. Seria ela a garota…?
_ A tarde está linda e logo vai anoitecer, quero curtir alguns momentos com a garota mais difícil da escola.

 Elizabeth não acreditava em seus ouvidos, mas se deixou ficar, enlevada com sonhos que viram realidade.

Vento de Agosto

Tardinha. O sol desaparecia de mansinho. Resquícios dourados pintavam o céu. Joana apoiou-se no gradil da sacada. Os pensamentos voavam à busca de lembranças.

Era como se ouvisse o vento assobiar novamente. Fora uma longa caminhada até o campo de golfe, naquele dia. Sentia-se agradavelmente envolvida por aquele sentimento, que imaginara não mais tomar conhecimento. O restaurante apareceu às suas vistas, protegido ao norte por imensas árvores, já envelhecidas e frondosas. Elas já estavam lá desde antes de construírem o condomínio.

A luz do sol naquela tarde cintilava por dentre as folhagens. Pensou no encontro que tivera com ele, ali mesmo alguns dias atrás. Ainda estava envolta em suas doces lembranças, quando o céu tomou uma cor cinza e tudo escureceu. O vento começou a enfurecer-se, de uma hora para outra. O redemoinho começou a se formar lá pelo lado sul e veio se avolumando, enquanto corria lambendo e levantando casas como se fossem brinquedos.

Viu-se dentro do restaurante. Pessoas em pânico corriam e gritavam para que se jogasse no chão. Sentiu a mão, que mais parecia uma tenaz, arrastá-la para dentro do banheiro. Lá já havia algumas pessoas. Os rostos demonstravam o pavor. O som aumentou ensurdecedor e eles imaginaram o rugido de um animal pré-histórico.

Aqueles minutos que permaneceram dentro do banheiro do restaurante pareceram séculos.

Quando tudo cessou, sentiu seus membros relaxarem e a dor contida tomou conta de seu ser. Saíram lentamente, um a um. A paisagem que viram em seguida foi desoladora. Havia um rastro deixado por onde passara o tufão. Casas inteiras ao lado de destroços, ferragens retorcidas e cimento, espalhando poeira pelo ar. A sensação é de que havia ocorrido uma guerra.

As pessoas saíam de suas casas num movimento letárgico, quase em câmara lenta, após o terror de, talvez, cinco minutos apenas.

Quando a realidade se fez presente em cada um, foram à busca de entes queridos, que podiam estar sob escombros.

Muitos perderam pessoas amadas. Pedaços de edificações foram encontrados longe.

― Ainda pensando naquilo, Joana?

Assustou-se com a pergunta. Estava tão abstraída em seus pensamentos que não percebera a chegada dele.

―Vez ou outra, ainda. ¾ Disse, à guisa de resposta.

―Os Gomes nos convidaram para uma reunião, hoje à noite.

Ela sorriu de maneira abstrata. ¾ Sim, sim, eu me lembro. Por volta das oito, não?

― Muito gentil da parte deles, você não concorda?

― Sabe se é alguma celebração?

― Ao que me consta vão recepcionar uma amiga vinda da Europa. Parece ser uma artista plástica. Não sei ao certo.

Estava pouco entusiasmada. Franco franziu as sobrancelhas.

― Oh, querida, você deveria se animar. Afinal estamos enfim nos relacionando com as pessoas.

― Sinceramente? Eu não tenho a mínima vontade de ir, porém você está coberto de razão. Precisamos nos relacionar. Quero esquecer…

― Você vai esquecer!

― Você já esqueceu?

― Perdi a filha… e a mulher…Mesmo estando para nos separar, não desejava isso à Elizabete. E Amanda… não vou esquecer nunca! Mas, precisamos continuar a viver, minha querida, e ser convidado para uma recepção nesta cidade é um fato a comemorar. Depois há a firma. Tenho que conviver com as pessoas, criar vínculos que me levem ao relacionamento comercial.

― Tem razão, querido. Vou me preparar.

*

De meias, entrou na cozinha, sentindo o odor delicioso do pernil assado, com um toque sutil de pimenta rosa.

Enquanto ele umedecia o assado, ela o observava, divertida.

Ele sempre gostara de cozinhar. Desde que se casaram, seis meses após o sucedido no condomínio. O que a divertia era que ele se paramentava todo para entrar na cozinha. Era o próprio chef du cuisine, como diriam os franceses. O chapéu enorme estava sempre extremamente engomado, como exigia de Rose, sua secretária doméstica.

― Hum, delicioso!

― Extremamente gentil de sua parte, mas precisa experimentar primeiro.

Ela sorriu e saiu da cozinha de forma espevitada.

Tinha, na verdade, vinte e dois anos. Uma moça alta, magra, com os cabelos negros lustrosos que escorriam até o meio das costas. A pele era clara, herdada da mãe e os olhos azuis do pai. Quando o sorriso aparecia na boca bem formada e expressiva, o rosto todo se iluminava, mas quando ficava deprimida e triste, seus olhos denunciavam os sentimentos interiores que a machucavam.

― … foi ótima a conversa com Otávio Gomes de Cerqueira, ontem ― dizia, Franco, enquanto colocava o pernil sobre a mesa. ― Creio que conseguirei um sócio para a exportadora ¾ continuou a falar. Ele virou-se para Joana que se aboletara à mesa e já estava, como uma criança, espetando a carne com o garfo.

― Psst! Modos!

Ela deu uma risada cristalina e os ombros subiram e desceram duas vezes.

― Quem era ao telefone? ― Perguntou Franco.

― Ah, Adelaide nos chamando para um jantar na sexta. Eu já confirmei, importa-se?

― Absolutamente… ― E a olhou admirado, mas feliz. A nuvem escura havia passado.

Após o almoço, com todos os pratos lavados e a cozinha arrumada, os dois seguiram para suas atividades. Franco deu-lhe um beijo no rosto e pegou as raquetes de tênis. Pretendia jogar com Otávio e terminar os acertos sobre a empresa e a futura sociedade. Joana vestiu o agasalho de ginástica e seguiu para o clube. Ia encontrar Adelaide, mulher de Otávio, para um jogo de vôlei. Pegou tênis, meias, shorts, camiseta e colocou-os na sacola.

Quando Joana chegou ao clube sentiu o vento. As folhas secas rodopiavam sobre o calçamento. Sentiu um arrepio percorrer-lhe a espinha. Empertigou-se e seguiu em frente. Adelaide a esperava.

Alguns metros do lago, sob a sombra de uma árvore, sentou-se próximo ao bistrô do Parque Barigui, ouvindo o silêncio da tarde. Na verdade o silêncio era o murmúrio de pequenos sons da natureza. Um peixe que pulava dentro do lago, o zumbido de uma abelha, tentando pousar sobre seus cabelos, que se esvoaçavam, ao longe um guincho de um ganso, o marulhar lento das águas mexidas pelo vento.

Olhou emocionada o papel nas mãos. Já havia lido inúmeras vezes, mas continuava a não acreditar.

As lembranças voltaram vivazes à sua mente. O irmão era seis anos mais velho que ela. As moças de Itu o cobiçavam. Era um dos partidos mais desejados da cidade. Bonito, alto, cabelos alourados do pai, olhos verdes, a pele sempre bronzeada do sol, jogava golfe como ninguém e ainda havia assumido as empresas de indústria de embalagens, após a morte do pai. A mãe era uma doce criatura que a mimava extremamente. Aquele tufão destruíra sua casa e as duas pessoas a quem mais amava, naquela época. Alguns dias antes havia encontrado Franco, que estava se separando da mulher e se envolvera com ele. Assim que ficou viúvo, também por culpa daquele tufão, casaram-se. E agora… Passou a mão sobre a barriga e uma lágrima rolou suave pela face. Agora uma vida se formava dentro dela. O passado devia enterrar seus mortos e o futuro esperar a vida.

Levantou-se lentamente do banco, pegou o carro e voltou para casa.

O vento assobiava por entre as frestas das portas envidraçadas da sacada.

― É o vento de agosto, Joana. Muita gente não gosta, mas eu gosto. Sinto saudades do tempo em que morava no campo com meu pai e minha mãe. Minha infância, enquanto corria solta e em liberdade. Agora ficamos todos presos, morando uns sobre os outros. ¾ Falou, Rose.

―Em segurança, Rose, em segurança…― Seguiu para a sala e sentou ao piano, lembrando da época em que a mãe sentava e tocava Chopin, para ela ouvir.

Os acordes tomaram conta da sala e ela sorriu feliz, imaginando uma garotinha sentada à sua frente, ouvindo-a tocar.

NOTA: Escute a música no vídeo acima. Você vai amar! Meu presente de Natal para você.

Epistolário

carta-de-amor

Na primavera de 2001 ele descobriu que o amor crescia em seu ser, como acontece aos amantes daquela estação. Nada parecia aplacar aquele sentimento, nem mesmo seus encontros furtivos com as esquálidas garotas da sociedade curitibana. Maria Eduarda soubera, com sua inteligência arguta, envolvê-lo totalmente.

Sob o fascínio daqueles longos cabelos negros e brilhantes, o intelecto sobressaía em faíscas de raciocínio rápido e culto. Os olhos o percebiam em suas mínimas reações e devolvia-lhe através dos lábios a sabedoria de sua pequenez. Exatamente. Sentia-se diminuto diante dela.

Seu sofrimento era maior ao perceber o completo absurdo de seus sentimentos. Em outras palavras, intuía quão tolo fora ao se deixar enredar por conceitos interessantes e inteligentes, se o coração não lhe respondia aos anseios. Mas ela realmente era um ser estranho dentro da sociedade em que perambulava.

Somente na solidão de seu quarto, tarde da noite, conseguia escrever. No papel tornava-se o cavalheiro talentoso, que imaginava ser o objeto dos sonhos dela. As respostas também partiam de sua mente e eram guardadas separadamente. No entanto, quando o dia amanhecia e a encontrava, a articulação das palavras, os gestos, tudo era desastroso.

Os dias passavam e suas cartas noturnas se amontoavam, sem encontrar eco na realidade diária.

Esta correspondência solitária durou meses, gerando refrigério à alma angustiada de Fernando. Como todo amante atormentado, Fernando tornara-se visionário e desfrutava silenciosamente de sua amada nos segredos engendrados naquele epistolário. Sua felicidade tornava-se desmedida e o deixava assombrado quando relia aquelas cartas.

Assim, um dia, reticente e impreciso, procurou um amigo. Precisava desabafar. Não se correspondia. Sofria apenas. Não mentiu, disse que mostrava seu segredo, porque era fruto de sua imaginação. Estava se tornando doentio.

Não percebeu que o amigo ao ler os escritos não acreditou. Invejou-lhe a sorte, pois tudo estava descrito com riqueza de detalhes e Maria Eduarda era o sonho de todos eles. Depois, Renato, o amigo, era tido como o escritor da turma e nada do que escrevia se comparava com o que agora lia. A beleza, agonia e magia daquelas páginas faziam dele um poeta, que se mortificava e se encantava com sua felicidade. Ninguém escrevia daquela forma sem ser verdadeiramente correspondido e nem razões para tão-só fantasias amorosas nos anos 2000.

Fernando permitiu que Renato copiasse algumas linhas das cartas, para tirar frases de efeito aos seus poemas, depois de tê-las lido com vagar. E não percebeu que Renato tentava captar sentimentos que imaginava serem de Maria Eduarda, para tirar temas às conversas do escritório, imaginando-se envolvê-la em suas próprias teias intelectuais. Não podia ouvir as conclusões de Renato: “O sortudo já teve o seu pedaço. Agora é minha vez de mostrar conhecer o temperamento e gostos de Maria Eduarda e fazê-la observar-me com mais atenção. Tenho certeza de que as cartas são verdadeiras e que por alguma razão indecifrável Fernando está escondendo a verdade através de tergiversações mentirosas. Preciso dar uma lição em Fernando e a única forma plausível é tomar-lhe o objeto de desejo – Maria Eduarda”.

Fernando chegou às portas da loucura e pensou em contar para Maria Eduarda o que se passava em seu íntimo. Lógico que não a deixaria jamais ter acesso ao seu epistolário, inclusive por suas discórdias internas. Aquela luta férrea que travava entre render-se à timidez ou continuar na tentativa de demonstrar mais inteligência na conversação atiçava o fogo impiedoso da culpa interna. Até mesmo sua profissão estava sendo atingida por aquele comportamento compulsivo.

O escritório fervilhava naquele horário e ele sentia apenas vontade de ir para casa e escrever continuadamente em busca de respostas para seu desalento. “Fernando”, disse Maria Eduarda, enquanto ele sofregamente se voltou, buscando um olhar de amorosa compreensão. Mas o olhar era duro e estava voltado para um problema a ser resolvido. “Aquele caso da partilha de bens já foi sanado? Vamos falar com a viúva, para que componha com seus enteados, ou deixaremos que eles procurem outro advogado fora do escritório?”. Fernando a olhou embevecido. “Pelo que percebo, continua com algum problema indefinido e os assuntos do escritório parecem não atingi-lo”. Gostaria imensamente de retorqui-la, explicar seus sentimentos, fazer um comentário inteligente sobre aquele caso, mas ela o subjugava e suas vontade e inteligência pareciam diluir diante daquele olhar.

Voltou para casa naquele dia e exorcizou seus demônios, escrevendo várias cartas cada vez mais apaixonadas, com respostas que o satisfaziam. Era a maneira que encontrava para manter a mente sã. Se é que havia algo de saudável naquele modo de viver. Até mesmo Renato se permitira fugir de suas obsessões e não mais lera qualquer coisa que lhe apresentava. Aliás, ele andava esquivo, desde que sua amizade com Maria Eduarda se estreitara.  Agora outra coisa vagava pela mente de Fernando. A possibilidade de Renato contar sobre as cartas a Maria Eduarda. Aquilo espremia seu cérebro como um torniquete. Fernando tentava aniquilar dentro de si aquele pavor que crescia a cada dia. “Era óbvio que Renato não havia falado nada. Ela o teria abordado sobre aquilo, com sua sagacidade habitual”.

Enfim, voltava-se com fúria  para suas cartas, em busca da paz e do amor inatingíveis. Adentrava às portas da fantasia fresca, silenciosa e afável. Lá ficava horas a fio, depurando sua  solidão.

***

Naquele inverno de 2002 chegou ao escritório enregelado, mas sua alma endureceu realmente quando percebeu a troca de sorrisos e olhares entre Renato e Maria Eduarda. O amigo sabia de seus sentimentos por ela, no entanto ali estavam. Rodopiou e voltou para casa.

Passou alguns dias errando pelas ruas da cidade sem saber aonde ir. Deixou celular em casa, tornou-se incomunicável.

Decidiu, finalmente, voltar para casa. A arma era uma atração irresistível. Pegou-a. Acariciou o metal gelado. Soltou sobre a mesa, foi até o armário, pegou o baú com seu epistolário e o abriu. Era como ter a presença dela ali. Lentamente pegou a arma, abriu a boca e atirou. Caiu no vácuo.

Quando voltou a si não entendia exatamente o que acontecia ao seu redor. Não reconhecia nenhum daqueles rostos, somente o dela. Maria Eduarda estava ali e o olhava demoradamente. As lágrimas caíam abundantes e ela acariciava lentamente o rosto dele.

Não se recordava do que havia acontecido, mas era muito bom tê-la ao lado dele.

Os dias corriam vagarosos. Ele foi aos poucos recordando e a cada vez que ela entrava, ele voltava a se encolher. Ela percebeu o gesto e começou a ler as cartas a ela dirigidas. “São lindas” falou, num sopro. “Só não precisava fazer aquilo”, complementou docemente. “Se não tinha coragem de me dizer, podia tê-las enviado”.

Fernando estendeu a mão num gesto de agradecimento e tentou pronunciar alguma coisa, mas não conseguiu. A voz agora realmente não saía. A morte o poupara, mas não à sua garganta. Optou por olhá-la apenas, num pedido mudo de perdão.

A Tempestade

Um-homem-sob-a-chuva

Lá fora o vento virou e o tempo esfriou, trazendo um céu cinzento e brumoso. Alexandre Nogueira Ramos revirava na cama. Culpou a indigestão pela sua insônia. Resolveu sair para a rua repleta de gente. Pessoas aparentemente indiferentes a sua passagem, mas ele tinha certeza que dentre elas estariam os homens que o perseguiam. A qualquer instante eles poderiam agarrá-lo, empurrando-o para uma viela e retirar dele todas as informações que não podia dar.

Aquilo se tornara uma constante. Cada vez que deitava sabia que iria acordar encharcado em suor, com o coração batendo descompassadamente e a respiração entrecortada. Era o terror de viver naquele suspense.

Sentou-se na cama, pegou o maço de cigarros automaticamente e acendeu um. Olhou o quarto demoradamente e a cabeça começou a latejar alucinada. Amassou o cigarro no cinzeiro e foi até o banheiro em busca de um comprimido.

Quando a dor cedeu avaliou a situação com clareza. Admitiu que havia sido inconsciente ao atender aquele pedido de Rodrigo. Qual era a importância de Rodrigo Steinbrock ser seu colega de escritório de advocacia, se não podia tirá-lo daquela situação escusa?

Recordava um tempo bom em que tudo parecia passar lenta e acalentadamente. Na época da primavera tudo havia sido diferente. Os problemas desapareciam e se era mais feliz. Nas manhãs primaveris peticionar era uma chama acesa a todo instante. Subia as venezianas e via o asfalto secar, sob o sol cálido, após as chuvas. Por que havia chegado o inverno? Frio e duro daquela forma? Uma tempestade fora e dentro dele?

Decidiu descer e comprar a edição matutina do jornal da cidade. A expressão de cansaço ainda estava estampada no rosto. Virou a esquina e entrou na banca de revistas. Olhou ao derredor e o medo diminuiu. A cidade dormia. Raros transeuntes passavam por ali e ninguém o observava como se fosse abordá-lo. Os pingos da chuva tamborilavam sobre seu guarda-chuva, a capa mal o resguardava do temporal. Apressou o passo.

Ele sabia o quanto tinha sido prudente e como as coisas haviam corrido mal, mesmo assim. Dedicara seu tempo ao seu trabalho e acreditava na ética que um colega deve ter com o outro, mas jamais imaginou que Rodrigo pudesse colocá-lo numa situação incerta e desonesta. Ainda bem que sua mulher havia entendido a situação, aceitado viajar para o interior do estado e ficar na companhia dos pais. Até aquele caso se resolver era o melhor a fazer. Ela havia chorado, sim, lembrava-se agora, mais por ele do que pelo dinheiro não entrando, após o afastamento do escritório de advocacia. Ele havia sido estúpido o suficiente para tomar aquela canoa furada, mas agora não era hora de lamúrias e sim de soluções. Tudo vinha como parte da luta contra a pobreza que ambos enfrentaram quando crianças. É um sentimento que nunca se vence. Carrega-se pela vida. Os dois não admitiam isso com clareza, antes do fato. Pensavam ser superiores às outras pessoas, porque haviam vencido aqueles tempos duros e transposto o portal da infelicidade financeira. Agora aqueles conceitos haviam se banalizado por completo. Era o momento de defender sua honradez.

Ao deixá-la na rodoviária, para a volta à pequena cidade interiorana, sentiu como se retornassem à parte mais triste de suas vidas. Era cedo ainda e caminhavam enroscados nas capas de chuva, inclusive, cada qual puxando os capuzes sobre os rostos, para não serem reconhecidos. Ela voltava para o ambiente pardacento da meia-água de madeira caiada, à beira do rio Tibagi, no município de Telêmaco Borba. Ele continuaria em Curitiba, porém não se sentia o vitorioso de antes. Era como se houvesse se afastado do centro do palco teatral e entrado novamente no picadeiro circense. Triste ser que sorri de sua própria desgraça.

Mal haviam ganhado uma bolada com aquela causa e Rodrigo os envolvera num caso de tráfico de drogas e lavagem de dinheiro. Não sabia que a empresa sob sua defesa era mera fachada para lavar dinheiro sujo. Como explicar para a polícia que um advogado tinha sido envolvido e não prestara atenção em detalhes tão claros daquela situação. Era sócio de Rodrigo, mas não se preocupara em acompanhar suas causas. Apenas aceitava a procuração e deixava o caso sob a responsabilidade do outro. A ambição o cegara. Fora incapaz no uso do intelecto preparado para o raciocínio jurídico. Era tudo tão óbvio, agora. Bastava uma leitura dos documentos arquivados no escritório. Preferira a ingenuidade como parceira. Agora ele questionava sua inteligência.

Precisava decidir que caminho tomar. Procurar a polícia e confessar sua total estreiteza de raciocínio, provando com os documentos que guardava naquela pasta, e correr o risco de ser desacreditado, ou enfrentar os miseráveis que o haviam envolvido num conluio com eles. A segunda hipótese era fatal. Faria dele tão ou mais pérfido do que aquela gente. A primeira hipótese era o risco de ser preso e desacreditado. Mas ainda assim talvez o único caminho a ser encetado.

Caminhou de volta ao apartamento. Foi abordado na porta do prédio. Imaginou ser um dos “clientes”. Tarde demais, percebeu que era policial.

– Doutor! Bom dia. Sou o policial Neto e gostaria de solicitar uma ajuda sua, num caso que estamos estudando há algum tempo. – Olhou o policial e decidiu escutar tudo.

Ficou sabendo que eles queriam sua ajuda naquele caso, apesar de ele também ser procurador dos denunciados. Precisavam de alguém que os auxiliassem em maiores conhecimentos sobre os fatos. Perguntaram-lhe se não preferia ferir a ética profissional a ferir a Justiça.

Suspirou aliviado. Era o caminho que lhe restava.

A Escolha

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Histórias são como sonhos na mente da escritora, assim como as pessoas sonham, a escritora sonha e escreve. Claro que ao escrever ela espera criar uma bela história com um final surpreendente. Assim é a história de Helena Diniz. Uma mulher forte da maneira como se recordava da mãe, ao criar cinco filhos sem a presença do pai que morreu aos quarenta e oito ano. Deixou a ela uma escadinha de filhos, da mais velha com 13 anos até a mais nova, com 3 anos. Agora era ela a ter sob seu encargo apenas um filho e estava viúva desde os 23 anos. Lembrava do pai, sentado  na cama ao seu lado e de sua irmã mais velha, contanto histórias para que dormissem. Era assim que ela queria cuidar do filho e ver a boca curvada em um sorriso quando o garoto implorava por uma história.

  • Que tipo de história você quer? – perguntava.
  • A melhor de todas – respondia Marcelo.

Geralmente, ficava sentada por alguns minutos em silêncio, e seus olhos se iluminavam . Ela colocava cabeça de Marcelo no colo e, com um a voz suave, dava início alguma história, onde frequentavam seres fortes e bons de mundos exteriores. Isso deixava Marcelo voar acima da situação precária que viviam e sonhar ser um grande herói algum dia. Herói que as histórias da mãe sempre acabavam com a vitória do melhor. Quando Helena acabava a história o menino já estava com os olhos piscando e logo em seguida os fechava num sono tranquilo. O sorriso ainda bailava nos lábios. Eram doces momentos de amor.

Ela se levantava devagar, colocando a cabeça do filho no travesseiro e beijando-lhe a testa. Apagava a luz do quarto e saía silenciosa. Sempre havia aventura, perigos, ação e jornadas que aconteciam dentro das histórias de Helena Diniz ao seu filho, mas Marcelo Diniz Kravinski cresceu naquele apartamento quase no centro de Curitiba e celebrava a amizade e o amor materno dentro daquele lar.  Estranhou quando a mãe casou-se novamente. Ele esperava ter um pai, pelo menos era o que Henrique, o homem da vida dela, como dizia sempre, demonstrava que seria, ao longo da caminhada e da sua mocidade. Mas, as histórias nem sempre são como imaginamos na vida. Elas podem criar animais ferozes que nenhum herói consegue domar. Porém, Marcelo aceitou viver num outro apartamento, já com treze anos e pegar ônibus para a escola, antes apenas uma quadra de sua casa. Ficaram morando naquele apartamento com Henrique apenas quatro meses. A convivência ficou impossível, com a ex-mulher de Henrique criando vários fatos que o afastavam dela e fosse atender aos filhos, em especial o mais novo. A situação tornou-se insuportável. O homem com quem sonhou ter uma família havia se transformado num dos monstros de suas histórias e só havia ela de heroína para acabar com aquele monstro. A única solução foi a separação e Helena  e Marcelo foram para a casa de um tio, pois o apartamento deles havia sido alugado por um ano. Foram noites insuportáveis e seu choro abafado era ouvido por Marcelo. Ela não queria que ele participasse daquela dor, mas não havia contenção que pudesse evitar.

Ficaram na casa do tio apenas dois meses e tiveram que alugar outro apartamento para esperar que vencesse o prazo de aluguel do apartamento próprio. O dinheiro ficou curto, muitas vezes a luz foi cortada por falta de pagamento. Já não almoçavam em casa, apenas em pequenos restaurantes de prato feito. A paz antes tão doce e real tornara-se um sofrimento silencioso entre mãe e filho.

Assim, é a história de Helena. Uma história longa e recheada de altos e baixos, como de resto é a vida. A escolha fora dolorida, mas só valia viver e buscar a felicidade se o monstro criado por ela fosse totalmente esquartejado.

O tempo se esvaiu, o ano terminou e finalmente voltaram ao apartamento. A casa estava muito estragada pelos inquilinos. Foi preciso muita reforma e muito aperto financeiro, mas os dois estavam recomeçando a se recompor da dor imposta pela vida. Não, aquilo não tinha sido história, era a vida e ambos levaram essa lição para o resto do tempo. Nem sempre se pode confiar nas doces palavras de alguém. Somente convivendo se é possível conhecer, mas o aprendizado ficou.