Doce Porto Murtinho

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         Ao abrir os olhos, Marília reconheceu a sensação do domingo de verão. A sensação de liberdade tomou–a por completo. Do andar térreo, veio o aroma agradável do café recém–passado. Marília pegou o celular ligou e apareceu no visor a hora. Oito horas.
Sabia não haver necessidade de levantar, ficou deitada um pouco mais, apreciando o sol transpassar os galhos da mangueira imensa. O céu além da janela mostrava um azul translúcido. A sensação de alegria a invadiu. Levantou da cama, lenta. Desceu as escadas. A lembrança da infância imperou.
– Isso são modos, menina? – era Cida a babá, que ela tanto amava.

    – Bom dia, Cida! – a menina beijou a empregada negra e gorda nas bochechas brilhantes, com um sorriso maroto pregado no rosto e nem prestou atenção à reprimenda.

      Cida se deixou envolver pela alegria daquela garota de cinco anos. Ela sempre sabia como encantar.

       – Não vá se sujar, como ontem. Brinque apenas no pátio. Não vá até a horta! – a voz saiu mais alta, porque a garota já estava correndo para os canteiros das cenouras.

     Foi até a horta, colheu uma cenoura, retirou a mangueira da torneira, lavou ali mesmo. Saiu feliz, roendo a cenoura. Somente após, voltou, sentou–se à mesa da cozinha, tomou seu leite com café e comeu o pão caseiro com manteiga, preparados pela Cida.

            – Minha mãe e meu pai já levantaram, Cida?

            – Ainda não, e vão dormir até mais tarde. Hoje é domingo, lembra?

– Claro, por isso levantei cedo, para aproveitar… Você não acha que o dia está lindo, Cida?

– Acho Marília, mas não fique tão perto do fogão, você pode se queimar.

– Não se preocupe, só quero conversar com você. Na verdade Carolina não conversa comigo, só tem tempo para as amigas dela. – Falou, amuada, com o comportamento da irmã, três anos mais velha.

– Tenha paciência com ela, Marília. Ela está na idade de ter amigas mais velhas.

            – Você sabia que elas só falam na língua do f?

            – Língua do f?

            Agora ela estava de novo diante do casarão e se lembrava daquela manhã com saudade. Viúva, sem filhos retornou a Porto Murtinho. O casarão fazia as recordações voltarem vívidas. Era o dia que voltou da faculdade.

            Enquanto caminhava em direção a casa, as lembranças assomaram. Voltava para as férias de verão, naquela época. A pequena cidade de Porto Murtinho a aguardava, na modorra de sempre. Os pais a esperavam na minúscula rodoviária. Tinha enfrentado alguns quilômetros de terra e buraco na estrada poeirenta. O corpo ainda dolorido dos solavancos. Desceu do ônibus e abraçou os pais com carinho. Sentia–se bem de estar em casa.

            Tomou um banho tépido. A água quase gelada para tirar o calor e o suor que grudavam a pele. Da porta percebeu o céu azulado daquela terra. Tão diferente da São Paulo barulhenta e muitas vezes chuvosa.

            A volta pela cidade era sagrada. Abraçou velhos amigos. Reviu os parentes.

            Entrava porta adentro. Ninguém trancava suas casas. Um lugarejo como aquele nem mesmo a ansiedade de um furto poderia quebrar a monotonia, porque a inexistência disso era real.

            Andou pela única avenida da cidade. Foi até a sorveteria, ponto de encontro dos amigos. Encontrou alguns, chegando para as férias. Ficaram pela longa tarde quente e pacata, sentados à mesa da lanchonete, jogando conversa fora. No dia seguinte passou pelo porto. Gostava de olhar aquelas mulheres, a maioria paraguaia, lavando roupa nas margens do rio, enquanto alguns homens dedilhavam harpas, nos pequenos bares à beira do Paraguai. Era uma imagem quase insólita, aquela.

            Imaginou como seria sua vida se o pai não tivesse deixado a magistratura para se radicar em Porto Murtinho.

            Houve aquele ano de 1955 em que o convidaram para seguir a Cuiabá. A promoção tão esperada pela mãe há muitos anos.

            Era o tempo, ainda, em que os dois estados eram um só. Havia apenas um Mato Grosso. A promoção do pai seria uma honraria, mas ele declinou o convite do Tribunal de Justiça. Largou a magistratura. Continuou em Porto Murtinho. Criara raízes. Comprara fazenda, gado e uma imensa e agradável casa.

            O casarão branco da esquina atraía todos ao cair da tarde. Tomavam tereré, – mate, com a água gelada, sorvido pela bombilha e passado de mão em mão. Enquanto conversavam, os amigos iam se achegando, as cadeiras aumentavam, paulatinamente. Perto das dez horas da noite chegavam as harpas e os cantadores. A guarânia saía chorada. Todos participavam e aplaudiam felizes até altas horas da madrugada. A descendência espanhola do pai assomava.

            O calor naquelas paragens, àquela época do ano, era intenso. Ficar até de madrugada ouvindo guarânia, para sentir o ar mais fresco da noite, fazia com que o povo só recomeçasse a vida perto das dez da manhã seguinte.

Aquele programa rotineiro nem sempre alegrava aos mais jovens. Preferiam a sorveteria.

            A monotonia se perpetuava até aquele dia.

         O navio iluminado e festivo atracou no porto. Era de pequeno calado, mas o bastante para navegar pelas águas do rio Paraguai.

O boato correu pela cidade, como um estopim. Havia atracado no porto um navio enorme! Havia problemas a serem consertados.

            Verdadeiramente não era um navio, mas um iate de grande porte.

         Ninguém soube explicar, nunca, porque eles chegaram até ali.

         Os passageiros desceram curiosos para conhecer aquele lugarejo perdido no centro–oeste brasileiro.

      Eram argentinos, paraguaios e alguns poucos chilenos. A comunicação inicial foi difícil, porém a convivência ajudou.

Pretendiam resolver como melhor recepcionar os visitantes.

       A abertura da temporada deu início na casa do Juiz de Direito – seu pai. Aliás, apesar de ter abandonado a carreira, continuou a ser chamado daquela forma. O título fazia parte da figura paterna. O povo ouvia sua opinião. Os jovens magistrados que assumiam a comarca também o respeitavam e ouviam com atenção suas opiniões. E a vida seguia tranquila naquelas bandas.

            A festa se iniciava com declamações de poesias. Passava à apresentação de cantores regionais, em seguida a orquestra começava seus acordes e os salões se enchiam de música. Todos dançavam. Os jovens viajantes procuravam seus pares entre a nossa turma.

            Foram trinta e um dias do mês de janeiro de uma temporada de verão inesquecível. Quando eles se despediram de Porto Murtinho foi como se tivessem levando os sonhos dos habitantes do lugar, deixando a saudade antecipada de belos e animados dias.

O assunto perdurou como notícia naquela cidade por vários anos.

 

 

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