Paixão adolescente

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Apaixonei-me por George naquela primavera inesquecível, lavada de sol e cheia de sonhos. Tinha dezesseis anos, e ele vinte e dois.  Nunca havia me apaixonado antes, o que me tornara extremamente perceptiva. Objetos anteriormente desapercebidos tornavam-se belos; folhas e árvores, flores, tudo tinha brilho especial – era tudo pura magia da novidade, como se eu nunca tivesse conhecido nenhuma dessas coisas no dia a dia.

Tudo começou com nossas idas para o trabalho. O papa-filas parava e lá estava ele me aguardando com o lugar marcado. Depois vieram os piqueniques no Clube. Apenas ele e eu. As idas para o lago nadar, inúmeras partidas de vôlei de mesa, mas o melhor eram os momentos de tranquilidade, o conhecer casual um do outro. Deitar no gramado do Clube, sem se preocupar com olhos curiosos. Ficávamos horas olhando alguém lançar o anzol com um pedaço de minhoca enrolada, como isca tradicional. Ou andar pelo campo ao entardecer para apanhar os últimos resquícios de sol, após o trabalho diário.

No final tivemos nosso feriado, A Sra. Alzira, proprietária na pensão onde ele se hospedava organizou uma pequena festa. Tiramos os móveis da antiga salas de visitas, levamos vitrola e discos de Elvis Presley, Bob Dylan, Chico Buarque, Elis Regina, Erasmo Carlos, Fran Sinatra e tantos outros.  George não se deu por vencido ao saber que eu não sabia dançar. Passou a mão pela minha cintura e começou a ensinar-me os passos de cada tipo de música. Rodava comigo até o momento em que perdi o fôlego. Foi no final daquela noite que ele me beijou, mas não me senti feliz, pois ele teria que voltar para Curitiba, ao término de seu estágio como engenheiro na fábrica e seria na manhã seguinte, e eu nunca tive certeza se aquele beijo foi de afeto ou de despedida.

Logo depois de George partir eu vivi um mundo de fantasias, esperando receber cartas e telefonemas dele dizendo-me que não poderia viver sem mim. Mas tudo o que aconteceu foi ele começar a trabalhar em Curitiba, na firma do pai, e, depois disso, não mais voltara a Harmonia para a programada Páscoa. Se conseguia alguns dias livres, a Sra. Alzira contava que ele tinha ido esquiar, e eu imaginava garotas ricas e elegantes, e ficava doente de ciúme.

Certa vez roubei uma foto de George de um álbum que encontrei na biblioteca da Sra. Alzira. Soltar-se da página, portanto não fora propriamente um roubo. Coloquei-a no bolso e, depois, entre as páginas de meu diário. Sempre a mantive guardada, embora não tenha voltado mais a ver George. E desde que comecei a namorar para valer, aos dezoito anos, soube notícias dele.

E, agora, a Sra. Alzira mencionara seu nome, trazendo-me à memória o jovem George, com seus olhos azuis e a pele queimada de nossos passeios pelo clube.

— O que ele faz na América? — perguntei.

— Oh, ele trabalha em Nova York. O pai dele faleceu e ele agora se dedica exclusivamente a cuidar dos negócios e da fortuna da família.

—Ele deve estar casado e estar com filhos.

— Não, George nunca se casou e imagino que não o faça nunca. Esta casado com seus negócios.

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