Epistolário

carta-de-amor

Na primavera de 2001 ele descobriu que o amor crescia em seu ser, como acontece aos amantes daquela estação. Nada parecia aplacar aquele sentimento, nem mesmo seus encontros furtivos com as esquálidas garotas da sociedade curitibana. Maria Eduarda soubera, com sua inteligência arguta, envolvê-lo totalmente.

Sob o fascínio daqueles longos cabelos negros e brilhantes, o intelecto sobressaía em faíscas de raciocínio rápido e culto. Os olhos o percebiam em suas mínimas reações e devolvia-lhe através dos lábios a sabedoria de sua pequenez. Exatamente. Sentia-se diminuto diante dela.

Seu sofrimento era maior ao perceber o completo absurdo de seus sentimentos. Em outras palavras, intuía quão tolo fora ao se deixar enredar por conceitos interessantes e inteligentes, se o coração não lhe respondia aos anseios. Mas ela realmente era um ser estranho dentro da sociedade em que perambulava.

Somente na solidão de seu quarto, tarde da noite, conseguia escrever. No papel tornava-se o cavalheiro talentoso, que imaginava ser o objeto dos sonhos dela. As respostas também partiam de sua mente e eram guardadas separadamente. No entanto, quando o dia amanhecia e a encontrava, a articulação das palavras, os gestos, tudo era desastroso.

Os dias passavam e suas cartas noturnas se amontoavam, sem encontrar eco na realidade diária.

Esta correspondência solitária durou meses, gerando refrigério à alma angustiada de Fernando. Como todo amante atormentado, Fernando tornara-se visionário e desfrutava silenciosamente de sua amada nos segredos engendrados naquele epistolário. Sua felicidade tornava-se desmedida e o deixava assombrado quando relia aquelas cartas.

Assim, um dia, reticente e impreciso, procurou um amigo. Precisava desabafar. Não se correspondia. Sofria apenas. Não mentiu, disse que mostrava seu segredo, porque era fruto de sua imaginação. Estava se tornando doentio.

Não percebeu que o amigo ao ler os escritos não acreditou. Invejou-lhe a sorte, pois tudo estava descrito com riqueza de detalhes e Maria Eduarda era o sonho de todos eles. Depois, Renato, o amigo, era tido como o escritor da turma e nada do que escrevia se comparava com o que agora lia. A beleza, agonia e magia daquelas páginas faziam dele um poeta, que se mortificava e se encantava com sua felicidade. Ninguém escrevia daquela forma sem ser verdadeiramente correspondido e nem razões para tão-só fantasias amorosas nos anos 2000.

Fernando permitiu que Renato copiasse algumas linhas das cartas, para tirar frases de efeito aos seus poemas, depois de tê-las lido com vagar. E não percebeu que Renato tentava captar sentimentos que imaginava serem de Maria Eduarda, para tirar temas às conversas do escritório, imaginando-se envolvê-la em suas próprias teias intelectuais. Não podia ouvir as conclusões de Renato: “O sortudo já teve o seu pedaço. Agora é minha vez de mostrar conhecer o temperamento e gostos de Maria Eduarda e fazê-la observar-me com mais atenção. Tenho certeza de que as cartas são verdadeiras e que por alguma razão indecifrável Fernando está escondendo a verdade através de tergiversações mentirosas. Preciso dar uma lição em Fernando e a única forma plausível é tomar-lhe o objeto de desejo – Maria Eduarda”.

Fernando chegou às portas da loucura e pensou em contar para Maria Eduarda o que se passava em seu íntimo. Lógico que não a deixaria jamais ter acesso ao seu epistolário, inclusive por suas discórdias internas. Aquela luta férrea que travava entre render-se à timidez ou continuar na tentativa de demonstrar mais inteligência na conversação atiçava o fogo impiedoso da culpa interna. Até mesmo sua profissão estava sendo atingida por aquele comportamento compulsivo.

O escritório fervilhava naquele horário e ele sentia apenas vontade de ir para casa e escrever continuadamente em busca de respostas para seu desalento. “Fernando”, disse Maria Eduarda, enquanto ele sofregamente se voltou, buscando um olhar de amorosa compreensão. Mas o olhar era duro e estava voltado para um problema a ser resolvido. “Aquele caso da partilha de bens já foi sanado? Vamos falar com a viúva, para que componha com seus enteados, ou deixaremos que eles procurem outro advogado fora do escritório?”. Fernando a olhou embevecido. “Pelo que percebo, continua com algum problema indefinido e os assuntos do escritório parecem não atingi-lo”. Gostaria imensamente de retorqui-la, explicar seus sentimentos, fazer um comentário inteligente sobre aquele caso, mas ela o subjugava e suas vontade e inteligência pareciam diluir diante daquele olhar.

Voltou para casa naquele dia e exorcizou seus demônios, escrevendo várias cartas cada vez mais apaixonadas, com respostas que o satisfaziam. Era a maneira que encontrava para manter a mente sã. Se é que havia algo de saudável naquele modo de viver. Até mesmo Renato se permitira fugir de suas obsessões e não mais lera qualquer coisa que lhe apresentava. Aliás, ele andava esquivo, desde que sua amizade com Maria Eduarda se estreitara.  Agora outra coisa vagava pela mente de Fernando. A possibilidade de Renato contar sobre as cartas a Maria Eduarda. Aquilo espremia seu cérebro como um torniquete. Fernando tentava aniquilar dentro de si aquele pavor que crescia a cada dia. “Era óbvio que Renato não havia falado nada. Ela o teria abordado sobre aquilo, com sua sagacidade habitual”.

Enfim, voltava-se com fúria  para suas cartas, em busca da paz e do amor inatingíveis. Adentrava às portas da fantasia fresca, silenciosa e afável. Lá ficava horas a fio, depurando sua  solidão.

***

Naquele inverno de 2002 chegou ao escritório enregelado, mas sua alma endureceu realmente quando percebeu a troca de sorrisos e olhares entre Renato e Maria Eduarda. O amigo sabia de seus sentimentos por ela, no entanto ali estavam. Rodopiou e voltou para casa.

Passou alguns dias errando pelas ruas da cidade sem saber aonde ir. Deixou celular em casa, tornou-se incomunicável.

Decidiu, finalmente, voltar para casa. A arma era uma atração irresistível. Pegou-a. Acariciou o metal gelado. Soltou sobre a mesa, foi até o armário, pegou o baú com seu epistolário e o abriu. Era como ter a presença dela ali. Lentamente pegou a arma, abriu a boca e atirou. Caiu no vácuo.

Quando voltou a si não entendia exatamente o que acontecia ao seu redor. Não reconhecia nenhum daqueles rostos, somente o dela. Maria Eduarda estava ali e o olhava demoradamente. As lágrimas caíam abundantes e ela acariciava lentamente o rosto dele.

Não se recordava do que havia acontecido, mas era muito bom tê-la ao lado dele.

Os dias corriam vagarosos. Ele foi aos poucos recordando e a cada vez que ela entrava, ele voltava a se encolher. Ela percebeu o gesto e começou a ler as cartas a ela dirigidas. “São lindas” falou, num sopro. “Só não precisava fazer aquilo”, complementou docemente. “Se não tinha coragem de me dizer, podia tê-las enviado”.

Fernando estendeu a mão num gesto de agradecimento e tentou pronunciar alguma coisa, mas não conseguiu. A voz agora realmente não saía. A morte o poupara, mas não à sua garganta. Optou por olhá-la apenas, num pedido mudo de perdão.

A Tempestade

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Lá fora o vento virou e o tempo esfriou, trazendo um céu cinzento e brumoso. Alexandre Nogueira Ramos revirava na cama. Culpou a indigestão pela sua insônia. Resolveu sair para a rua repleta de gente. Pessoas aparentemente indiferentes a sua passagem, mas ele tinha certeza que dentre elas estariam os homens que o perseguiam. A qualquer instante eles poderiam agarrá-lo, empurrando-o para uma viela e retirar dele todas as informações que não podia dar.

Aquilo se tornara uma constante. Cada vez que deitava sabia que iria acordar encharcado em suor, com o coração batendo descompassadamente e a respiração entrecortada. Era o terror de viver naquele suspense.

Sentou-se na cama, pegou o maço de cigarros automaticamente e acendeu um. Olhou o quarto demoradamente e a cabeça começou a latejar alucinada. Amassou o cigarro no cinzeiro e foi até o banheiro em busca de um comprimido.

Quando a dor cedeu avaliou a situação com clareza. Admitiu que havia sido inconsciente ao atender aquele pedido de Rodrigo. Qual era a importância de Rodrigo Steinbrock ser seu colega de escritório de advocacia, se não podia tirá-lo daquela situação escusa?

Recordava um tempo bom em que tudo parecia passar lenta e acalentadamente. Na época da primavera tudo havia sido diferente. Os problemas desapareciam e se era mais feliz. Nas manhãs primaveris peticionar era uma chama acesa a todo instante. Subia as venezianas e via o asfalto secar, sob o sol cálido, após as chuvas. Por que havia chegado o inverno? Frio e duro daquela forma? Uma tempestade fora e dentro dele?

Decidiu descer e comprar a edição matutina do jornal da cidade. A expressão de cansaço ainda estava estampada no rosto. Virou a esquina e entrou na banca de revistas. Olhou ao derredor e o medo diminuiu. A cidade dormia. Raros transeuntes passavam por ali e ninguém o observava como se fosse abordá-lo. Os pingos da chuva tamborilavam sobre seu guarda-chuva, a capa mal o resguardava do temporal. Apressou o passo.

Ele sabia o quanto tinha sido prudente e como as coisas haviam corrido mal, mesmo assim. Dedicara seu tempo ao seu trabalho e acreditava na ética que um colega deve ter com o outro, mas jamais imaginou que Rodrigo pudesse colocá-lo numa situação incerta e desonesta. Ainda bem que sua mulher havia entendido a situação, aceitado viajar para o interior do estado e ficar na companhia dos pais. Até aquele caso se resolver era o melhor a fazer. Ela havia chorado, sim, lembrava-se agora, mais por ele do que pelo dinheiro não entrando, após o afastamento do escritório de advocacia. Ele havia sido estúpido o suficiente para tomar aquela canoa furada, mas agora não era hora de lamúrias e sim de soluções. Tudo vinha como parte da luta contra a pobreza que ambos enfrentaram quando crianças. É um sentimento que nunca se vence. Carrega-se pela vida. Os dois não admitiam isso com clareza, antes do fato. Pensavam ser superiores às outras pessoas, porque haviam vencido aqueles tempos duros e transposto o portal da infelicidade financeira. Agora aqueles conceitos haviam se banalizado por completo. Era o momento de defender sua honradez.

Ao deixá-la na rodoviária, para a volta à pequena cidade interiorana, sentiu como se retornassem à parte mais triste de suas vidas. Era cedo ainda e caminhavam enroscados nas capas de chuva, inclusive, cada qual puxando os capuzes sobre os rostos, para não serem reconhecidos. Ela voltava para o ambiente pardacento da meia-água de madeira caiada, à beira do rio Tibagi, no município de Telêmaco Borba. Ele continuaria em Curitiba, porém não se sentia o vitorioso de antes. Era como se houvesse se afastado do centro do palco teatral e entrado novamente no picadeiro circense. Triste ser que sorri de sua própria desgraça.

Mal haviam ganhado uma bolada com aquela causa e Rodrigo os envolvera num caso de tráfico de drogas e lavagem de dinheiro. Não sabia que a empresa sob sua defesa era mera fachada para lavar dinheiro sujo. Como explicar para a polícia que um advogado tinha sido envolvido e não prestara atenção em detalhes tão claros daquela situação. Era sócio de Rodrigo, mas não se preocupara em acompanhar suas causas. Apenas aceitava a procuração e deixava o caso sob a responsabilidade do outro. A ambição o cegara. Fora incapaz no uso do intelecto preparado para o raciocínio jurídico. Era tudo tão óbvio, agora. Bastava uma leitura dos documentos arquivados no escritório. Preferira a ingenuidade como parceira. Agora ele questionava sua inteligência.

Precisava decidir que caminho tomar. Procurar a polícia e confessar sua total estreiteza de raciocínio, provando com os documentos que guardava naquela pasta, e correr o risco de ser desacreditado, ou enfrentar os miseráveis que o haviam envolvido num conluio com eles. A segunda hipótese era fatal. Faria dele tão ou mais pérfido do que aquela gente. A primeira hipótese era o risco de ser preso e desacreditado. Mas ainda assim talvez o único caminho a ser encetado.

Caminhou de volta ao apartamento. Foi abordado na porta do prédio. Imaginou ser um dos “clientes”. Tarde demais, percebeu que era policial.

– Doutor! Bom dia. Sou o policial Neto e gostaria de solicitar uma ajuda sua, num caso que estamos estudando há algum tempo. – Olhou o policial e decidiu escutar tudo.

Ficou sabendo que eles queriam sua ajuda naquele caso, apesar de ele também ser procurador dos denunciados. Precisavam de alguém que os auxiliassem em maiores conhecimentos sobre os fatos. Perguntaram-lhe se não preferia ferir a ética profissional a ferir a Justiça.

Suspirou aliviado. Era o caminho que lhe restava.

A Escolha

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Histórias são como sonhos na mente da escritora, assim como as pessoas sonham, a escritora sonha e escreve. Claro que ao escrever ela espera criar uma bela história com um final surpreendente. Assim é a história de Helena Diniz. Uma mulher forte da maneira como se recordava da mãe, ao criar cinco filhos sem a presença do pai que morreu aos quarenta e oito ano. Deixou a ela uma escadinha de filhos, da mais velha com 13 anos até a mais nova, com 3 anos. Agora era ela a ter sob seu encargo apenas um filho e estava viúva desde os 23 anos. Lembrava do pai, sentado  na cama ao seu lado e de sua irmã mais velha, contanto histórias para que dormissem. Era assim que ela queria cuidar do filho e ver a boca curvada em um sorriso quando o garoto implorava por uma história.

  • Que tipo de história você quer? – perguntava.
  • A melhor de todas – respondia Marcelo.

Geralmente, ficava sentada por alguns minutos em silêncio, e seus olhos se iluminavam . Ela colocava cabeça de Marcelo no colo e, com um a voz suave, dava início alguma história, onde frequentavam seres fortes e bons de mundos exteriores. Isso deixava Marcelo voar acima da situação precária que viviam e sonhar ser um grande herói algum dia. Herói que as histórias da mãe sempre acabavam com a vitória do melhor. Quando Helena acabava a história o menino já estava com os olhos piscando e logo em seguida os fechava num sono tranquilo. O sorriso ainda bailava nos lábios. Eram doces momentos de amor.

Ela se levantava devagar, colocando a cabeça do filho no travesseiro e beijando-lhe a testa. Apagava a luz do quarto e saía silenciosa. Sempre havia aventura, perigos, ação e jornadas que aconteciam dentro das histórias de Helena Diniz ao seu filho, mas Marcelo Diniz Kravinski cresceu naquele apartamento quase no centro de Curitiba e celebrava a amizade e o amor materno dentro daquele lar.  Estranhou quando a mãe casou-se novamente. Ele esperava ter um pai, pelo menos era o que Henrique, o homem da vida dela, como dizia sempre, demonstrava que seria, ao longo da caminhada e da sua mocidade. Mas, as histórias nem sempre são como imaginamos na vida. Elas podem criar animais ferozes que nenhum herói consegue domar. Porém, Marcelo aceitou viver num outro apartamento, já com treze anos e pegar ônibus para a escola, antes apenas uma quadra de sua casa. Ficaram morando naquele apartamento com Henrique apenas quatro meses. A convivência ficou impossível, com a ex-mulher de Henrique criando vários fatos que o afastavam dela e fosse atender aos filhos, em especial o mais novo. A situação tornou-se insuportável. O homem com quem sonhou ter uma família havia se transformado num dos monstros de suas histórias e só havia ela de heroína para acabar com aquele monstro. A única solução foi a separação e Helena  e Marcelo foram para a casa de um tio, pois o apartamento deles havia sido alugado por um ano. Foram noites insuportáveis e seu choro abafado era ouvido por Marcelo. Ela não queria que ele participasse daquela dor, mas não havia contenção que pudesse evitar.

Ficaram na casa do tio apenas dois meses e tiveram que alugar outro apartamento para esperar que vencesse o prazo de aluguel do apartamento próprio. O dinheiro ficou curto, muitas vezes a luz foi cortada por falta de pagamento. Já não almoçavam em casa, apenas em pequenos restaurantes de prato feito. A paz antes tão doce e real tornara-se um sofrimento silencioso entre mãe e filho.

Assim, é a história de Helena. Uma história longa e recheada de altos e baixos, como de resto é a vida. A escolha fora dolorida, mas só valia viver e buscar a felicidade se o monstro criado por ela fosse totalmente esquartejado.

O tempo se esvaiu, o ano terminou e finalmente voltaram ao apartamento. A casa estava muito estragada pelos inquilinos. Foi preciso muita reforma e muito aperto financeiro, mas os dois estavam recomeçando a se recompor da dor imposta pela vida. Não, aquilo não tinha sido história, era a vida e ambos levaram essa lição para o resto do tempo. Nem sempre se pode confiar nas doces palavras de alguém. Somente convivendo se é possível conhecer, mas o aprendizado ficou.

Luar do meu sertão

luar do meu querido sertao

Retornar, após oito anos de ausência, transformou-se numa aventura muito intensa. O carro rodava na estrada sem curvas e deserta. Era uma motorista sem experiência a guiar na solidão da estrada. Mas nada podia assustar aquela mocinha que ia em busca de sua infância e de sua terra natal. A mãe cochilava ao lado. Os braços inexperientes começaram a formigar. Precisava parar para descansar.

Finalmente avistou um restaurante. Acordou a mãe. Desceram. Era a hora do almoço. Já ao sentarem à mesa perceberam a diferença dos costumes alimentares. Eram tantos os pratos de carnes quantos não havia os de verdura. Era o Estado das pastagens e do gado de corte.

Lá pelas duas horas da tarde seguiram viagem. Queriam chegar em Campo Grande à noitinha. O carro voltou a rodar na estrada vazia. O sono ia e vinha em razão do estômago saciado. Não havia como desistir. Era muita estrada para rodar. Vez ou outra cruzavam com alguém que vinha em direção oposta.

Chegaram em Campo Grande perto das oito horas da noite. Fora um dia inteiro na estrada. Estava exausta. Tomou um banho e dormiu doze horas seguidas. No dia seguinte acordou com o sol despontando e o coração estourando de alegria. Estava novamente na sua terra, mas a aventura apenas começara. Seguiram para a estação de trem. Subiram no vagão próprio, em busca da cabine. O trem começou com a sua a marcha. Lentamente foi deixando a estação. O barulho da Maria-fumaça seguia o seu ritmo contínuo, naquele estranho murmurar. Vez ou outra se ouvia o apito. Estavam próximos de alguma estação. Desciam muitos e subiam outros tantos.

À noitinha foram ao vagão restaurante. Era delicioso tomar aquela sopa no jogo gostoso e contínuo do trem. Assomaram à memória tantas lembranças. Velhas lembranças de criança. Um coreto. Uma banda. A quadra do cinema onde as moças mais velhas faziam o footing, o chamado passeio para namorar. Tudo era tão ingênuo e puro para aquelas bandas.

Ela deitou feliz no beliche de cima.

A mãe não conseguiu fechar a janela do trem e, a cada parada noturna, as luzes invadiam a cabine, mas o sono da menina de dezoito anos era tão tranqüilo que nem os olhos curiosos podiam despertar.

Finalmente a estação de Três Lagoas. A pequena cidade encravada no interior de Mato Grosso do Sul.

Desceram felizes como duas crianças. As primeiras imagens foram a praça e o coreto. Depois o grande relógio central e lá no fundo a catedral, única igreja católica da cidade.

De malas em punho dispensaram o táxi velho e desengonçado e subiram na charrete, toda pintada e reformada para o passeio com os turistas. Velhas memórias vieram-lhe à mente. Tantas e tantas viagens naquelas charretes em busca do Grupo Escolar Afonso Pena. Naquele tempo os cascos dos cavalos não batiam no asfalto, as patas animais afundavam na areia quente do calor escaldante daquela região do Brasil, seguindo num ritmo lento e calorento. Era sempre muito bom chegar à escola. A sombra das mangueiras à volta do velho prédio trazia o refresco agradável e tépido, amenizando o calor.

A charrete seguia, enquanto ouviam o tamborilar dos cascos dos cavalos até a casa de Tia Maria. Uma enorme casa cercada de mangueiras, com uma imensa varanda, onde as redes pareciam permanecer cotidianamente estendidas esperando o descanso do corpo que trazia a moleza do calor.

A alegria do reencontro foi imensa.

Não acreditávamos que viessem, dizia um.

Que bom que tiveram coragem para enfrentar a estrada, dizia outro. E a euforia era imensa.

Foi um reboliço a arrumação do quarto que não estava esperando as visitas. Atestava-se a incredulidade da viagem.

À noite as cadeiras foram sendo colocadas na calçada à frente da casa. Ela agora, como os adultos, também tinha uma cadeira para sentar.

Os vizinhos foram chegando e mais cadeiras foram sendo agregadas. A conversa era aquela de tantos anos atrás. Os filhos, a vida, a política do governo e o céu estrelado com a lua observando a cantilena de sempre. Mas como era bom conversar sob o céu estrelado do sertão da terra natal, mesmo que a prosa não tivesse mudado um tiquinho sequer. Nada era mais acolhedor do que sentir aquele cheiro de terra e ouvir aquele povo simples falar de coisas simples.

Lá pelas dez horas eles foram chegando. Violão debaixo dos braços, um velho acordeão e a música sertaneja e chorosa tomou conta de todos, enquanto a lua imensa e clara observava tudo do alto.

Mesmo que precisasse enfrentar novas doze horas de viagem sem parar e mais uma noite de trem, não desistiria de ouvir sua gente e ver aquele luar do seu sertão

Doce Porto Murtinho

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         Ao abrir os olhos, Marília reconheceu a sensação do domingo de verão. A sensação de liberdade tomou–a por completo. Do andar térreo, veio o aroma agradável do café recém–passado. Marília pegou o celular ligou e apareceu no visor a hora. Oito horas.
Sabia não haver necessidade de levantar, ficou deitada um pouco mais, apreciando o sol transpassar os galhos da mangueira imensa. O céu além da janela mostrava um azul translúcido. A sensação de alegria a invadiu. Levantou da cama, lenta. Desceu as escadas. A lembrança da infância imperou.
– Isso são modos, menina? – era Cida a babá, que ela tanto amava.

    – Bom dia, Cida! – a menina beijou a empregada negra e gorda nas bochechas brilhantes, com um sorriso maroto pregado no rosto e nem prestou atenção à reprimenda.

      Cida se deixou envolver pela alegria daquela garota de cinco anos. Ela sempre sabia como encantar.

       – Não vá se sujar, como ontem. Brinque apenas no pátio. Não vá até a horta! – a voz saiu mais alta, porque a garota já estava correndo para os canteiros das cenouras.

     Foi até a horta, colheu uma cenoura, retirou a mangueira da torneira, lavou ali mesmo. Saiu feliz, roendo a cenoura. Somente após, voltou, sentou–se à mesa da cozinha, tomou seu leite com café e comeu o pão caseiro com manteiga, preparados pela Cida.

            – Minha mãe e meu pai já levantaram, Cida?

            – Ainda não, e vão dormir até mais tarde. Hoje é domingo, lembra?

– Claro, por isso levantei cedo, para aproveitar… Você não acha que o dia está lindo, Cida?

– Acho Marília, mas não fique tão perto do fogão, você pode se queimar.

– Não se preocupe, só quero conversar com você. Na verdade Carolina não conversa comigo, só tem tempo para as amigas dela. – Falou, amuada, com o comportamento da irmã, três anos mais velha.

– Tenha paciência com ela, Marília. Ela está na idade de ter amigas mais velhas.

            – Você sabia que elas só falam na língua do f?

            – Língua do f?

            Agora ela estava de novo diante do casarão e se lembrava daquela manhã com saudade. Viúva, sem filhos retornou a Porto Murtinho. O casarão fazia as recordações voltarem vívidas. Era o dia que voltou da faculdade.

            Enquanto caminhava em direção a casa, as lembranças assomaram. Voltava para as férias de verão, naquela época. A pequena cidade de Porto Murtinho a aguardava, na modorra de sempre. Os pais a esperavam na minúscula rodoviária. Tinha enfrentado alguns quilômetros de terra e buraco na estrada poeirenta. O corpo ainda dolorido dos solavancos. Desceu do ônibus e abraçou os pais com carinho. Sentia–se bem de estar em casa.

            Tomou um banho tépido. A água quase gelada para tirar o calor e o suor que grudavam a pele. Da porta percebeu o céu azulado daquela terra. Tão diferente da São Paulo barulhenta e muitas vezes chuvosa.

            A volta pela cidade era sagrada. Abraçou velhos amigos. Reviu os parentes.

            Entrava porta adentro. Ninguém trancava suas casas. Um lugarejo como aquele nem mesmo a ansiedade de um furto poderia quebrar a monotonia, porque a inexistência disso era real.

            Andou pela única avenida da cidade. Foi até a sorveteria, ponto de encontro dos amigos. Encontrou alguns, chegando para as férias. Ficaram pela longa tarde quente e pacata, sentados à mesa da lanchonete, jogando conversa fora. No dia seguinte passou pelo porto. Gostava de olhar aquelas mulheres, a maioria paraguaia, lavando roupa nas margens do rio, enquanto alguns homens dedilhavam harpas, nos pequenos bares à beira do Paraguai. Era uma imagem quase insólita, aquela.

            Imaginou como seria sua vida se o pai não tivesse deixado a magistratura para se radicar em Porto Murtinho.

            Houve aquele ano de 1955 em que o convidaram para seguir a Cuiabá. A promoção tão esperada pela mãe há muitos anos.

            Era o tempo, ainda, em que os dois estados eram um só. Havia apenas um Mato Grosso. A promoção do pai seria uma honraria, mas ele declinou o convite do Tribunal de Justiça. Largou a magistratura. Continuou em Porto Murtinho. Criara raízes. Comprara fazenda, gado e uma imensa e agradável casa.

            O casarão branco da esquina atraía todos ao cair da tarde. Tomavam tereré, – mate, com a água gelada, sorvido pela bombilha e passado de mão em mão. Enquanto conversavam, os amigos iam se achegando, as cadeiras aumentavam, paulatinamente. Perto das dez horas da noite chegavam as harpas e os cantadores. A guarânia saía chorada. Todos participavam e aplaudiam felizes até altas horas da madrugada. A descendência espanhola do pai assomava.

            O calor naquelas paragens, àquela época do ano, era intenso. Ficar até de madrugada ouvindo guarânia, para sentir o ar mais fresco da noite, fazia com que o povo só recomeçasse a vida perto das dez da manhã seguinte.

Aquele programa rotineiro nem sempre alegrava aos mais jovens. Preferiam a sorveteria.

            A monotonia se perpetuava até aquele dia.

         O navio iluminado e festivo atracou no porto. Era de pequeno calado, mas o bastante para navegar pelas águas do rio Paraguai.

O boato correu pela cidade, como um estopim. Havia atracado no porto um navio enorme! Havia problemas a serem consertados.

            Verdadeiramente não era um navio, mas um iate de grande porte.

         Ninguém soube explicar, nunca, porque eles chegaram até ali.

         Os passageiros desceram curiosos para conhecer aquele lugarejo perdido no centro–oeste brasileiro.

      Eram argentinos, paraguaios e alguns poucos chilenos. A comunicação inicial foi difícil, porém a convivência ajudou.

Pretendiam resolver como melhor recepcionar os visitantes.

       A abertura da temporada deu início na casa do Juiz de Direito – seu pai. Aliás, apesar de ter abandonado a carreira, continuou a ser chamado daquela forma. O título fazia parte da figura paterna. O povo ouvia sua opinião. Os jovens magistrados que assumiam a comarca também o respeitavam e ouviam com atenção suas opiniões. E a vida seguia tranquila naquelas bandas.

            A festa se iniciava com declamações de poesias. Passava à apresentação de cantores regionais, em seguida a orquestra começava seus acordes e os salões se enchiam de música. Todos dançavam. Os jovens viajantes procuravam seus pares entre a nossa turma.

            Foram trinta e um dias do mês de janeiro de uma temporada de verão inesquecível. Quando eles se despediram de Porto Murtinho foi como se tivessem levando os sonhos dos habitantes do lugar, deixando a saudade antecipada de belos e animados dias.

O assunto perdurou como notícia naquela cidade por vários anos.

 

 

Luz e sombras

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A fachada de tijolos era perfeitamente alinhada à beirada da rua. Atrás da porta, no vestíbulo, eram deixados o guarda-chuva e o chapéu panamá. A direita era o lugar onde sempre comiam. O salão era imenso. À esquerda ficavam dispostos os estofados, proibidos de serem usados pelas crianças. Logo ao lado da extensa mesa de jacarandá se erguia a escada que dava para os quartos. Era naquele corrimão que se escorregavam, quando crianças. Abaixo da escada estava o gabinete do pai, pequena peça de quatro metros quadrados com mesa, cadeira de espaldar alto, onde ele se sentava e à sua frente duas poltronas, para seus interlocutores. Ao lado as estantes iam até o teto. Os livros as abarrotavam, mas eram perfeitamente colocados e espanados todos os dias. O cheiro da comida penetrava através da porta, enquanto ele despachava com o advogado da cidade ou com o oficial de justiça. Sandra sentava-se no batente da porta e ficava perdida em seus pensamentos até que o pai a expulsava, naquela sua forma branda, corriqueiramente.
O jardim amplo, de comprimento igual à largura da casa, era fechado dos lados por muros. No centro a velha cisterna ainda permanecia. Lembrou do dia em que seu dedo foi espremido por aquela bomba. Agora o fato parecia hilário.
Teimara com a velha empregada do vizinho, que vinha constantemente pegar água naquele lugar. A mulher se irritara com sua teimosia e distraidamente bateu a bomba quando ela colocou o dedo. O pai avisado pela irmã mais velha saiu à caça da pobre mulher com vassoura em punho. Ele, o juiz de direito da cidade, um homem educado e polido, ficara completamente descontrolado ao ver o dedo da menina de quatro anos esmagado e sangrando. Posteriormente o médico costurou uma pequena ponta solta do dedo indicador e tudo ficou perfeito.
Seguindo seu caminho foi até o pátio cimentado, nos fundos do terreno. A goiabeira, beirando o muro, havia engrossado seu caule e crescera mais do que qualquer outra que já vira. Voltou-se para o outro lado do terreno e seguiu onde ficava a horta da família. Era ali que brincavam horas a fio.
Olhou com carinho aquele terreno e o quadro se fez em sua memória. Maria, sua irmã mais velha, era uma doce garota de olhos verdes e grandes. Costumava acreditar ingenuamente em todas as invencionices que ela, Sandra, trazia. Naquela manhã estavam brincando por entre as verduras e encontraram uma planta interessante. Os frutos eram pequeninos, vermelhos e cheirosos, parecendo tomates. Ela incitou Maria a prepará-los na cozinha usada para as brincadeiras das crianças. Não havia imaginado o desenlace da peraltice. Maria, uma garota franzina e alérgica, passara nos olhos as mãos que manusearam as pimentas vermelhas e agora mostrava o rosto e pescoço completamente enrubescidos e inchados. A conclusão fora uma surra de chinelo que sua mãe lhe aplicara, enquanto a babá atendia Maria, que choramingava. Subira para seu quarto e lá ficara quieta, sem chorar, maldizendo a todos, em pensamento, por terem plantado a tal pimenteira.
Girou nos calcanhares voltando para dentro de casa. Subiu as escadas. Sandra entrou nos quartos. O primeiro não estava mobiliado; mas o segundo, que era o quarto conjugal, tinha um leito e cortinas amarelas descoradas. Fechou os olhos e lembrou-se do quarto dos pais. A cama tinha a cabeceira em madeira entalhada. O lustre de cristal pendia sobre a cama, ladeada por tapetes persas. A penteadeira onde eram colocados os vidros de perfume ficava a esquerda da cama.
Novamente seu pensamento foi para aquele dia em que, apenas por traquinagem, resolveu puxar a toalha de crochê onde descansavam os frascos. Quando a mãe ouviu o barulho de vidros quebrados teve certeza de que era ela. Ao ver a mãe subir as escadas, passou correndo por ela, que não conseguiu segurá-la e escorregou pelo corrimão da escada, indo subir na goiabeira. O dia inteiro passou ali em cima. O odor do almoço fazia seu estômago apertar, mas a vista do chinelo na mão da mãe a fazia aconchegar-se no galho da árvore, velha amiga de guerra. Quando o dia escureceu, Cida, a babá, tirou-a de cima dos galhos meio sonolenta e a levou para cama. Somente no dia seguinte pode atestar que a raiva materna ainda não havia passado.
– Podemos ir? – Perguntou a locatária. – Ainda pretende olhar mais? Sabe, estamos no horário de almoço…
A voz da mulher a retirou de suas reminiscências. Teve vontade de dizer que não queria sair dali. Aquele lugar lhe dera os mais belos dias de sua infância. Para saborear a doçura daqueles tempos teria que viajar por países de nomes inexistentes, em carruagens, sob cortinas de sedas; escalar montanhas; ouvir o ruído de cascatas; respirar o odor da terra enquanto se aprecia o pôr do sol; olhar as estrelas salpicarem o negrume do céu. Tudo isso a um só tempo. Todos sonham com algum espaço na terra para produzir felicidade, com aquela doçura peculiar. Ali era o seu lugar, assim.
Desejava fazer confidências a alguém sobre isso, mas como explicar àquela mulher o inexplicável.
– Posso voltar à tarde?
– Voltar à tarde? – Perguntou espantada a dona da casa. “- Será que aquela moça já não havia visto tudo? Um casarão velho e carcomido pelo tempo, sem qualquer beleza na construção” – pensou a mulher. Não tinha mesmo para quem mostrar. Era tão difícil aparecer alguém para alugar uma casa. A cidade era pequena e todos já tinham suas moradias. Deu de ombros.
– Esta bem? Se assim deseja…
Saiu da casa a passos rápidos, como se fugisse à hipnose que o local exercia sobre ela. Deu um encontrão naquele homem de olhos verdes penetrantes, olhos bem mais sérios do que o sorriso cordial que lhe brotou no rosto. Desculpou-se e afastou-se com a locadora.
Sua mente se embaralhou e lembranças esparsas pareciam querer brotar em seu cérebro. Nada se definia.
Ao chegar ao hotel voltou à sua mente aquele olhar. Lembrou-se de um menino com quem brincava. Ele era um pouco mais velho que os demais, mas estava sempre entre eles.
Ela se recusava a acreditar que Mateus fosse aquele homem. Os olhos traziam a imagem do menino amado na infância. Deu-se ao tempo de rememorar aqueles momentos de folguedos. A infância ainda se mantinha intacta dentro dela. Era bom sentir-se criança outra vez. Seu mundo cor de rosa lhe ampliara os horizontes, mostrando castelos invisíveis, aventuras incansáveis
Seus olhos interiores a levaram a passear pelas lembranças. E como eles gostavam! Encantam-se com tudo. Para eles o mundo era assombroso. O banho de cachoeira no verão. Meninos correndo em fuga da fiscalização dos pais. Era uma turma de doze a caminho do toque da água fresca e cristalina a escorrer pelos corpos quase desnudos de todos eles. A sensação do vento na cara, espalhando os cabelos secados com gravetos batidos nos fios. Doce lembrança do barulho das folhas nos galhos das mangueiras. Seu nariz sentia ainda o cheiro do cedro-rosa. Os ouvidos continuavam a ouvir o som da viola e da harpa tocando a guarânia sentida e chorada. Aqueles olhos interiores lembravam das historias contadas pelo pai para adormecer os filhos. De olhar as estrelas, salpicando o céu do sertão. A lua redonda e soberana iluminando a mata. Os latidos de Lassie, a cachorra ganha no natal. A árvore natalina enfeitada com bolas coloridas e luzes pisca-pisca. Aquilo tudo estava ali ao seu alcance, bastava estender as mãos e pegar. Tudo parecia possível naquele momento mágico. Novamente sua criança interior suplantava qualquer dor.

A vida deferira-lhe grandes golpes , mas ela sobrevivera. Descobrira uma força interior que não sabia possuir.
Contratou um advogado que fez seu divórcio. Ela não teve notícias de Carlos, mas superara tudo tão bem que podia pensar nele sem sofrimento ou animosidade. Tornara-se óbvio que ele concordara em casar-se apenas por causa da gravidez e porque era ganancioso. Não vira mais utilidade para ela, quando descobrira que o aborto espontâneo ocorrera uma semana após a união deles. A herança desejada esfumava-se com a morte daquele pequeno ser. O casamento com separação total de bens somente o habilitaria tocar no dinheiro dela se pudesse ficar com o filho. Agora aquilo era um sonho impossível. Com o tempo Regina parou de culpa-lo, reconhecendo também que se casara por motivos egoístas, pois ficara grávida e tivera medo de enfrentar sozinha a criação de um filho. E Carlos nunca a enganara, nunca dissera que a amava. Haviam se casado por todas as razões erradas, e o casamento estivera fadado ao fracasso desde o início.
A viagem até a pequena cidade no interior de Mato Grosso do Sul traria a ela esperanças de uma vida mais simples. Deixara a empresa nas mãos de um Diretor Executivo de sua inteira confiança e partiu.

Ao retornar à tarde, já estava decidida. Compraria aquela casa tão cheia de memórias de sua infância. Talvez pudesse reencontrar Mateus e voltar a sonhar com uma vida emocional mais saudável.

Luar do meu sertão

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Retornar, após oito anos de ausência, transformou-se numa aventura muito intensa. O carro rodava na estrada sem curvas e deserta. Era uma motorista sem experiência a guiar na solidão da estrada. Mas nada podia assustar aquela mocinha que ia em busca de sua infância e de sua terra natal. A mãe cochilava ao lado. Os braços inexperientes começaram a formigar. Precisava parar para descansar.

Finalmente avistou um restaurante. Acordou a mãe. Desceram. Era a hora do almoço. Já ao sentarem à mesa perceberam a diferença dos costumes alimentares. Eram tantos os pratos de carnes quantos não havia os de verdura. Era o Estado das pastagens e do gado de corte.

Lá pelas duas horas da tarde seguiram viagem. Queriam chegar em Campo Grande à noitinha. O carro voltou a rodar na estrada vazia. O sono ia e vinha em razão do estômago saciado. Não havia como desistir. Era muita estrada para rodar. Vez ou outra cruzavam com alguém que vinha em direção oposta.

Chegaram em Campo Grande perto das oito horas da noite. Fora um dia inteiro na estrada. Estava exausta. Tomou um banho e dormiu doze horas seguidas. No dia seguinte acordou com o sol despontando e o coração estourando de alegria. Estava novamente na sua terra, mas a aventura apenas começara. Seguiram para a estação de trem. Subiram no vagão próprio, em busca da cabine. O trem começou com a sua a marcha. Lentamente foi deixando a estação. O barulho da Maria-fumaça seguia o seu ritmo contínuo, naquele estranho murmurar. Vez ou outra se ouvia o apito. Estavam próximos de alguma estação. Desciam muitos e subiam outros tantos.

À noitinha foram ao vagão restaurante. Era delicioso tomar aquela sopa no jogo gostoso e contínuo do trem. Assomaram à memória tantas lembranças. Velhas lembranças de criança. Um coreto. Uma banda. A quadra do cinema onde as moças mais velhas faziam o footing, o chamado passeio para namorar. Tudo era tão ingênuo e puro para aquelas bandas.

Ela deitou feliz no beliche de cima.

A mãe não conseguiu fechar a janela do trem e, a cada parada noturna, as luzes invadiam a cabine, mas o sono da menina de dezoito anos era tão tranqüilo que nem os olhos curiosos podiam despertar.

Finalmente a estação de Três Lagoas. A pequena cidade encravada no interior de Mato Grosso do Sul.

Desceram felizes como duas crianças. As primeiras imagens foram a praça e o coreto. Depois o grande relógio central e lá no fundo a catedral, única igreja católica da cidade.

De malas em punho dispensaram o táxi velho e desengonçado e subiram na charrete, toda pintada e reformada para o passeio com os turistas. Velhas memórias vieram-lhe à mente. Tantas e tantas viagens naquelas charretes em busca do Grupo Escolar Afonso Pena. Naquele tempo os cascos dos cavalos não batiam no asfalto, as patas animais afundavam na areia quente do calor escaldante daquela região do Brasil, seguindo num ritmo lento e calorento. Era sempre muito bom chegar à escola. A sombra das mangueiras à volta do velho prédio trazia o refresco agradável e tépido, amenizando o calor.

A charrete seguia, enquanto ouviam o tamborilar dos cascos dos cavalos até a casa de Tia Maria. Uma enorme casa cercada de mangueiras, com uma imensa varanda, onde as redes pareciam permanecer cotidianamente estendidas esperando o descanso do corpo que trazia a moleza do calor.

A alegria do reencontro foi imensa.

Não acreditávamos que viessem, dizia um.

Que bom que tiveram coragem para enfrentar a estrada, dizia outro. E a euforia era imensa.

Foi um reboliço a arrumação do quarto que não estava esperando as visitas. Atestava-se a incredulidade da viagem.

À noite as cadeiras foram sendo colocadas na calçada à frente da casa. Ela agora, como os adultos, também tinha uma cadeira para sentar.

Os vizinhos foram chegando e mais cadeiras foram sendo agregadas. A conversa era aquela de tantos anos atrás. Os filhos, a vida, a política do governo e o céu estrelado com a lua observando a cantilena de sempre. Mas como era bom conversar sob o céu estrelado do sertão da terra natal, mesmo que a prosa não tivesse mudado um tiquinho sequer. Nada era mais acolhedor do que sentir aquele cheiro de terra e ouvir aquele povo simples falar de coisas simples.

Lá pelas dez horas eles foram chegando. Violão debaixo dos braços, um velho acordeão e a música sertaneja e chorosa tomou conta de todos, enquanto a lua imensa e clara observava tudo do alto.

Mesmo que precisasse enfrentar novas doze horas de viagem sem parar e mais uma noite de trem, não desistiria de ouvir sua gente e ver aquele luar do seu sertão.