Doce Porto Murtinho

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         Ao abrir os olhos, Marília reconheceu a sensação do domingo de verão. A sensação de liberdade tomou–a por completo. Do andar térreo, veio o aroma agradável do café recém–passado. Marília pegou o celular ligou e apareceu no visor a hora. Oito horas.
Sabia não haver necessidade de levantar, ficou deitada um pouco mais, apreciando o sol transpassar os galhos da mangueira imensa. O céu além da janela mostrava um azul translúcido. A sensação de alegria a invadiu. Levantou da cama, lenta. Desceu as escadas. A lembrança da infância imperou.
– Isso são modos, menina? – era Cida a babá, que ela tanto amava.

    – Bom dia, Cida! – a menina beijou a empregada negra e gorda nas bochechas brilhantes, com um sorriso maroto pregado no rosto e nem prestou atenção à reprimenda.

      Cida se deixou envolver pela alegria daquela garota de cinco anos. Ela sempre sabia como encantar.

       – Não vá se sujar, como ontem. Brinque apenas no pátio. Não vá até a horta! – a voz saiu mais alta, porque a garota já estava correndo para os canteiros das cenouras.

     Foi até a horta, colheu uma cenoura, retirou a mangueira da torneira, lavou ali mesmo. Saiu feliz, roendo a cenoura. Somente após, voltou, sentou–se à mesa da cozinha, tomou seu leite com café e comeu o pão caseiro com manteiga, preparados pela Cida.

            – Minha mãe e meu pai já levantaram, Cida?

            – Ainda não, e vão dormir até mais tarde. Hoje é domingo, lembra?

– Claro, por isso levantei cedo, para aproveitar… Você não acha que o dia está lindo, Cida?

– Acho Marília, mas não fique tão perto do fogão, você pode se queimar.

– Não se preocupe, só quero conversar com você. Na verdade Carolina não conversa comigo, só tem tempo para as amigas dela. – Falou, amuada, com o comportamento da irmã, três anos mais velha.

– Tenha paciência com ela, Marília. Ela está na idade de ter amigas mais velhas.

            – Você sabia que elas só falam na língua do f?

            – Língua do f?

            Agora ela estava de novo diante do casarão e se lembrava daquela manhã com saudade. Viúva, sem filhos retornou a Porto Murtinho. O casarão fazia as recordações voltarem vívidas. Era o dia que voltou da faculdade.

            Enquanto caminhava em direção a casa, as lembranças assomaram. Voltava para as férias de verão, naquela época. A pequena cidade de Porto Murtinho a aguardava, na modorra de sempre. Os pais a esperavam na minúscula rodoviária. Tinha enfrentado alguns quilômetros de terra e buraco na estrada poeirenta. O corpo ainda dolorido dos solavancos. Desceu do ônibus e abraçou os pais com carinho. Sentia–se bem de estar em casa.

            Tomou um banho tépido. A água quase gelada para tirar o calor e o suor que grudavam a pele. Da porta percebeu o céu azulado daquela terra. Tão diferente da São Paulo barulhenta e muitas vezes chuvosa.

            A volta pela cidade era sagrada. Abraçou velhos amigos. Reviu os parentes.

            Entrava porta adentro. Ninguém trancava suas casas. Um lugarejo como aquele nem mesmo a ansiedade de um furto poderia quebrar a monotonia, porque a inexistência disso era real.

            Andou pela única avenida da cidade. Foi até a sorveteria, ponto de encontro dos amigos. Encontrou alguns, chegando para as férias. Ficaram pela longa tarde quente e pacata, sentados à mesa da lanchonete, jogando conversa fora. No dia seguinte passou pelo porto. Gostava de olhar aquelas mulheres, a maioria paraguaia, lavando roupa nas margens do rio, enquanto alguns homens dedilhavam harpas, nos pequenos bares à beira do Paraguai. Era uma imagem quase insólita, aquela.

            Imaginou como seria sua vida se o pai não tivesse deixado a magistratura para se radicar em Porto Murtinho.

            Houve aquele ano de 1955 em que o convidaram para seguir a Cuiabá. A promoção tão esperada pela mãe há muitos anos.

            Era o tempo, ainda, em que os dois estados eram um só. Havia apenas um Mato Grosso. A promoção do pai seria uma honraria, mas ele declinou o convite do Tribunal de Justiça. Largou a magistratura. Continuou em Porto Murtinho. Criara raízes. Comprara fazenda, gado e uma imensa e agradável casa.

            O casarão branco da esquina atraía todos ao cair da tarde. Tomavam tereré, – mate, com a água gelada, sorvido pela bombilha e passado de mão em mão. Enquanto conversavam, os amigos iam se achegando, as cadeiras aumentavam, paulatinamente. Perto das dez horas da noite chegavam as harpas e os cantadores. A guarânia saía chorada. Todos participavam e aplaudiam felizes até altas horas da madrugada. A descendência espanhola do pai assomava.

            O calor naquelas paragens, àquela época do ano, era intenso. Ficar até de madrugada ouvindo guarânia, para sentir o ar mais fresco da noite, fazia com que o povo só recomeçasse a vida perto das dez da manhã seguinte.

Aquele programa rotineiro nem sempre alegrava aos mais jovens. Preferiam a sorveteria.

            A monotonia se perpetuava até aquele dia.

         O navio iluminado e festivo atracou no porto. Era de pequeno calado, mas o bastante para navegar pelas águas do rio Paraguai.

O boato correu pela cidade, como um estopim. Havia atracado no porto um navio enorme! Havia problemas a serem consertados.

            Verdadeiramente não era um navio, mas um iate de grande porte.

         Ninguém soube explicar, nunca, porque eles chegaram até ali.

         Os passageiros desceram curiosos para conhecer aquele lugarejo perdido no centro–oeste brasileiro.

      Eram argentinos, paraguaios e alguns poucos chilenos. A comunicação inicial foi difícil, porém a convivência ajudou.

Pretendiam resolver como melhor recepcionar os visitantes.

       A abertura da temporada deu início na casa do Juiz de Direito – seu pai. Aliás, apesar de ter abandonado a carreira, continuou a ser chamado daquela forma. O título fazia parte da figura paterna. O povo ouvia sua opinião. Os jovens magistrados que assumiam a comarca também o respeitavam e ouviam com atenção suas opiniões. E a vida seguia tranquila naquelas bandas.

            A festa se iniciava com declamações de poesias. Passava à apresentação de cantores regionais, em seguida a orquestra começava seus acordes e os salões se enchiam de música. Todos dançavam. Os jovens viajantes procuravam seus pares entre a nossa turma.

            Foram trinta e um dias do mês de janeiro de uma temporada de verão inesquecível. Quando eles se despediram de Porto Murtinho foi como se tivessem levando os sonhos dos habitantes do lugar, deixando a saudade antecipada de belos e animados dias.

O assunto perdurou como notícia naquela cidade por vários anos.

 

 

Luz e sombras

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A fachada de tijolos era perfeitamente alinhada à beirada da rua. Atrás da porta, no vestíbulo, eram deixados o guarda-chuva e o chapéu panamá. A direita era o lugar onde sempre comiam. O salão era imenso. À esquerda ficavam dispostos os estofados, proibidos de serem usados pelas crianças. Logo ao lado da extensa mesa de jacarandá se erguia a escada que dava para os quartos. Era naquele corrimão que se escorregavam, quando crianças. Abaixo da escada estava o gabinete do pai, pequena peça de quatro metros quadrados com mesa, cadeira de espaldar alto, onde ele se sentava e à sua frente duas poltronas, para seus interlocutores. Ao lado as estantes iam até o teto. Os livros as abarrotavam, mas eram perfeitamente colocados e espanados todos os dias. O cheiro da comida penetrava através da porta, enquanto ele despachava com o advogado da cidade ou com o oficial de justiça. Sandra sentava-se no batente da porta e ficava perdida em seus pensamentos até que o pai a expulsava, naquela sua forma branda, corriqueiramente.
O jardim amplo, de comprimento igual à largura da casa, era fechado dos lados por muros. No centro a velha cisterna ainda permanecia. Lembrou do dia em que seu dedo foi espremido por aquela bomba. Agora o fato parecia hilário.
Teimara com a velha empregada do vizinho, que vinha constantemente pegar água naquele lugar. A mulher se irritara com sua teimosia e distraidamente bateu a bomba quando ela colocou o dedo. O pai avisado pela irmã mais velha saiu à caça da pobre mulher com vassoura em punho. Ele, o juiz de direito da cidade, um homem educado e polido, ficara completamente descontrolado ao ver o dedo da menina de quatro anos esmagado e sangrando. Posteriormente o médico costurou uma pequena ponta solta do dedo indicador e tudo ficou perfeito.
Seguindo seu caminho foi até o pátio cimentado, nos fundos do terreno. A goiabeira, beirando o muro, havia engrossado seu caule e crescera mais do que qualquer outra que já vira. Voltou-se para o outro lado do terreno e seguiu onde ficava a horta da família. Era ali que brincavam horas a fio.
Olhou com carinho aquele terreno e o quadro se fez em sua memória. Maria, sua irmã mais velha, era uma doce garota de olhos verdes e grandes. Costumava acreditar ingenuamente em todas as invencionices que ela, Sandra, trazia. Naquela manhã estavam brincando por entre as verduras e encontraram uma planta interessante. Os frutos eram pequeninos, vermelhos e cheirosos, parecendo tomates. Ela incitou Maria a prepará-los na cozinha usada para as brincadeiras das crianças. Não havia imaginado o desenlace da peraltice. Maria, uma garota franzina e alérgica, passara nos olhos as mãos que manusearam as pimentas vermelhas e agora mostrava o rosto e pescoço completamente enrubescidos e inchados. A conclusão fora uma surra de chinelo que sua mãe lhe aplicara, enquanto a babá atendia Maria, que choramingava. Subira para seu quarto e lá ficara quieta, sem chorar, maldizendo a todos, em pensamento, por terem plantado a tal pimenteira.
Girou nos calcanhares voltando para dentro de casa. Subiu as escadas. Sandra entrou nos quartos. O primeiro não estava mobiliado; mas o segundo, que era o quarto conjugal, tinha um leito e cortinas amarelas descoradas. Fechou os olhos e lembrou-se do quarto dos pais. A cama tinha a cabeceira em madeira entalhada. O lustre de cristal pendia sobre a cama, ladeada por tapetes persas. A penteadeira onde eram colocados os vidros de perfume ficava a esquerda da cama.
Novamente seu pensamento foi para aquele dia em que, apenas por traquinagem, resolveu puxar a toalha de crochê onde descansavam os frascos. Quando a mãe ouviu o barulho de vidros quebrados teve certeza de que era ela. Ao ver a mãe subir as escadas, passou correndo por ela, que não conseguiu segurá-la e escorregou pelo corrimão da escada, indo subir na goiabeira. O dia inteiro passou ali em cima. O odor do almoço fazia seu estômago apertar, mas a vista do chinelo na mão da mãe a fazia aconchegar-se no galho da árvore, velha amiga de guerra. Quando o dia escureceu, Cida, a babá, tirou-a de cima dos galhos meio sonolenta e a levou para cama. Somente no dia seguinte pode atestar que a raiva materna ainda não havia passado.
– Podemos ir? – Perguntou a locatária. – Ainda pretende olhar mais? Sabe, estamos no horário de almoço…
A voz da mulher a retirou de suas reminiscências. Teve vontade de dizer que não queria sair dali. Aquele lugar lhe dera os mais belos dias de sua infância. Para saborear a doçura daqueles tempos teria que viajar por países de nomes inexistentes, em carruagens, sob cortinas de sedas; escalar montanhas; ouvir o ruído de cascatas; respirar o odor da terra enquanto se aprecia o pôr do sol; olhar as estrelas salpicarem o negrume do céu. Tudo isso a um só tempo. Todos sonham com algum espaço na terra para produzir felicidade, com aquela doçura peculiar. Ali era o seu lugar, assim.
Desejava fazer confidências a alguém sobre isso, mas como explicar àquela mulher o inexplicável.
– Posso voltar à tarde?
– Voltar à tarde? – Perguntou espantada a dona da casa. “- Será que aquela moça já não havia visto tudo? Um casarão velho e carcomido pelo tempo, sem qualquer beleza na construção” – pensou a mulher. Não tinha mesmo para quem mostrar. Era tão difícil aparecer alguém para alugar uma casa. A cidade era pequena e todos já tinham suas moradias. Deu de ombros.
– Esta bem? Se assim deseja…
Saiu da casa a passos rápidos, como se fugisse à hipnose que o local exercia sobre ela. Deu um encontrão naquele homem de olhos verdes penetrantes, olhos bem mais sérios do que o sorriso cordial que lhe brotou no rosto. Desculpou-se e afastou-se com a locadora.
Sua mente se embaralhou e lembranças esparsas pareciam querer brotar em seu cérebro. Nada se definia.
Ao chegar ao hotel voltou à sua mente aquele olhar. Lembrou-se de um menino com quem brincava. Ele era um pouco mais velho que os demais, mas estava sempre entre eles.
Ela se recusava a acreditar que Mateus fosse aquele homem. Os olhos traziam a imagem do menino amado na infância. Deu-se ao tempo de rememorar aqueles momentos de folguedos. A infância ainda se mantinha intacta dentro dela. Era bom sentir-se criança outra vez. Seu mundo cor de rosa lhe ampliara os horizontes, mostrando castelos invisíveis, aventuras incansáveis
Seus olhos interiores a levaram a passear pelas lembranças. E como eles gostavam! Encantam-se com tudo. Para eles o mundo era assombroso. O banho de cachoeira no verão. Meninos correndo em fuga da fiscalização dos pais. Era uma turma de doze a caminho do toque da água fresca e cristalina a escorrer pelos corpos quase desnudos de todos eles. A sensação do vento na cara, espalhando os cabelos secados com gravetos batidos nos fios. Doce lembrança do barulho das folhas nos galhos das mangueiras. Seu nariz sentia ainda o cheiro do cedro-rosa. Os ouvidos continuavam a ouvir o som da viola e da harpa tocando a guarânia sentida e chorada. Aqueles olhos interiores lembravam das historias contadas pelo pai para adormecer os filhos. De olhar as estrelas, salpicando o céu do sertão. A lua redonda e soberana iluminando a mata. Os latidos de Lassie, a cachorra ganha no natal. A árvore natalina enfeitada com bolas coloridas e luzes pisca-pisca. Aquilo tudo estava ali ao seu alcance, bastava estender as mãos e pegar. Tudo parecia possível naquele momento mágico. Novamente sua criança interior suplantava qualquer dor.

A vida deferira-lhe grandes golpes , mas ela sobrevivera. Descobrira uma força interior que não sabia possuir.
Contratou um advogado que fez seu divórcio. Ela não teve notícias de Carlos, mas superara tudo tão bem que podia pensar nele sem sofrimento ou animosidade. Tornara-se óbvio que ele concordara em casar-se apenas por causa da gravidez e porque era ganancioso. Não vira mais utilidade para ela, quando descobrira que o aborto espontâneo ocorrera uma semana após a união deles. A herança desejada esfumava-se com a morte daquele pequeno ser. O casamento com separação total de bens somente o habilitaria tocar no dinheiro dela se pudesse ficar com o filho. Agora aquilo era um sonho impossível. Com o tempo Regina parou de culpa-lo, reconhecendo também que se casara por motivos egoístas, pois ficara grávida e tivera medo de enfrentar sozinha a criação de um filho. E Carlos nunca a enganara, nunca dissera que a amava. Haviam se casado por todas as razões erradas, e o casamento estivera fadado ao fracasso desde o início.
A viagem até a pequena cidade no interior de Mato Grosso do Sul traria a ela esperanças de uma vida mais simples. Deixara a empresa nas mãos de um Diretor Executivo de sua inteira confiança e partiu.

Ao retornar à tarde, já estava decidida. Compraria aquela casa tão cheia de memórias de sua infância. Talvez pudesse reencontrar Mateus e voltar a sonhar com uma vida emocional mais saudável.

Luar do meu sertão

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Retornar, após oito anos de ausência, transformou-se numa aventura muito intensa. O carro rodava na estrada sem curvas e deserta. Era uma motorista sem experiência a guiar na solidão da estrada. Mas nada podia assustar aquela mocinha que ia em busca de sua infância e de sua terra natal. A mãe cochilava ao lado. Os braços inexperientes começaram a formigar. Precisava parar para descansar.

Finalmente avistou um restaurante. Acordou a mãe. Desceram. Era a hora do almoço. Já ao sentarem à mesa perceberam a diferença dos costumes alimentares. Eram tantos os pratos de carnes quantos não havia os de verdura. Era o Estado das pastagens e do gado de corte.

Lá pelas duas horas da tarde seguiram viagem. Queriam chegar em Campo Grande à noitinha. O carro voltou a rodar na estrada vazia. O sono ia e vinha em razão do estômago saciado. Não havia como desistir. Era muita estrada para rodar. Vez ou outra cruzavam com alguém que vinha em direção oposta.

Chegaram em Campo Grande perto das oito horas da noite. Fora um dia inteiro na estrada. Estava exausta. Tomou um banho e dormiu doze horas seguidas. No dia seguinte acordou com o sol despontando e o coração estourando de alegria. Estava novamente na sua terra, mas a aventura apenas começara. Seguiram para a estação de trem. Subiram no vagão próprio, em busca da cabine. O trem começou com a sua a marcha. Lentamente foi deixando a estação. O barulho da Maria-fumaça seguia o seu ritmo contínuo, naquele estranho murmurar. Vez ou outra se ouvia o apito. Estavam próximos de alguma estação. Desciam muitos e subiam outros tantos.

À noitinha foram ao vagão restaurante. Era delicioso tomar aquela sopa no jogo gostoso e contínuo do trem. Assomaram à memória tantas lembranças. Velhas lembranças de criança. Um coreto. Uma banda. A quadra do cinema onde as moças mais velhas faziam o footing, o chamado passeio para namorar. Tudo era tão ingênuo e puro para aquelas bandas.

Ela deitou feliz no beliche de cima.

A mãe não conseguiu fechar a janela do trem e, a cada parada noturna, as luzes invadiam a cabine, mas o sono da menina de dezoito anos era tão tranqüilo que nem os olhos curiosos podiam despertar.

Finalmente a estação de Três Lagoas. A pequena cidade encravada no interior de Mato Grosso do Sul.

Desceram felizes como duas crianças. As primeiras imagens foram a praça e o coreto. Depois o grande relógio central e lá no fundo a catedral, única igreja católica da cidade.

De malas em punho dispensaram o táxi velho e desengonçado e subiram na charrete, toda pintada e reformada para o passeio com os turistas. Velhas memórias vieram-lhe à mente. Tantas e tantas viagens naquelas charretes em busca do Grupo Escolar Afonso Pena. Naquele tempo os cascos dos cavalos não batiam no asfalto, as patas animais afundavam na areia quente do calor escaldante daquela região do Brasil, seguindo num ritmo lento e calorento. Era sempre muito bom chegar à escola. A sombra das mangueiras à volta do velho prédio trazia o refresco agradável e tépido, amenizando o calor.

A charrete seguia, enquanto ouviam o tamborilar dos cascos dos cavalos até a casa de Tia Maria. Uma enorme casa cercada de mangueiras, com uma imensa varanda, onde as redes pareciam permanecer cotidianamente estendidas esperando o descanso do corpo que trazia a moleza do calor.

A alegria do reencontro foi imensa.

Não acreditávamos que viessem, dizia um.

Que bom que tiveram coragem para enfrentar a estrada, dizia outro. E a euforia era imensa.

Foi um reboliço a arrumação do quarto que não estava esperando as visitas. Atestava-se a incredulidade da viagem.

À noite as cadeiras foram sendo colocadas na calçada à frente da casa. Ela agora, como os adultos, também tinha uma cadeira para sentar.

Os vizinhos foram chegando e mais cadeiras foram sendo agregadas. A conversa era aquela de tantos anos atrás. Os filhos, a vida, a política do governo e o céu estrelado com a lua observando a cantilena de sempre. Mas como era bom conversar sob o céu estrelado do sertão da terra natal, mesmo que a prosa não tivesse mudado um tiquinho sequer. Nada era mais acolhedor do que sentir aquele cheiro de terra e ouvir aquele povo simples falar de coisas simples.

Lá pelas dez horas eles foram chegando. Violão debaixo dos braços, um velho acordeão e a música sertaneja e chorosa tomou conta de todos, enquanto a lua imensa e clara observava tudo do alto.

Mesmo que precisasse enfrentar novas doze horas de viagem sem parar e mais uma noite de trem, não desistiria de ouvir sua gente e ver aquele luar do seu sertão.

Lembranças infantis

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            Nunca mais me esqueci daquele 12 de junho de 1961. O trem começou a diminuir a marcha até chegar na estação. Descemos, minha tia, minha irmã e eu. O frio era intenso. Meu coração apertou no peito, quando observei minha mãe. Estava magra, rosto encovado e havia dor no seu olhar. Queria tanto ver o seu sorriso. A tristeza era uma máscara pregada em seu semblante. O sofrimento com a morte de papai fora intenso. Mais sofrimento, ainda, quando ela viera embora para a casa daquele tio que eu não conhecia, mas que tivera a nobreza de receber a irmã viúva e seus cinco filhos. Tio Artur nos olhou com carinho.

Aquilo me confortou.

            O rosto de mamãe continuava intacto. Nem um músculo se mexia. A não ser a dor ali estampada. Abraçou-nos apertado e chorou mansinho. Era a saudade sendo drenada.

Ela decidira mudar-se para o interior do Paraná, após papai morrer, aceitando o convite de Tio Artur. Viera com meus três irmãos menores e deixara minha irmã e eu na casa de uma tia. Tínhamos que terminar o semestre escolar, para só então viajar para o Paraná. Foram três meses de saudade e um sentimento de abandono, que doía no peito. Agora lá estava ela ao lado de meu tio e minha tia Lila. Era estranho deixar para trás toda uma forma de vida naquela fase da infância. Tínhamos, onze anos, incompletos, eu, e treze anos minha irmã mais velha. Os irmãos menores tinham, respectivamente, oito, cinco e três anos. Eram cinco filhos a serem criados e educados por minha mãe, que agora se sentia triste e abandonada. Olhei aquele rosto que expressava dor e solidão e percebi que não teria o apoio pelo qual ansiava tanto. Senti pena de minha mãe pela primeira vez em minha vida. Imaginei como seriam nossas vidas dali para frente.

            Chegamos na casa de meu tio, após uma hora de viagem.

Era um lugarejo muito bonito. As ruas eram todas calçadas de paralelepípedos. No jardim central da pequena avenida viam-se árvores frondosas. As casas tinham um estilo completamente diferente de tudo que eu já vira antes. Mais tarde aprendi que aquele era o estilo alemão de construir residências. Os jardins eram muito cuidados. As folhas das árvores pareciam não despencar, de tão limpo. O sol brilhava, apesar do frio. Um frio que eu não conhecia. Três Lagoas, no Mato Grosso do Sul, era quente. Um lugar onde não se conhecia inverno. O único inverno era a época das chuvas, que refrescavam o calor escaldante.

O lugarejo onde, dali em diante se desenrolaria nossas vidas se chamava Harmonia.

            O que destoava daquela beleza toda era o cheiro. Um cheiro desagradável no ar. Perguntei ao meu tio, timidamente, o porquê daquele cheiro e ele explicou que era o cheiro do dinheiro dos Klabin.

            – Cheiro do dinheiro dos Klabin?!

            Ele olhou para mim com um sorriso matreiro e explicou:

            – O cheiro que vem da fábrica. Aqui tem uma fábrica de papel e quando se cozinha a madeira, que é basicamente o pinheiro com o eucalipto, juntamente com outros componentes, forma-se a massa donde virá o papel e dela se desprende esse cheiro desagradável. Mas disso depende a vida de todas as pessoas que aqui residem. Enquanto houver esse cheiro é sinal de que estaremos todos sobrevivendo.

            – Mas por que dinheiro dos Klabin? – ainda não havia entendido aquela história. Ele falara, falara, mas não explicara nada.

Meu tio percebeu que com criança não basta falar, é necessário explicar.

            – Porque a fábrica é dos Klabin. Eles ganham muito dinheiro com a fabricação do papel. O nome é Indústrias Klabin de Papel e Celulose S.A.. Ela é a maior fábrica de papel e celulose da América Latina.

            – O que é celulose?

            – Ah… celulose é a massa da madeira cozida que irá se transformar em papel depois de passar por vários estágios de beneficiamento.

            Assim, aprendi minha primeira lição sobre como fazer papel.

            A vida seguia seu rumo e nós tentávamos nos adaptar àquela realidade tão diversa de nossas vidas com papai, no interior de Mato Grosso do Sul.

            Mamãe ainda continuava triste.

            Certo dia soube pela minha irmã mais velha que iríamos mudar novamente. Meu tio havia conseguido uma casa onde moraríamos apenas com mamãe. Novamente outra adaptação, agora menos traumática do que a primeira. Sonhei em ver o sorriso de minha mãe, porém nada parecia abalá-la. Havia uma certa apatia na sua maneira de ser. Não sorria, mas também não chorava mais.

            Depois de um ano naquela casa houve um alvoroço. Os adultos estavam muito nervosos. Nós não entendíamos muito o que estava ocorrendo. Minha mãe determinou que pegássemos algumas roupas. Voltaríamos para a casa de titio. Não conseguia entender tanta mudança, até chegar lá.

            Minha tia, muito carinhosa, nos levou para os quartos do sótão, da nova casa deles, dizendo:

            – Assim a fumaça não chegará com tanta facilidade e as crianças poderão dormir mais tranqüilas à noite.

            – Fumaça?! E o por quê da fumaça, afinal? – pensei, intrigada. Somente naquele momento percebi que o aparente mal tempo reinante naqueles dias se devia à fumaça. Por isso vínhamos sentindo tanta falta de ar.

            A resposta à minha pergunta, que ainda estalava em minha mente, veio em seguida.

            – Artur foi para a linha de fogo, Edith.

            – Mas isso não é perigoso, Lila?

            – Ele precisa estar junto aos homens, Edith. Somente assim eles conseguirão vencer esse incêndio horroroso.

            – Você acha que não vai chover?

            – Gostaria muito. Somente a chuva impediria que o fogo se alastrasse e queimasse toda a reserva florestal dos Klabin. Depois tem o perigo de que ele chegue até aqui. O Artur disse que o fogo parece ter vida. Ele corre lambendo e queimando tudo que encontra pela frente.

            – Eu sei disso, Lila. Lá no hospital tem muitos queimados precisando de remédios e soubemos que muitos colonos morreram queimados antes que a ajuda chegasse.

            – Estamos ilhados e sem comunicação. Não há como chegar ajuda com essa fumaça que cobre o céu e impede a aproximação de avião. Nas estradas, nem pensar. Não passa carro. O fogo corre queimando de todos os lados.

            Aqueles dias foram de agonia e tristeza. Os adultos iam para a escola local, onde os corpos dos queimados que chegavam eram colocados, porque o hospital não mais comportava tanta gente.

            Depois de duas semanas sem saber de meu tio, a notícia chegou. O fogo iria chegar em Harmonia. A fábrica seria queimada e poderia explodir, por causa das imensas caldeiras que cozinhavam a massa de celulose.

            Dias depois saí para comprar açúcar no mercado e deparei-me com aquele espetáculo. Aquilo me fascinava. Eram línguas de fogo enormes e pareciam ter vida, vinham andando e rugindo. Fiquei parada por alguns minutos olhando o espetáculo que, ao mesmo tempo belo, me aterrorizava.

            Voltei para casa correndo. Encontrei minha mãe e não conseguia explicar. A voz não saía. Eu apenas apontava para fora. Todos saíram. O fogo já havia avançado bastante para dentro da cidade, queimando casas e estalando. Ouviam-se gritos das pessoas que corriam alucinadas pelas ruas.

            Minha mãe e tia Lila resolveram nos juntar a todos e seguir para a fábrica. Era o conselho de tio Artur. Havia um lugar dentro da fábrica onde poderíamos nos esconder.

            Descemos a ladeira que levava à fábrica, com a minha tia guiando aquele carro. Havia uma fila de carros com pessoas amedrontadas, seguindo para a mesma direção.

            Fomos levados para dentro da chamada Pasta Mecânicos. Era um lugar construído com tijolos duplos e todos diziam que talvez ali pudéssemos ficar a salvo do fogo e do calor que ele produzia.

            Muitos rezavam. Alguns observavam o caminhar do fogo, que continuava a crepitar e a rugir, enquanto expelia um vento quente e uma fumaça que nos deixava quase sem respirar.

            De repente o fogo começou a se desviar para o vale do rio Tibagi. Algumas pessoas tentavam explicar que o vale do rio estava sugando o fogo. Outras diziam que a mão Divina havia evitado o pior.

            Quando finalmente o fogo apagou houve um silêncio geral. Todos se olhavam admirados. O choro convulso tomou conta. Depois, como loucos, ríamos e cantávamos. Estávamos vivos!

            A partir daquele dia começamos a ajudar pessoas a reconstruírem suas casas. Todos ajudavam, inclusive as crianças, àquelas pessoas que haviam perdido seus entes queridos. As pessoas passaram a ser mais amigas umas das outras. Minha mãe voltou a sorrir e nós voltamos a acreditar que ainda poderíamos ser felizes e titio Artur pareceu aos nossos olhos como a figura do herói. Ele tinha sido a força daqueles homens que enfrentaram a grande queimada.

No dia que ele voltou para casa estava cansado e queimado, com os cabelos chamuscados. Olhei aquela figura e tive orgulho de meu tio. Soube, com a certeza dos meus doze anos, que teríamos nele um amparo sempre.

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O rebuliço era imenso dentro do escritório. Havia adrenalina no ar. Mesmo após o estresse do ano todo, aquele dia parecia mais agitado. Alguns funcionários iriam sair de férias e, dentre eles, alguns advogados também.

A instituição aterrorizava a muitos advogados em relação aos prazos processuais. Não se permitia que assoberbassem os demais colegas com seus processos pendentes. Os prazos estavam vencendo e as férias forenses terminaria em meados de janeiro. Nem toda ansiedade e angústia vivida pelo ano inteiro poderia ser maior do que aquele vivenciado nos dias anteriores ao início das férias.

Márcia terminou finalmente a última petição e estava nas recomendações ao funcionário que faria a entrega dos autos na vara forense, quando percebeu a presença dele. Fernando entrou e a observou de longe. Ela sentiu o olhar queimá-la, mas não levantou os olhos. Não queria recomeçar todo aquele sofrimento dos dois últimos anos.

Aquela relação começara pela carência de Márcia.

Ela o sabia perfeitamente. Fernando era um homem charmoso e profundamente sensual. A sensualidade aparecia à flor da pele, e ela se envolvera completamente, esquecendo que ele era casado e tinha dois filhos.

A conversa havia sido a balela de sempre. Um homem mal casado, com uma mulher completamente desligada de suas necessidades físicas e emocionais e que não acompanhava a sua ambição em crescer social, financeira e intelectualmente. Neste momento quem sentia vergonha do próprio intelecto era Márcia. Ela não tivera um minuto sequer para desconfiar de que tudo aquilo não passava da lengalenga tantas e tantas vezes repetidas.

Juntou os papéis sobre a mesa. Havia terminado todo o suplício. Os processos pendentes haviam sido todos estudados e encaminhados. Levantou-se lentamente da cadeira e sabia que o suplício maior viria agora. Teria que se despedir de todos, inclusive dele. Não cabia na cabeça dela que os colegas sentissem pena de sua situação deplorável de “a outra”, posta de lado.

Decidiu que iniciaria por ele, assim poderia demonstrar todo o seu orgulho e coragem e… como dizem: é sempre mais interessante iniciar pelo pior.

Entregou os processos já prontos nas mãos dele. Além do mais era o chefe do setor e responsável pelo andamento dos serviços. Estendeu a mão para cumprimentá-lo, em despedida. Ele a puxou para si e deu-lhe um abraço forte. Ela pode sentir percorrer pelo corpo dele uma corrente elétrica, que imediatamente tomou o seu corpo. Quase fraquejou. Empertigou-se. Segurou uma lágrima teimosa, prestes a descer pela face. Deu-lhe um sorriso, que depois imaginou poderia ter sido mais um rito para careta, mas nada a importava. Queria apenas sair dali.

Passou em cada mesa. Abraçou os colegas, desejando para aqueles que também sairiam de férias um bom descanso e, aos demais, força para suportar a espera das próximas férias.

Dirigiu pela Marechal Deodoro e relembrou um tempo em que Curitiba ficava vazia naquela época do ano. Janeiro era um mês em que todos estariam na praia. A cidade havia crescido realmente, pensou. Finalmente estava na rua. Em casa pegou as malas já arrumadas e rumou direto ao aeroporto. Chegou na Região dos Lagos, perto de Búzios, as cinco da tarde. Pegou um táxi e após enfrentar alguns solavancos da estrada chegou naquela praia quase selvagem. Era ali o paraíso onde iria ficar por uns tempos. Tempo bastante, pensava, para esquecer Fernando.

Chegou no bangalô que havia alugado, soltou as malas no chão, retirou um short minúsculo e vestiu. Pegou uma cadeira de praia e seguiu para a areia. Sentou e se perdeu no tempo. O entardecer chegou como um espetáculo. O céu se pintou de todas as cores até chegar a um vermelho fogo, quando finalmente o sol se escondeu atrás do morro. Voltou para o bangalô, tomou um banho e deitou-se no sofá de almofadas fofas da pequena saleta. Pegou um livro e deliciou-se com o romance. Como era bom envolver-se com a ficção. Lá era o mundo do tudo certo, do tudo termina bem.

Acordou na manhã seguinte sentindo as costas. Havia dormido no sofá e o corpo sofrera o desconforto.

Iniciou sua rotina que viveria dali até o término de suas férias. Colocou um biquíni, juntou toda a parafernália que seria levada à praia: cadeira, guarda-sol, chapéu, livro, protetor solar e os colocou no carrinho. Seguiu seu caminho como uma garota que descobria uma novidade. Ficou sob o guarda-sol até perto das 11:30. Depois, como outras pessoas, foi para debaixo das árvores e lá ficou a ler seu livro. Observava a barraca de longe e ninguém mexia, ou mesmo chegava perto. Ficou feliz com essa constatação. Foi até o restaurante à beira mar e fez uma deliciosa refeição. Voltou para sua árvore. Espreguiçou-se na toalha. Quando acordou nem mesmo havia percebido o quanto dormira. A praia já estava quase vazia, até que somente restou sua cadeira sob seu guarda sol. Voltou a sentar sob o guarda-sol esperando, ansiosa, o espetáculo. Ele não demorou muito a acontecer. O céu se pintou de várias cores desde o amarelo, rosa, azul, lilás, até tingir-se totalmente de vermelho. Ela entregou-se ao êxtase até que o negro cobriu-o, por completo. Voltou para o bangalô. A alma ia leve. Apenas lá no fundo ainda persistia uma dor quase imperceptível.

Já vinte dias se passaram daquela rotina que lhe fazia tão bem. Havia se entregado completamente à beleza da natureza.

Voltou a sentar sob o guarda-sol. O céu começou a apresentar seu espetáculo do entardecer. Quando iniciou a colorir-se de vermelho, ela notou uma figura masculina recortada pelo lusco-fusco. Ele caminhava em sua direção. Parecia fazer parte de uma apresentação que a Natureza havia preparado para aquela tarde.

Quando ele chegou finalmente, ela o reconheceu. Mário era um ex-colega de faculdade que havia se casado na mesma época da formatura.

Foi esfuziante ao vê-la. Abraçou-a com carinho. Como era bom vê-lo! Percebeu que a paixonite da época da faculdade ainda lhe dava borboletas no estômago, mas logo em seguida retesou-se. Outro homem casado em sua vida… nunca!

Ele sentou-se feliz na areia ao lado dela e contou sobre o fim bastante dolorido de seu casamento por conveniência, como a fazer um “mea culpa”. Um ano já se passara que estava separado, mas não pretendia nova união tão cedo.

Ela sentiu-se tão envolvida com a história dele que lhe contou a dela.

Ele a olhou e ela percebeu que no fundo daqueles olhos havia certa alegria.

A rotina agora era a dois. Sentavam-se na areia e esperavam que a Natureza lhes proporcionasse a beleza diária.

Mas a Natureza não estava apenas preparando esse espetáculo a ambos. Certa manhã, quando ela saía do banho, ele entrou porta adentro. Olhou-a e encantou-se com o que viu e a natureza humana fez o resto.

Naquela tarde o entardecer perdeu dois espectadores assíduos, mas os últimos raios de sol foram espiar por entre as frestas, que o balanço da cortina proporcionava, os dois corpos nus, perdidos em si mesmos.

casa-rede-na-varanda

       Por volta das dez horas, já vestida e tendo tomado seu desjejum, encontrava-se no jardim podando suas rosas, quando ele chegou. Estava feliz como uma criança e, diversamente da rotina, acenou para a Sra. Lourdes, a vizinha da direita, que se divertia com o pequeno Rodrigo, refestelada em sua cadeira, ao sol da manhã. Ainda assombrada com tanta amabilidade a Sra. Lourdes acenou para ele entusiasmadamente.

       O trator que passava desde as primeiras horas da manhã, aplainando as ruas do bairro, cessou seu ruído. A manhã ensolarada ficou abençoadamente silenciosa. Hélio desceu da cabine do jipe e saltou para o chão, caminhando ereto e nobre em sua direção.

       – Não queria interromper você, querida, mas tenho uma novidade que a fará extremamente feliz – ele foi explicando.

       -Sim… – Esperando que a novidade fosse realmente excepcional. Todo ele esbanjava felicidade.

       -Tenho algo a lhe mostrar. Se me acompanhar terá uma surpresa agradável.

       -De jipe?

       -Sim. Importa-se?

       -Absolutamente. Quer ir já, ou toma um chá comigo?

       – Melhor irmos já. Depois tomamos o chá, se for o caso.

       Ela tirou as luvas e o avental. Entrou em casa para deixá-los. Voltou rápido. Ele já estava dentro do jipe a esperá-la.

       Viajaram pela Estrada do Papel até o Triângulo. Entraram para uma estrada secundária, de terra. De repente ela avistou uma colina com dois enormes pinheiros plantados. Lá embaixo uma mata fechada e, mais abaixo, uma cachoeira de águas cristalinas. Foi uma visão de beleza inenarrável. Ele sempre soubera o quanto ela gostava do campo, mas até aquele momento jamais falara em adquirir um pedaço de terra.

       – Um cliente não tem como pagar meus serviços advocatícios e me ofereceu esta gleba…

-Maravilhosa, Hélio. Você vai aceitar?

– Se você quiser?

– Se eu quiser? É claro que eu quero!

***

       Ela sorriu. Sempre gostava de ver Hélio no trabalho árduo da semeadura e a alegre determinação que ele esbanjava.

O que fora uma propriedade negligenciada, agora se tornava produtiva. Troca de cercas e mourões, pintura branca nas bases das árvores, a construção do pontilhão sobre o riacho que cortava a propriedade e ia encontrar-se com o rio que desaguava em cachoeira, arar a terra, plantar o arroz, o feijão, a horta.

Não se lembrava de um único dia de folga, desde o início da aquisição da chácara. Os finais de tarde eram passados na propriedade.

Depois que construíram a casa então, não mais deixaram de ficar até altas horas trabalhando, quando não resolviam pernoitar. Ele acendia o fogão de lenha e ela fazia a sopa. Na manhã seguinte com a brasa ainda acesa, era só colocar gravetos, alguns tufos de jornais e atiçar o fogo. O café saía quentinho e cheiroso para o desjejum da manhã.

       Dois anos depois, a chácara tinha uma alameda ladeada por ipês roxos e amarelos, o gramado da entrada aparado, o pessegueiro, a macieira, o parreiral dando seus frutos. Tinha sido arada e estava toda plantada. A colheita do arroz e do feijão era para breve. Hélio, no entanto, não estava satisfeito. Queria construir a casa sede no alto da colina, ao lado dos pinheiros e deixar aquela para o caseiro, agora contratado.

       Sonhava sentar-se na varanda e olhar o bosque todo limpo, com suas árvores circundadas por pedras brancas e a mesma pintura a meio-pau. Lá embaixo, antes da cachoeira, e às margens da bacia formada sobre as pedras, o jardim plantado por ela, onde já se viam, à volta dos xaxins, bem-me-queres, lírios da paz e flores silvestres. Era um arco-íris de plantas.

       Começou a comprar o material de construção e guardá-lo num depósito construído para esse fim.

       A casa foi erguida em seis meses. Um ano depois estava toda mobiliada e bela, encimando a colina dos dois pinheiros.

Naquela manhã ele chegou exultante. O irmão ia casar-se e eles seriam os padrinhos. Decidiram ir à capital comprar roupas para o evento. Marcaram a viagem para o dia seguinte.

       O dia continuou sua marcha e a manhã terminou, preenchida de pequenas e rotineiras tarefas. Após o almoço retirou a valise do armário e colocou as roupas necessárias para uma viagem rápida. À noite o sono não foi sossegado, havia uma excitação incomum.

       Finalmente amanheceu. Estava sentindo a cabeça meio zonza pela noite mal dormida. Teria tomado um chá e depois ido para a cama por mais algumas horas, não fosse o compromisso da viagem.

***

       A curva apareceu. Ele não conseguiu tangenciá-la e o carro saiu de traseira, caindo na depressão que vinha margeando a estrada. Sentiu-se sendo atirada fora do veículo, após muitas batidas na cabeça.

       Acordou tonta, procurando com o olhar o resultado daquilo.

       O corpo dele estava caído, emborcado no terreno. Havia um silêncio sepulcral, apenas quebrado pelo barulho do limpador de para-brisas, que ironicamente continuava a limpar o vidro da chuva fina que caía.

       Ergueu o corpo ainda dolorido e foi até ele. Hélio continuava lá sem se mexer. Tentou reanimá-lo, mas percebeu o inevitável.

       Foi levada ao hospital para curativos leves. Algumas escoriações nos joelhos e na testa.

       Voltou para casa. O vestíbulo estava cheio de pessoas. Foi até o quarto pegar um xale, no qual se enrolou, encolhendo-se no canto da sala. Estavam todos a esperá-la para seguirem com o féretro ao cemitério municipal. Seguiu sem entender, como num pesadelo sem fim.

       A chácara foi seu último refúgio, para fugir dos curiosos. Os dias seguiam monótonos, vazios. Andava pelos cômodos da casa recém-terminada. Parou diante do espelho antigo que herdara da mãe e observou sua silhueta magra e abatida. Ouviu a chegada do carro, ainda no quarto de vestir. Seguiu para a porta, sem ânimo.

       Ele falava sem parar, até que ela finalmente entendeu a intenção de seu interlocutor. Pretendia adquirir a chácara, já que soubera que ela estava sem condições de continuar o trabalho do marido e teria que vendê-la de qualquer forma.

       Ela o olhou, inexpressiva. Perguntou numa voz monocórdia quanto ele pretendia pagar. Ouviu o valor. Não teve condições de avaliar sua correção. Concordou com o preço. Ele saiu da casa, vitorioso.

       Aquela seria a última noite a ser passada na chácara. A propriedade seria entregue no dia seguinte ao Dr. Rosauro, e ela voltaria a viver em sua casa na cidade.

       Sentou-se na varanda e olhou nostálgica para o bosque, suas árvores pintadas de branco até o meio. Lá embaixo o riacho em seu murmurar contínuo, indo despejar suas águas na pequena cachoeira. Ainda estava sentada na varanda quando ouviu o relógio dar quatro badaladas na madrugada.

 A chuva começou a cair em pingos grossos, levantando o cheiro de terra. O tempo refrescou. Ela apertou a manta à volta do corpo e se encolheu na rede. Ouviu o pio de uma coruja, talvez se escondendo da chuva. Pendeu a cabeça e dormiu suavemente, embalada pelo som da natureza.

 

 

capa-para-um-livro

Ele chegou à cidade. Buscava atividade empresarial. Era enigmático, frio, racional. Não pretendia passar muito tempo ali.

Foi à empresa, não encontrou o proprietário. Devia ter ligado. Parece que não gostam de trabalhar por aqui _ pensou.

Seguiu para o hotel. Somente amanhã _ dissera a secretária. O senhor não ligou _ complementou profissional.

Sua estratégia da surpresa caíra por terra. Queria cobrar aquele título. Seu cliente o abonaria se o intento tivesse êxito.

Saiu amuado. Voltou para o hotel.

Sentiu falta de companhia. Ligou a TV. O som encheu o quarto.

A televisão continuava a passar o jornal. Já estava cansado daquele marasmo. Cidade provinciana ¾ resmungou. Como não encontrar um empresário em pleno horário comercial?

Precisava tomar ar. Procurar o que fazer. Se é que haveria o que fazer.

Saiu para a rua. Não agüentava o hotel.

Crepúsculo. Noitinha chegando lentamente. Naquela hora que nem é noite nem é dia. No lusco-fusco que invade, mudando o cenário, como numa troca de roupa. Curitiba começa a se vestir de negro, tal qual mulher sensual, que escolhe suas jóias e brilha. No brilho das estrelas surge, orgulhosa. Esconde no escuro o seio de tantos segredos e enche-se de burburinho do ir e vir de automóveis. São seus amantes, perdidos na noite.

Por sobre o tapete escuro do asfalto ele caminha, como em êxtase. Não imaginava aquela transformação. Lembrou-se do amigo. Acho Curitiba a cidade mais feminina do Brasil. Havia rido do comentário. De dia não percebera, nem lembrara daquilo, mas agora…

O ar se encheu de perfume. Perfume de todos os tipos. Das outras – mulheres também – a busca de um gozo. Um gozo de amor efêmero talvez, ou em busca da fantasia do amor eterno. Que importava? Importava que a noite chegara e com ela a volúpia da cidade em viver seus amores, nos cantos, nos bares.

Caminhou errante à busca de nada e de tudo.

Rodopiava a bela cidade, soprando seu hálito aqui e ali. Ora encantava com seu sorriso faceiro, ora desencantava com seu desprezo altivo. Era ela a dona. Quem decidia a quem queria amar, a quem queria entregar suas carícias, seus dengos.

Sentiu-se amado, aconchegado. Esqueceu o compromisso. Caminhou lento, inspirando o ar da noite. Sentindo o abraço da cidade.

Qual gata acariciava sua pele como se fosse ele seu dono. Sentiu a brisa e o perfume envolvê-lo, num encantamento.

Lembrou outras palavras daquele outro apaixonado. Seus visitantes caem de amores por sua altivez. Sua descendência de europeus, carregada de conservadorismo, a destaca. Caminha nobre por seus recantos antigos, levando seus enamorados ao delírio do passado.

Observou seus casarões, suas tradições expostos numa luz de palidez amarela e deixou-se embalar por histórias de cavaleiros andantes, capas e espadas.

Lufada de ar. Resolveu esfriar. O vento soprou o frio do escárnio, como a desprezar aquele que não sabia estender-lhe tapete e oferecer lareira, vinho e paixão.

Ele sentiu e se encolheu. Entrou no restaurante. Primeiro avançou, conquistando o espaço da sala. Sentou no bar. Ambiente aquecido, música suave. Odores de perfumes, tapete, lareira. Sentiu-se aquecido novamente. Passeou seu olhar pelo ambiente. Encontrou-a.

Ela o olhava insistentemente. Ouviu, como num sussurro: Sou eu.

Os olhos escuros o encararam sérios, depois suavizaram como a contar-lhe um segredo.

Sentiu sobre os seus os dedos longos e acetinados. Era uma sensação estranha, de espectador e ator.

A mulher continuava a olhá-lo. Loura, esguia, os olhos escuros perscrutadores e indecifráveis. O vestido negro delineando o corpo. O longo pescoço branco rodeado pelo colar de pérolas.

Sentiu-se engolido por uma golfada de ansiedade. Quis fugir dali. Ela sorriu e envolveu sua nuca, num gesto de posse. Ficou quieto e deixou-se beijar. O hálito quente e sensual invadiu sua boca. Sentiu seu cheiro. Cheiro conhecido, impregnado em sua memória. Lembrou sua saída do hotel. Perdeu-se nas sensações daquelas mãos e do desejo daquele corpo, encostado ao seu.

Para o hotel? Não, para o hotel não ¾ pensou. Levou-a para um motel. Comprou flores, bombons.

Quarto de motel. Ela subiu na cama e o olhava, com aquele olhar onde bailava um meio sorriso. O vestido escorreu-lhe pelo corpo nu. Ficou mesmerizado diante daquela beleza alva. Sua fantasia adquirira carne e osso.

Ele começou a tocá-la. Os dedos acariciavam aquele corpo de pele acetinada e curvas moldadas.

A volúpia tomou conta de ambos. Amaram-se. Ouviu-a arfar sobre ele, depois sentiu-na deslizar satisfeita e ir deitar ao seu lado. Minutos depois ela levantou e escorregou pela banheira, chamando-o com o olhar. A água quente acariciou seu corpo e ele sentiu-na colar nele.

Novamente o queria e o ardor voltou a tomar conta de ambos. Penetrou-a, como louco várias vezes, até cair extenuado. Deitaram lado a lado sem nada dizer. Ficaram assim pela noite adentro. Dormiu satisfeito e feliz com aquela deusa em seus braços.

Acordou ainda na madrugada e não mais a encontrou. Saiu do motel sem entender. Buscou-a pelas esquinas e cantos da cidade.

Curitiba flutuava. Às vezes diáfana por dentre suas neblinas, envolvendo-o em seus véus e abraçando-o em suas sedas escorregadias. Noutras brincava com sua angústia, molhando o rosto dele com leves e finas gotas de orvalho e parecia rir de sua dor.

Manhãzinha, o sol ainda não havia despontado. Ele continuava a caminhar errante, em busca da amada.

A cidade agora dormia tranquila, como a trazer no regaço o cheiro daquele que a encantara em seu caminho sensual, noite adentro.