A Certeza

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Prólogo


Histórias não se contam duas vezes, porque as pessoas que as contam estão sempre inventando, e as melhores histórias são aquelas cujo final é uma surpresa. Pelo menos, lembrava Thales Queiroz, era o que a sua mãe dizia quando ele era criança. Thales lembrava-se da maneira como sua mãe se sentava na beira da cama ao seu lado, com um sorriso na boca pequena e os dentes muito brancos quando ele implorava por uma história.

— Que tipo de história você quer? – perguntava sua mãe.

— A melhor de todas – respondia Thales.

Geralmente, a mãe dele ficava sentada por alguns minutos em silêncio, e seus olhos se perdiam no vazio, para logo a seguir voltar a sorrir com os olhos iluminados . Ela passava a mão nos cabelos de Thales e, com um tom suave, começava a contar alguma história que frequentemente deixava Thales acordado por um bom tempo, mesmo depois que sua mãe tivesse chegado tarde da faculdade onde dava aulas. Sempre havia aventura, perigos, emoção e jornadas que aconteciam num mundo imaginário e diferente da realidade. Eram lugares onde Thales Queiroz se via como o herói da história. Sua mãe não era muito apegada à realidade. Ela gostava de fantasiar e se concentrava em cenas com aventuras alucinadas pelos mundos além da Terra, fazendo com que Thales sonhasse viajar por muitos lugares diferentes, mesmo que fosse no mundo real.  Apesar do quanto as histórias podiam assustá-lo, ele sempre perguntava: “O que aconteceu depois?”.

Para Thales, aqueles dias pareciam ser os vestígios inocentes de outra era. Ele estava com 40 anos agora e, ao parar seu carro no estacionamento do hospital, onde sua mãe estava internada nos últimos dez dias, pensou novamente nas palavras que sempre predizia a mãe. “Algum dia teremos que nos separar para sempre”.

Ao descer do carro, apanhou as flores que trouxera. Na última vez que falara com a mãe, havia discutido muito, o que gerou seu afastamento por muito tempo e, acima de tudo, ele queria se desculpar e fazer as pazes. Ele sabia que a mãe o receberia com amor, como sempre o fazia, apesar do jeito explosivo dele. As flores melhorariam as coisas e a fariam chorar, mas não estava certo se a relação entre eles poderia ser consertada.  Não é necessário dizer que ele se sentia culpado pelo que havia acontecido. Os amigos de outrora voltaram a se encontrar com ele, garantiram-lhe que o pedido de desculpas era a pedra fundamental de qualquer relação cortada. Significava que havia uma consciência trabalhando, demonstravam bons valores impregnados nele, e o melhor a fazer era evitar quaisquer razões para relembrar a angústia vivida pela mãe com seu desaparecimento da vida dela.  Às vezes, seus amigos admitiam fraquezas em tratarem com suas mães, e Thales percebeu que o mesmo poderia ser dito sobre qualquer relação entre mãe e filho adulto que ele já conhecera. Supunha que seus amigos haviam dito aquilo para fazer com que se sentisse melhor, para lembrar-lhe de que ninguém é perfeito, de que ele não devia ser tão duro consigo mesmo. “Todos cometem erros”, diziam eles, e, embora ele concordasse, sabia que eles nunca entenderiam a situação pela qual estava passando. Eles não teriam condições de fazer isso. Afinal de contas, eles sempre conviveram com suas mães, mesmo depois de casados e levavam seus filhos para ver a avó; nenhum daqueles amigos havia se afastado por tanto tempo como ele, nenhum deles se perguntava se o seu relacionamento com a mãe algum dia voltaria a ser como antes.

Ao parar o carro no estacionamento, pensou nas duas filhas, principalmente na mais velha, que também havia sido abandonada, na esposa e no seu emprego atual. No momento, nada lhe reconfortava. Sentia como se estivesse fracassado em praticamente todas as áreas da sua vida. Ultimamente, a felicidade parecia tão distante e inalcançável para ele quanto uma das viagens a um planeta inventado pela mãe nas suas histórias da infância. Mas nem sempre se sentiu assim. Houve um longo tempo durante o qual se lembrava de ter sido muito feliz. Sua consciência não o culpava de nada. Mas as coisas mudam. As pessoas mudam. Ele mudara. A mudança é uma das leis inevitáveis da natureza, cobrando tributos sobre a vida das pessoas. Comete-se erros, arrependimentos surgem, a certeza desaparece e tudo o que havia sobrado eram repercussões que tornavam algo tão simples como o acordar pela manhã transformar-se num suplício.

Balançou a cabeça, espantando aqueles pensamentos. Ele se aproximou da porta do hospital, imaginando-se como a criança de outrora, ouvindo as histórias da mãe.  Depois a faculdade, os amigos, as vitórias na sua carreira. Sua própria vida havia sido a melhor de todas as histórias, pensava. O tipo de história que deveria ter acabado com um final feliz. Ao estender a mão para abrir a porta, sentiu a onda familiar de memórias e arrependimentos.

Somente mais tarde, depois de deixar as memórias tomarem conta de si mais uma vez, é que ele se permitiria imaginar o que aconteceria a seguir.

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