Crônica do Ano Novo

Boas-Festas

Ano novo, vida nova, assim é, como todos falamos. O mundo fala pela televisão, pela internet, em suas redes sociais, o mundo todo fala na melhoria da vida, dos fatos. São nossos sonhos, nossas expectativas para um novo melhor momento que começa a nascer devagar, enquanto outro vai morrendo entre fogos, espumantes, festas e até muita bebedeira, porque não dizer.

As pessoas escolhem cores para entrar com o pé direito no novo ano nascente. Os pudores desaparecem, a criança vem à tona, a confiança num Ser Maior explode dentro de cada um , a seu jeito de ser e de entender a vida.

Inúmeros lotam praias, jogam flores para Iemanjá, a rainha do mar, mesmo sem nunca ter pisado num terreiro antes. Entram no mar passando por todo tipo de perigo, ondas altas, ondas baixas mas com correntes até traiçoeiras, o importante é levar o seu presente.  Mais muitos mais, assistem as belas queimas de fogos. É o ano novo que arrebenta as correntes e se destrava o velho ano e seus desprazeres de nossos pés, as dores se esvaem pelas pontas dos dedos. O espírito do ser humano canta com histeria e loucura coletiva as músicas natalinas desde novembro. É uma loucura boa, como quem tira a roupa velha colada no corpo e que trouxe tantas decepções e agora veste a roupa nova e branca, e sem qualquer mancha, do ano que vai escrever uma nova história.

Comemorar a virada do ano com a ideia de que, já em janeiro, a beleza da vida vai explodir em beleza, sonhos e canções de amor aquele ano novinho em folha. É o ano da vitória nos dias que se seguirão pela vida, jogando por terra todo problema que existiu no ano anterior, enterrando dores e cantando louvores ao Divino, na espera de uma vida nova, pois na verdade estamos virando uma página e ela está totalmente branca a espera de escrevermos novos fatos.

Que importa aqueles que dizem ser um ano exatamente igual ao anterior, importa sim, acreditar na felicidade no desvendar mágico e nas resoluções infindáveis e belas de um novo desabrochar, como desabrocha a rosa branca levada para Iemanjá.

É nessa mesma época que fazemos planos, resoluções e desejos para o novo ano, em que planejamos tudo. Não importa se a gente acaba muita das vezes esquecendo nossos planos anteriores. Agora é hora de novos planos, novas resoluções e no recôndito do coração acreditarmos piamente que conseguiremos construir um futuro melhor.

Não tem a menor importância se acabamos com mais um ano sem metas cumpridas. Jogamos fora aqueles planos tolos e fazemos outros mais brilhantes e azuis da cor do céu. criando mais um ciclo maravilhoso de alegria que nos impulsiona a mudar e sair dessa grande redoma que fez o ano velho impossível de realizar nossos mais caros desejos.

Claro que às vezes as melhores coisas da vida são aquelas que não planejamos ou que não desejamos, ou o que desejamos tanto, e acabamos conseguindo nos momentos que nem mesmo percebemos ou até mesmo quando pensamos em desistir, e a vida acaba de nos devolver. O importante é acreditar no melhor e festejar o entusiasmo novo para criar com alegria momentos de felicidade. Essa é a força motriz da verdadeira melhoria do ano que explode em festa.

DIGNIDADE MANCHADA

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Estou escrevendo um livro de suspense sobre a história de um homem íntegro que se viu às voltas com a Justiça de forma inarredável, apesar de sua inocência. Este  é o início do primeiro capítulo, já revisado, cortado e talvez ainda venha a sofrer mudanças, mas deixo aqui para que meus leitores opinem.

1º Capítulo

Era Auditor Fiscal da Receita Federal e funcionário público federal. Esta é uma história longa e recheada de altos e baixos, como de resto é a vida.

Tinha 32 anos quando aconteceu. Passado quatro anos do ato de posse, abriram um processo administrativo contra ele.

“Talvez seja por ter levantado com o pé esquerdo ou passado por uma semana ruim no trabalho” — pensou Henrique. Mas, aquela situação insólita desencadeou uma crise de desânimo, confundindo-o.

Quanto mais tentava entender o imbróglio em que estava metido mais o estresse desorganizava seus pensamentos. O medo de continuar analisando os processos esfriava suas mãos, o estômago revolto trazia ânsias quase ao descontrole.

O tempo não passava, enquanto o processo administrativo corria contra ele e muitos mais que foram culpados de improbidade administrativa.

No final isentaram-no de culpa. Seu ânimo tinha ido a zero. Precisava acreditar no futuro, afinal sempre fora um homem honesto, íntegro. Seu ânimo começou a se erguer quando se recordou de seu pai.

— Você será um grande homem, filho. Eu não pude estudar, mas dei a você todo o estudo que precisa para enfrentar o caminho da vida. Tenho certeza de que não vai me decepcionar nunca. Você é honesto, estudioso, respeitador. Tudo que um homem de bem deve ser.

Porém, um grupo de insatisfeitos dentro da Receita Federal não quis ficar quieto, havia muita inveja e vingança no ar. O brilhantismo dele o alçara a Chefe de Seção. Isso acirrara os ânimos. O processo administrativo foi enviado pelo Procurador-Chefe da Fazenda Nacional direto ao Ministério Público Federal. Dado início ao processo judicial na Justiça Federal levou 6 meses e a sentença foi proferida em primeiro grau, por uma jovem juíza federal, que substituiu o Juiz Faizal, titular em suas férias. Desconhecedora das filigranas do processo prolatou sentença condenando Henrique ao crime de evasão de divisas para uma conta numerada e em seu nome no exterior.

Henrique só entendeu o embrulho em que estava metido quando leu os jornais e assistiu a televisão sobre o assunto. O jornal dizia algo assim:

Esquema de corrupção e sonegação é descoberto em delegacia da Receita Federal

A PF e a própria Receita descobriram que alguns fiscais recebiam propina de empresários e em troca não cobravam deles todos os impostos devidos. Prejuízo aos cofres públicos é calculado em mais de R$ 3 bilhões.

Um golpe descoberto em uma delegacia da Receita Federal, provocou prejuízos aos cofres públicos estimados em mais de R$ 3 bilhões.

Dinheiro guardado assim coisa boa não é: no fundo da casa, em fundos falsos, dentro de caixas de leite e levados para fora do país, numa conta na Suíça. O equivalente a quase R$ 13 milhões, inclusive em moeda estrangeira que, segundo suspeita da Polícia Federal, o dinheiro vinha de propina. Uma fonte que serviu para compra de carrões e mansões. Patrimônio incompatível com o salário de fiscal da Receita Federal. Mesmo sem provas cabais de que Henrique era dono de algum desses bens, constava contra ele a tal conta numerada e com vários saques.

Aquilo o deixava tonto e cada vez mais buscava entender como alguém podia abrir uma conta no exterior sem o seu consentimento.

O banco suíço enviou os documentos e os peritos brasileiros afiançaram que a assinatura do contrato era de Henrique, apesar de ele negar peremptoriamente.

Em uma investigação que começou em janeiro, a Polícia Federal e a própria Receita descobriram que alguns fiscais recebiam propina de empresários e em troca não cobravam deles todos os impostos que deviam. Algumas pessoas físicas também entraram no esquema para sonegar.

E mais um blá,blá,blá…”

Ele não quis mais ler. Já havia entendido onde o haviam colocado – no bolo dos desonestos – aquilo apenas o desalentava diante de tanto disparate. Tinha um advogado com grande cabedal de conhecimentos na área administrativa criminal e ele tentava fazer aquele homem entender a sua descrença.

 — Bastante difícil de acreditar que você desconhecia todos esses fatos dentro do setor que comandava. Sou seu advogado, mas sinto dizer-lhe que preciso da verdade. Essa ingenuidade não tem pé nem cabeça. Um homem que passa num concurso público, é alçado ao cargo de chefia do setor onde propinas eram o corrente, não há como lhe dar crédito se não ouvir a sua verdade dos fatos. – Mas, Henrique continuava negando, apesar de lembrar vagamente de uma conversa tida com o candidato ao Senado federal para as eleições daquele ano. Porém, nem mesmo aquilo o fazia cúmplice da bandidagem que havia se formado na Receita.

Depois daquela conversa ácida com seu advogado ele não mais o viu. As novidades seguintes lhe foram dadas pelos advogados dos demais quadrilheiros. Nem toda explicação sobre o assunto o convencia de sua participação. Somente se fora drogado para assinar um documento jamais visto. Ele não podia entender, pois nada havia feito daquilo que lhe imputavam.

O processo caminhava regular, enquanto o titular da Vara Federal estava em exercício. Nas férias do titular a jovem juíza foi procurada por um dos Procuradores da Fazenda Nacional e decidiu pela condenação. Não se provou fraude ou recebimento de propina, mas sabidamente a manipulação e evasão de divisas. A sentença dizia que ele mantinha uma conta no exterior em seu nome, de onde foram feitos saques de milhões de dólares.

O advogado contratado tinha fama nacional na área do Direito Administrativo e Criminalista, pagou regiamente seus honorários adiantado, mas foi o estagiário do escritório a defendê-lo. Ele deduziu que o advogado não deu crédito a nada que ouvira dele e deixou o processo a cargo de um jovem e brilhante advogado, sem qualquer experiência prática na área. Recém-formado na faculdade de Direito. Entrou com todos os recursos, seguindo seus cursos, e não houve procedimento, mecanismo, estatuto cautelar, tecnicidade, brecha ou pai-nosso que restasse em seu arsenal de medidas e procedimentos a obstar o prosseguimento do processo e ao final inocentá-lo.

— Não tenho mais nada a fazer, Sr. Henrique Vaz. Como conheço nossa lei brasileira, posso fazer o que alguns colegas fazem e entupir os tribunais com pilhas de petições e mandados de segurança inúteis e tantas outras papeladas imprestáveis, mas nada ajudaria nossa causa. A realidade é que não entendo como após tantas considerações, provas, os juízes e ministros se fazem surdos ao óbvio. Vários outros peritos que contratamos foram unânimes em dizer que sua assinatura naquele documento era de uma falsidade kafkiana.

O rapaz não devia estar carregando nos ombros aquela responsabilidade, pois apesar de haver sido pago, o professor deixou o caso nas mãos dele.

Os problemas disciplinares com a Estatal foram relatados no jornal corrente da cidade. Foi despojado de sua dignidade, sua honradez. A linguagem jornalística estava certa — uma condenação por cometer crime equivalente à cassação do cargo público por improbidade administrativa e evasão de divisas.

Ora, se improbidade administrativa é o designativo técnico para conceituar corrupção administrativa, ou seja, o contrário à honestidade, à boa-fé, à honradez, à correção de atitude, ele não havia cometido qualquer ato que o colocasse naquela situação. Mas, o processo dizia que o ato de improbidade cometido por ele era uma omissão praticada no exercício da função, possibilitando seus comparsas a enviarem divisas para um banco na Suíça e ainda a sua adesão e ganância no mesmo passo.

O enquadraram em violação ao princípio da Administração. Seu enquadramento foi feito baseado na Lei 8.429/92, também conhecida como Lei do “colarinho branco”. Havendo a evasão de divisas, além de responder civilmente, perder o cargo e ficar com uma dívida impagável, também foi processado na área criminal.

Antes do ocorrido, sendo e Chefe da Fiscalização da Estatal recebeu uma proposta de um candidato ao Senado Federal, um amigo pessoal, Hudson Carvalho de Morais, que frequentava sua casa. Ele solicitou:

— Henrique você pode resolver esse caso para mim. Você sabe que eu ganho o pleito se meu adversário for preso. Depois, ele é culpado e seus colegas estão levando grana alta nessa história. Encontre tudo contra aqueles que estão se locupletando do erário público. Como Senador eu poderei remanejar você para um cargo de alto escalão no Senado.

Mas, a consciência do homem probo não acreditou na conversa do amigo. “Afinal trabalho num órgão de pessoas idôneas, são funcionários públicos e precisam zelar pelo seu nome”. Tudo o impediu de dar guarida ao pedido. Do outro lado estava o dono de uma empresa fiscalizada pela Estatal que precisava ser fechada. Como Auditor Fiscal Chefe do setor na Receita Federal do Brasil tinha em mãos a decisão de proferir parecer no processo administrativo-fiscal; examinando a contabilidade daquela sociedade empresarial e em seguida encaminhar sua conclusão ao Procurador-Geral que normalmente cumpria o hábito de enviar ao Ministério Público Federal, solicitando o fechamento da empresa com averiguação de irregularidade fiscal. Este era o caso. Se ele o fizesse antes das eleições, prestes a acontecer, estaria colaborando com o amigo e aceitando tacitamente uma proposta indesejável para seus princípios morais. O cargo de Senador cairia no colo de Hudson Carvalho de Morais com facilidade e não de Ricardo Tomaz Aquino.

Henrique entrou em contato com seu superior hierárquico, via telefone e solicitou orientação. Deveria ele enviar o processo com um despacho para o fechamento da empresa, antes das eleições? No outro do lado do telefone o tom foi peremptório e quase estridente. — Não! Era preciso esperar o deslinde da questão, afinal faltavam apenas dez dias para o pleito eleitoral.

Ingenuamente fez questão de que todos soubessem que não ajudaria Hudson Carvalho de Morais. Ficaria neutro na questão e só encaminharia o processo com o pedido de fechamento da fiscalizada, assim que passassem as eleições.

Em seu pequeno mundo Henrique Vaz era conhecido como uma pessoa determinada, trabalhadora e sem ambições mirabolantes. Em todas as áreas em que operou dentro da Estatal antes de prestar o concurso para Auditor Fiscal era o auxiliar dos companheiros, ouvindo seus problemas, tentando solucionar com diplomacia qualquer empecilho familiar ou financeiro, sempre com suas planilhas contábeis, demonstrando a possibilidade de o colega sair do vermelho sem precisar se endividar mais. Nem isso fez com que o grupo de invejosos parassem.

A importância da leitura em nossa vida

silvia biobrafia

Ler para compreender.

Vivemos na era em que para nos inserir no mundo profissional devemos portar de boa formação e informação. Nada melhor para obtê-las do que sendo leitor assíduo, quem pratica a leitura está fazendo o mesmo com a consciência, o raciocínio e a visão crítica.

A leitura tem a capacidade de influenciar nosso modo de agir, pensar e falar.

Com a sua prática frequente, tudo isso é expresso de forma clara e objetiva.

Pessoas que não possuem esse hábito ficam presas a gestos e formas rudimentares de comunicação, deixam-se ludibriar com facilidade.

Isso tudo é comprovado por meio de pesquisas as quais revelam que, na maioria dos casos, pessoas com ativa participação no mundo das palavras possuem um bom acervo léxico e, por isso, entram mais fácil no mercado de trabalho ocupando cargos de diretoria, além de exercitar sua mente para ver o que parece obscuro.

Porém, conter um bom vocabulário não se torna o único meio de “vencer na vida”. É preciso ler e compreender para poder opinar, criticar e modificar situações.

Diante de tudo isso, sabe-se que o mundo da leitura pode transformar,  enriquecer cultural e socialmente o ser humano e, consequentemente uma nação. Não podemos compreender e sermos compreendidos sem sabermos utilizar a comunicação de forma correta e, portanto, torna-se indispensável a intimidade com a leitura. A leitura abre horizontes na mente insone dos não leitores.

Ler para compreender.

Para Monteiro Lobato um país se faz de homens e livros, para os governantes diferente não poderia ser. O papel da leitura na formação de um indivíduo é de notória importância. Basta-nos observar a relevância da escrita até mesmo na marcação histórica do homem, que destaca, por tal motivo, a pré-história.

Em uma esfera mais prática, pode-se perceber que nenhum grande pensador fez-se uma exceção e não deixou seu legado através da escrita, dos seus livros, das anotações. Exemplos não são escassos: de Aristóteles a Nietzsche, de Newton a Ohm, sejam pergaminhos fossilizados ou produções da imprensa de Gutemberg, muito devemos a esses escritos. Desta forma, iniciarmos o nosso processo de transformação adquirindo tamanha produção intelectual que nos é disponibilizada.

A aquisição de idéias pelo ser humano apresenta um grande efeito colateral: a reflexão. A leitura é capaz de nos oferecer o poder de questionar, sendo a mesma frequente em nossas vidas. Outrossim, é impossível que a nossa visão do mundo ao redor não se modifique com essa capacidade adquirida.

Embora a questão e a dúvida sejam de extrema importância a um ser pensante, precisam ter um curto prazo de validade. A necessidade de resposta nos é intrínseca e gera novas idéias, fechando, assim, um círculo vicioso, o qual nos integra e nunca terminamos de transformar e sermos transformados.

A leitura é a base para o desenvolvimento e a integração na sociedade e na vida, porquanto viver não é apenas respirar. Se Descartes estiver certo, é preciso pensar. Pensando, poderemos mudar o quadro negro do país e construir o Brasil de Monteiro Lobato. Um país de homens com idéias excepcionais o bastante para consertar o desconserto que vem a passos largos retirando riquezas de nosso país. O Brasil bem administrado, por homens cultos e letrados será o país do agora, o país rico, posto que retira de seu campo de ação a desonestidade que vem açambarcando nossas riquezas desde tempos além. A inteligência desenvolvida pela leitura dará a população compreensão do quanto podemos estar perdendo riquezas. Quanto aos homens públicos saberão eles como dizimar tais escapes sob os olhos da ingenuidade que espraia a todos que não tiveram a disponibilidade de se capacitar através da leitura e abrir seus horizontes mentais para tais pilhagem em todas as áreas. Não necessitaremos de uma Lava Jato para descobrir o mínimo, mas de consciência e cidadania para enxergar o real e o máximo que o Brasil tem da desnecessidade de ter pobreza em seu território. Somente a leitura capacitará o brasileiro para fazer de seu país uma nação forte e destemida, usando o que seu solo disponibiliza e impedindo a pilhagem de terceiros sob olhos ingênuos da maioria ou desonestos de muitos .

É NATAL!

Falando de Natal!

Letras Encantadas!

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Passando pelas ruas já se nota pessoas impacientes esperando por uma vaga para estacionar o carro, lojas lotadas, brilhos espalhados por todos os lados nos enfeites. Algumas pessoas observam as vitrines, outras carregam vários presentes, fico imaginando quem vai ganhar tais presentes merece mesmo este sacrifício, ou não? Isso realmente é o verdadeiro espírito de natal? Não é o que espero. De repente fui despertada dos meus pensamentos com o som de uma buzina de carro, ficar procurando uma vaga para estacionar é uma má ideia, como eu queria uma vaga nesse momento.

Conforme os carros iam se movimentando lentamente pelas ruas, eu os seguia como num cortejo, com o carro quase parando, você fica a observar as outras pessoas nessa incessante procura. Lá na frente um menino que não tinha dez anos, sorria para todos, e indicava onde colocar seus carros nas vagas que surgiam. Enquanto uma nuvem escura…

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As areias mornas de Caiobá

sentada na sacada olhava o mar

            Natália olhava o mar de Caiobá. Sentada na sacada parecia ver a figura dele andando pela areia. Chegava a sorrir ao imaginá-lo acenando alegremente.

            Ligou para Carlos Eduardo. Precisava ouvir sua voz. Ele costumava escutar música clássica no final da tarde. O som entrou pelo telefone. Era Debussy. Carlos Eduardo apreciava Debussy.

            O marido dizia que “ninguém sonhara que Achille Claude Debussy chegaria algum dia a ser um grande artista. Aquele era um luxo impossível para a modesta pobreza dos Debussy”. Voltou a prestar atenção ao som da música. Tinha certeza que era Nuvens de os Três Noturnos. Conforme Carlos Eduardo, os Noturnos haviam representado um degrau na produção debussyniana. “A orquestração é mais atrevida do que em suas peças anteriores e o sistema harmônico alcança inovações insuspeitas diante do pleno aproveitamento das escalas orientais e gregas, que o mestre conseguiu tirar. Ele conseguiu juntar um mundo de sonhos por meio de sensações novas”. Carlos Eduardo simplesmente delirava ao ouvir Debussy e em especial os Três Noturnos.

            Prestou atenção a ele. Quando você pretende voltar? Ele falava da casa de praia no condomínio Atami, onde passavam as férias de verão. Continuou a conversa, discorrendo sobre a rotina, o trivial. O desejo de ouvi-lo passou. O encanto daqueles momentos diante do mar de Caiobá quase evaporou. Respondeu com secura. Só o faria no dia seguinte. Depois se arrependeu do tom, mas pareceu-lhe ele não ter notado.

            Voltou a ouvir o som do mar, naquele seu murmúrio contínuo. O sol se punha no horizonte. Ainda com as notas musicais no ouvido apreciou a beleza presente na Natureza.

            Foi num fim de tarde assim que ela se entregara a Murilo e ao seu amor. As areias mornas, pelo sol do dia inteiro, receberam os corpos dos dois.

            Olhou em derredor. A sala onde tantas vezes estiveram juntos parecia intacta. O sofá onde saciaram a sede da paixão que os envolvia parecia o mesmo. Ainda estava lá, como para testemunhar aquele amor. Mas o amor… O amor já não existia. Ou existia dentro dela?

            Seu amor por Murilo fora feito de tantos encontros e desencontros, tantas alegrias e uma profunda tristeza.

            O seu trabalho no escritório a fazia dedicar-se inteiramente a advocacia. Seu tempo pessoal era escasso. Viera de uma infância pobre, órfã de mãe e abandono de pai. Fora o arrimo familiar, desde tenros treze anos, juntamente com os dois irmãos mais velhos, dos quatro mais novos. Depois de formada seguira seu caminho. Saíra quase como uma fugitiva de sua pequena cidade no interior do estado de São Paulo. Seguira para Curitiba, a convite de alguns advogados, para fazer parte do escritório. Aquilo a entusiasmara. Era sua oportunidade. Salto ficara para trás e sua família também. Os irmãos a condenaram. Não aprovavam seu afastamento da família.

            Já fazia muito tempo que trabalhava no escritório quando conheceu Carlos Eduardo. Fora ela a advogada a acompanhá-lo na audiência de separação. Depois ele não mais a procurara, apesar de havê-la encantado com doces palavras.

            Murilo, também advogado do escritório, descobrira, de um momento para outro, seu interesse por ela.

            Naquele tempo, além de suas pinturas, tinha Murilo. Sua solidão parecia desvanecer-se diante da alegria quase infantil dele.

            Fê-la conhecer pai Joaquim, como o chamava. Aprendeu a amar aquele velho negro com o mesmo amor que Murilo lhe dedicava. Visitavam constantemente pai Joaquim, na pequenina casa caiada de branco no sopé da Serra da Graciosa. Ouvia, feliz, lendas sobre os Orixás. Outras vezes se deliciava com seu hobby e pintava o velho negro enrodilhando a fumaça de seu cachimbo, sentado à frente da pequena casinhola.

Pai Joaquim lhe falava de Oxum, seu orixá protetor. E pedia que ela seguisse o rio de Oxum porque lá estava seu destino.

            Ficou encantada com o ramalhete de flores encontrado sobre a mesa de sua sala no escritório e um cartão com palavras que a emocionaram.

            A partir daquele dia ele passou a presenteá-la com um ramo de flores silvestres todos os dias e enchê-la de mimos.

            Numa noite, após irem ao Teatro Guaíra e se enlevarem com a Orquestra Sinfônica interpretando Brams, Rachmaninov e Ravel, convidou-a para verem a lua na Serra do Mar. Apesar do susto inicial, seguiu Murilo na busca do romantismo do luar.

            A lua cheia e redonda iluminava o asfalto. Ele a convidou para apreciarem o espetáculo. Saíram do carro e foram plenamente iluminados. Ele a tocou de leve inicialmente, depois ela sentiu sua urgência. Entraram no carro e se amaram até a madrugada. Depois dormiram nos braços um do outro, extenuados pelo amor.

            O telefone tocou novamente e tirou-a de seus pensamentos. Pensou em não atender, mas sabia que era ele. O marido devia estar sentindo a sua falta. Atendeu amuada, porém não deixou transparecer na voz.

            Ele queria saber se estava tudo bem, se havia pagado o condomínio e se a porteira vinha mantendo o apartamento limpo?

            Respondeu a todas as perguntas práticas do marido e despediu-se dele. No dia seguinte estariam juntos, era melhor dormirem.

            Voltou às suas lembranças e de tantas vezes que se deitaram, Murilo e ela, nas mornas areias de Caiobá. Já agora a lua cheia estava empinada no céu. Preferiu tentar dormir, mas a mente estava revolta e cheia de fatos já passados.

            Fora praticamente um ano de amor até que, também em Caiobá, recebera a notícia que mudaria sua vida.

Eles se separaram no final do ano. Ela acostumada a uma vida mais pacata preferiu ficar em Caiobá e esperá-lo. Seriam alguns dias de separação, para que pudesse se refazer da vida social agitada. Sua solidão desaparecera, mas sua vida se agitara. Murilo fora a Nova York passar o Natal e Ano Novo, enquanto aproveitava para solucionar um caso difícil do escritório. Um acidente de avião na volta de Nova York. Murilo estava morto.

A notícia lhe caíra como uma bomba. A subida da Serra do Mar, o caixão fechado, os pais dele que ela não conhecia, os amigos do escritório, tudo parecia o desenrolar de um filme de terror.

A solidão voltou a ser sua companheira. Ninguém a procurava. Tirara férias para beber sua dor até o último gole.

Seu único lenitivo foi procurar pai Joaquim. Ele era o único elo verdadeiro entre ela e Murilo. As semanas foram passando e quando voltou de férias seu coração já estava mais leve da dor.

Nessa época Carlos Eduardo voltou a procurá-la. Insistiu com sua companhia. Mostrou-lhe um mundo de altas rodas sociais. Veio-lhe à memória uma das primeiras noites em que saíra com Carlos Eduardo.

A noite estava clara, apesar da lua crescente. Era agradável respirar o ar noturno de Curitiba. Naquele junho já se começava a sentir a caída da temperatura, mas a noite mostrava o céu negro salpicado de estrelas.

            Carlos Eduardo a observava do carro. Colocara um vestido preto curto com uma pequena pelerine em veludo, sobre os ombros, que lhe caíam muito bem. Trocara o Paris pelo J’Adore, da Cristian Dior. Não queria que o odor do perfume lhe trouxesse à lembrança a figura de Murilo.

            Ele a levou até o Challet Suisse, em Santa Felicidade.

            O restaurante era numa casa em estilo suíço, construída bem no alto do terreno, toda rodeada por jardins, extremamente bem cuidados. A iluminação indireta e amarelada sobre as plantas conferia-lhe um ar bucólico.

            Sua alma de artista encantou-se com a cena.

            Carlos Eduardo, percebendo o encantamento de Natália. Brincou:

            — Pena você ter esquecido a tela e os pincéis, não?

            — Não se preocupe, eu tenho ótima memória. — Completou Natália, já imaginando como ficaria bela aquela cena impressa numa tela.

Já no interior, eles penetraram no amplo e agradável ambiente, com o ar impregnado de cheiros e odores de pratos deliciosos, flores e perfumes. Grupos de pessoas elegantemente trajadas sentavam-se aqui e acolá. A conversa discreta daquela gente despertara em Natália a sensação de um mundo distante daquele vivido com Murilo.

 Olhou o ambiente e se sentiu feliz em companhia de Carlos Eduardo, porém aquilo não a entusiasmaria a casar-se com ele, no entanto a perspectiva maior e mais profunda ao seu ser era voltada para o fato de constituir uma família. Teria duas filhas adotivas do primeiro casamento dele e a possibilidade de ter filhos seus. Encantou-se com a idéia.

Conheceu Armand, o mordomo e amigo pessoal de Carlos Eduardo. Ocorreu a empatia. Percebia nas maneiras sutis e fleumáticas de Armand o carinho por ela e uma aprovação tácita de seu casamento com Carlos Eduardo.

Armand tornou-se seu anjo da guarda. Nas recepções era ele a organizar para que ela recebesse as honras.

Sentiu-se acolhida e amada.

O casamento aconteceu, mas a felicidade completou-se realmente com a vinda de Letícia.

Estava tão envolvida com o mundo de Carlos Eduardo e com o ambiente romântico criado por Armand a cada jantar dos dois na mansão que não percebeu até onde ia seu amor ou sua admiração pelo marido.

Entregou-se à família, a pedido de Carlos Eduardo, esquecendo a profissão e suas tintas. A monotonia tomou conta dela. A memória de Murilo cada vez mais voltava a assombrá-la. Até que o encontrou no Shopping Novo Batel, numa exposição de quadros.

Seu bom senso evaporou-se. Voltou a encontrar o caminho do velho apartamento de solteira e lá, em longas tardes de primavera, esteve novamente nos braços de seu velho amor.

Parecia ter abandonado sua vida.

Armand a observava, mas nada comentava, apenas sentia tristeza por sua solidão e alienação.

Ela fugira até de pai Joaquim, o velho negro que se tornara seu único parente de coração.

Quando finalmente voltou a procurar pai Joaquim e contou-lhe sobre a volta de Murilo ele a olhou demoradamente e simplesmente pediu que ela voltasse a seguir o rio de Oxum, que seguisse seu destino, lá ela encontraria a felicidade.

Procurou Murilo e despediu-se dele. Foi uma despedida mútua, porque Murilo também decidira pela separação.

Depois daqueles dias ele evaporou no ar, não mais o encontrou ou soube dele. Seu psicanalista afiançava que aquilo fora uma criação de sua cabeça. Nada acontecera entre eles. Murilo estava morto. Apenas sua mente o fazia viver.

Nada importava agora. Voltara para sua realidade, seu marido, suas filhas. Ali era seu mundo.

Deixaria o rio de a vida seguir seu rumo.

O tempo passou. A vida a envelheceu. Passou pelo sequestro de Carlos Eduardo, seu sofrimento e insegurança, o afastamento da empresa que ele tanto amava e o viu morrer, definhando lentamente. Bebeu o cálice de sua dor até o fim.

No casamento de Letícia sentiu falta do marido, mas entrando na biblioteca daquela casa que conhecia toda a sua história e guardava os momentos dos finais de noite, quando ambos conversavam sobre a vida e sobre a filhas, sentiu que se despedia de tudo. Uma sensação de dever cumprido.

Naquela tarde, entusiasmada com o lançamento de seus quadros não percebeu o perigo. A chuva fina caía incessante. Ela parou no sinaleiro e esqueceu-se de arrancar. As luzes piscavam: verde, amarelo, vermelho, verde, amarelo, vermelho…Quando se apercebeu da distração, lá estava ele lhe apontando a arma. Sua mente trabalhou incessantemente relembrando os momentos sofridos no sequestro de Carlos Eduardo. A dor, o relato repetido milhares de vezes e jamais esquecido. Resolveu acelerar o carro e fugir dali.

Ouviu um estampido. Um zumbido no ouvido. As mãos amoleceram, soltando o volante.

De repente ela o viu. A mão estendida e o sorriso largo e maroto nas faces. Era Murilo, convidando-a para segui-lo. Estendeu-lhe sua mão, feliz, e sentiu o corpo levitar suavemente. Olhou lá embaixo a cena que ficava.

Finalmente estava livre do rio de Oxum.

Epistolário

carta-de-amor

Na primavera de 2001 ele descobriu que o amor crescia em seu ser, como acontece aos amantes daquela estação. Nada parecia aplacar aquele sentimento, nem mesmo seus encontros furtivos com as esquálidas garotas da sociedade curitibana. Maria Eduarda soubera, com sua inteligência arguta, envolvê-lo totalmente.

Sob o fascínio daqueles longos cabelos negros e brilhantes, o intelecto sobressaía em faíscas de raciocínio rápido e culto. Os olhos o percebiam em suas mínimas reações e devolvia-lhe através dos lábios a sabedoria de sua pequenez. Exatamente. Sentia-se diminuto diante dela.

Seu sofrimento era maior ao perceber o completo absurdo de seus sentimentos. Em outras palavras, intuía quão tolo fora ao se deixar enredar por conceitos interessantes e inteligentes, se o coração não lhe respondia aos anseios. Mas ela realmente era um ser estranho dentro da sociedade em que perambulava.

Somente na solidão de seu quarto, tarde da noite, conseguia escrever. No papel tornava-se o cavalheiro talentoso, que imaginava ser o objeto dos sonhos dela. As respostas também partiam de sua mente e eram guardadas separadamente. No entanto, quando o dia amanhecia e a encontrava, a articulação das palavras, os gestos, tudo era desastroso.

Os dias passavam e suas cartas noturnas se amontoavam, sem encontrar eco na realidade diária.

Esta correspondência solitária durou meses, gerando refrigério à alma angustiada de Fernando. Como todo amante atormentado, Fernando tornara-se visionário e desfrutava silenciosamente de sua amada nos segredos engendrados naquele epistolário. Sua felicidade tornava-se desmedida e o deixava assombrado quando relia aquelas cartas.

Assim, um dia, reticente e impreciso, procurou um amigo. Precisava desabafar. Não se correspondia. Sofria apenas. Não mentiu, disse que mostrava seu segredo, porque era fruto de sua imaginação. Estava se tornando doentio.

Não percebeu que o amigo ao ler os escritos não acreditou. Invejou-lhe a sorte, pois tudo estava descrito com riqueza de detalhes e Maria Eduarda era o sonho de todos eles. Depois, Renato, o amigo, era tido como o escritor da turma e nada do que escrevia se comparava com o que agora lia. A beleza, agonia e magia daquelas páginas faziam dele um poeta, que se mortificava e se encantava com sua felicidade. Ninguém escrevia daquela forma sem ser verdadeiramente correspondido e nem razões para tão-só fantasias amorosas nos anos 2000.

Fernando permitiu que Renato copiasse algumas linhas das cartas, para tirar frases de efeito aos seus poemas, depois de tê-las lido com vagar. E não percebeu que Renato tentava captar sentimentos que imaginava serem de Maria Eduarda, para tirar temas às conversas do escritório, imaginando-se envolvê-la em suas próprias teias intelectuais. Não podia ouvir as conclusões de Renato: “O sortudo já teve o seu pedaço. Agora é minha vez de mostrar conhecer o temperamento e gostos de Maria Eduarda e fazê-la observar-me com mais atenção. Tenho certeza de que as cartas são verdadeiras e que por alguma razão indecifrável Fernando está escondendo a verdade através de tergiversações mentirosas. Preciso dar uma lição em Fernando e a única forma plausível é tomar-lhe o objeto de desejo – Maria Eduarda”.

Fernando chegou às portas da loucura e pensou em contar para Maria Eduarda o que se passava em seu íntimo. Lógico que não a deixaria jamais ter acesso ao seu epistolário, inclusive por suas discórdias internas. Aquela luta férrea que travava entre render-se à timidez ou continuar na tentativa de demonstrar mais inteligência na conversação atiçava o fogo impiedoso da culpa interna. Até mesmo sua profissão estava sendo atingida por aquele comportamento compulsivo.

O escritório fervilhava naquele horário e ele sentia apenas vontade de ir para casa e escrever continuadamente em busca de respostas para seu desalento. “Fernando”, disse Maria Eduarda, enquanto ele sofregamente se voltou, buscando um olhar de amorosa compreensão. Mas o olhar era duro e estava voltado para um problema a ser resolvido. “Aquele caso da partilha de bens já foi sanado? Vamos falar com a viúva, para que componha com seus enteados, ou deixaremos que eles procurem outro advogado fora do escritório?”. Fernando a olhou embevecido. “Pelo que percebo, continua com algum problema indefinido e os assuntos do escritório parecem não atingi-lo”. Gostaria imensamente de retorqui-la, explicar seus sentimentos, fazer um comentário inteligente sobre aquele caso, mas ela o subjugava e suas vontade e inteligência pareciam diluir diante daquele olhar.

Voltou para casa naquele dia e exorcizou seus demônios, escrevendo várias cartas cada vez mais apaixonadas, com respostas que o satisfaziam. Era a maneira que encontrava para manter a mente sã. Se é que havia algo de saudável naquele modo de viver. Até mesmo Renato se permitira fugir de suas obsessões e não mais lera qualquer coisa que lhe apresentava. Aliás, ele andava esquivo, desde que sua amizade com Maria Eduarda se estreitara.  Agora outra coisa vagava pela mente de Fernando. A possibilidade de Renato contar sobre as cartas a Maria Eduarda. Aquilo espremia seu cérebro como um torniquete. Fernando tentava aniquilar dentro de si aquele pavor que crescia a cada dia. “Era óbvio que Renato não havia falado nada. Ela o teria abordado sobre aquilo, com sua sagacidade habitual”.

Enfim, voltava-se com fúria  para suas cartas, em busca da paz e do amor inatingíveis. Adentrava às portas da fantasia fresca, silenciosa e afável. Lá ficava horas a fio, depurando sua  solidão.

***

Naquele inverno de 2002 chegou ao escritório enregelado, mas sua alma endureceu realmente quando percebeu a troca de sorrisos e olhares entre Renato e Maria Eduarda. O amigo sabia de seus sentimentos por ela, no entanto ali estavam. Rodopiou e voltou para casa.

Passou alguns dias errando pelas ruas da cidade sem saber aonde ir. Deixou celular em casa, tornou-se incomunicável.

Decidiu, finalmente, voltar para casa. A arma era uma atração irresistível. Pegou-a. Acariciou o metal gelado. Soltou sobre a mesa, foi até o armário, pegou o baú com seu epistolário e o abriu. Era como ter a presença dela ali. Lentamente pegou a arma, abriu a boca e atirou. Caiu no vácuo.

Quando voltou a si não entendia exatamente o que acontecia ao seu redor. Não reconhecia nenhum daqueles rostos, somente o dela. Maria Eduarda estava ali e o olhava demoradamente. As lágrimas caíam abundantes e ela acariciava lentamente o rosto dele.

Não se recordava do que havia acontecido, mas era muito bom tê-la ao lado dele.

Os dias corriam vagarosos. Ele foi aos poucos recordando e a cada vez que ela entrava, ele voltava a se encolher. Ela percebeu o gesto e começou a ler as cartas a ela dirigidas. “São lindas” falou, num sopro. “Só não precisava fazer aquilo”, complementou docemente. “Se não tinha coragem de me dizer, podia tê-las enviado”.

Fernando estendeu a mão num gesto de agradecimento e tentou pronunciar alguma coisa, mas não conseguiu. A voz agora realmente não saía. A morte o poupara, mas não à sua garganta. Optou por olhá-la apenas, num pedido mudo de perdão.

A Tempestade

Um-homem-sob-a-chuva

Lá fora o vento virou e o tempo esfriou, trazendo um céu cinzento e brumoso. Alexandre Nogueira Ramos revirava na cama. Culpou a indigestão pela sua insônia. Resolveu sair para a rua repleta de gente. Pessoas aparentemente indiferentes a sua passagem, mas ele tinha certeza que dentre elas estariam os homens que o perseguiam. A qualquer instante eles poderiam agarrá-lo, empurrando-o para uma viela e retirar dele todas as informações que não podia dar.

Aquilo se tornara uma constante. Cada vez que deitava sabia que iria acordar encharcado em suor, com o coração batendo descompassadamente e a respiração entrecortada. Era o terror de viver naquele suspense.

Sentou-se na cama, pegou o maço de cigarros automaticamente e acendeu um. Olhou o quarto demoradamente e a cabeça começou a latejar alucinada. Amassou o cigarro no cinzeiro e foi até o banheiro em busca de um comprimido.

Quando a dor cedeu avaliou a situação com clareza. Admitiu que havia sido inconsciente ao atender aquele pedido de Rodrigo. Qual era a importância de Rodrigo Steinbrock ser seu colega de escritório de advocacia, se não podia tirá-lo daquela situação escusa?

Recordava um tempo bom em que tudo parecia passar lenta e acalentadamente. Na época da primavera tudo havia sido diferente. Os problemas desapareciam e se era mais feliz. Nas manhãs primaveris peticionar era uma chama acesa a todo instante. Subia as venezianas e via o asfalto secar, sob o sol cálido, após as chuvas. Por que havia chegado o inverno? Frio e duro daquela forma? Uma tempestade fora e dentro dele?

Decidiu descer e comprar a edição matutina do jornal da cidade. A expressão de cansaço ainda estava estampada no rosto. Virou a esquina e entrou na banca de revistas. Olhou ao derredor e o medo diminuiu. A cidade dormia. Raros transeuntes passavam por ali e ninguém o observava como se fosse abordá-lo. Os pingos da chuva tamborilavam sobre seu guarda-chuva, a capa mal o resguardava do temporal. Apressou o passo.

Ele sabia o quanto tinha sido prudente e como as coisas haviam corrido mal, mesmo assim. Dedicara seu tempo ao seu trabalho e acreditava na ética que um colega deve ter com o outro, mas jamais imaginou que Rodrigo pudesse colocá-lo numa situação incerta e desonesta. Ainda bem que sua mulher havia entendido a situação, aceitado viajar para o interior do estado e ficar na companhia dos pais. Até aquele caso se resolver era o melhor a fazer. Ela havia chorado, sim, lembrava-se agora, mais por ele do que pelo dinheiro não entrando, após o afastamento do escritório de advocacia. Ele havia sido estúpido o suficiente para tomar aquela canoa furada, mas agora não era hora de lamúrias e sim de soluções. Tudo vinha como parte da luta contra a pobreza que ambos enfrentaram quando crianças. É um sentimento que nunca se vence. Carrega-se pela vida. Os dois não admitiam isso com clareza, antes do fato. Pensavam ser superiores às outras pessoas, porque haviam vencido aqueles tempos duros e transposto o portal da infelicidade financeira. Agora aqueles conceitos haviam se banalizado por completo. Era o momento de defender sua honradez.

Ao deixá-la na rodoviária, para a volta à pequena cidade interiorana, sentiu como se retornassem à parte mais triste de suas vidas. Era cedo ainda e caminhavam enroscados nas capas de chuva, inclusive, cada qual puxando os capuzes sobre os rostos, para não serem reconhecidos. Ela voltava para o ambiente pardacento da meia-água de madeira caiada, à beira do rio Tibagi, no município de Telêmaco Borba. Ele continuaria em Curitiba, porém não se sentia o vitorioso de antes. Era como se houvesse se afastado do centro do palco teatral e entrado novamente no picadeiro circense. Triste ser que sorri de sua própria desgraça.

Mal haviam ganhado uma bolada com aquela causa e Rodrigo os envolvera num caso de tráfico de drogas e lavagem de dinheiro. Não sabia que a empresa sob sua defesa era mera fachada para lavar dinheiro sujo. Como explicar para a polícia que um advogado tinha sido envolvido e não prestara atenção em detalhes tão claros daquela situação. Era sócio de Rodrigo, mas não se preocupara em acompanhar suas causas. Apenas aceitava a procuração e deixava o caso sob a responsabilidade do outro. A ambição o cegara. Fora incapaz no uso do intelecto preparado para o raciocínio jurídico. Era tudo tão óbvio, agora. Bastava uma leitura dos documentos arquivados no escritório. Preferira a ingenuidade como parceira. Agora ele questionava sua inteligência.

Precisava decidir que caminho tomar. Procurar a polícia e confessar sua total estreiteza de raciocínio, provando com os documentos que guardava naquela pasta, e correr o risco de ser desacreditado, ou enfrentar os miseráveis que o haviam envolvido num conluio com eles. A segunda hipótese era fatal. Faria dele tão ou mais pérfido do que aquela gente. A primeira hipótese era o risco de ser preso e desacreditado. Mas ainda assim talvez o único caminho a ser encetado.

Caminhou de volta ao apartamento. Foi abordado na porta do prédio. Imaginou ser um dos “clientes”. Tarde demais, percebeu que era policial.

– Doutor! Bom dia. Sou o policial Neto e gostaria de solicitar uma ajuda sua, num caso que estamos estudando há algum tempo. – Olhou o policial e decidiu escutar tudo.

Ficou sabendo que eles queriam sua ajuda naquele caso, apesar de ele também ser procurador dos denunciados. Precisavam de alguém que os auxiliassem em maiores conhecimentos sobre os fatos. Perguntaram-lhe se não preferia ferir a ética profissional a ferir a Justiça.

Suspirou aliviado. Era o caminho que lhe restava.