A Terra é Azul – 2. Capítulo

  1. Yuri Gagarin

YURI-AGARIN

Ao se aperceber naquele ambiente fantástico, completamente fora de seu raciocínio científico, lembranças borbulhavam em seu cérebro, numa fugidia esperança de estar sonhando.

Quando era muito pequena formulava pequenos versos e os espalhava pela casa, onde o pai ou a mãe pudessem acha-los. Deram-lhe livros de Monteiro Lobato para ler. Gostou, porém não eram daquelas histórias que gostaria de falar. Olhava os céus e se imaginava voando pelas estrelas, onde encontrava mundos diferentes. Seres diferentes, com linguagens diferentes, mesmo não conseguindo captar-lhes o significado. Ficava feliz nesses espaços. Era como se fizesse parte do Universo.

Ao ler numa revista a viagem de Yuri Gagarin ao espaço, teve um acesso de choro, misturado com alegria. Parou sobre as frases pronunciadas por aquele homem: “A Terra é azul”. Lembrava-se nitidamente que foi naquele 12 de abril de 1961, que Yuri Gagarin tornou-se o primeiro homem no espaço a completar uma órbita terrestre e anunciado ao mundo a cor do Planeta.

Colou a reportagem em seu diário, com a figura de Yuri Gagarin: “O cosmonauta da ex-União Soviética, Yuri Gagarin, ficaria conhecido mundialmente como o primeiro homem a viajar no espaço.

A partir do Cosmódromo de Baikonur, no Casaquistão, a nave Vostok 1 decolou para o seu primeiro e único voo espacial e pouco depois da decolagem, a 327 quilômetros de altura, Yuri Gagarin, via rádio, revelava a todos os seres humanos a cor do Planeta: ”A Terra é azul!”.

Foi a exclamação do primeiro homem a ver o nosso planeta do espaço. Um pequeno voo de 108 minutos, o suficiente para que Gagarin se tornasse, aos 27 anos, herói nacional e, mais tarde (após a Guerra Fria), uma figura internacional. “Foi só uma órbita, mas foi o primeiro passo”, chegou a dizer, e tinha razão, porque a caminhada não mais parou e estava aberta a corrida ao espaço. Foram os 108 minutos que mudaram o Mundo.”

Passou a admirar aquele homem durante toda a vida. A mãe não entendeu a reação. Por que uma garota de dez anos chora por uma descoberta, apesar de importante para a humanidade, tão longe da realidade em que viviam?

A garota passou a viver em transe e procurava tudo que pudesse ser escrito sobre ele e sobre o espaço. Recortou reportagens, fez colagens, escreveu suas emoções e o que pensava sobre a descoberta para o mundo. Seu corpo tremia, como se já tivesse vivido uma experiência semelhante. Pensou em seus devaneios sobre outros mundos e já se imaginava viajando pelo espaço. Era isso que faria quando crescesse.

Apresentou certa vez um trabalho escolar sobre todas as viagens fora da Terra que os astronautas já tinham feito. Chegou até a falar com o professor de português que tinha certeza de que um dia encontraria um novo mundo e todos os humanos poderiam viver nele, em paz. O professor achou graça da capacidade de imaginação daquela adolescente.

— Você deveria ser escritora. Com essa imaginação tenho como certo que

alcançará sucesso. Exercite os ensinamentos sobre literatura que tivemos nestes últimos meses. Você tem o dom da escrita.

Ela olhou o professor Marenda e ficou agradecida pelos elogios. Cecília já o admirava, mas naquele momento ele conseguiu erguer sua autoestima. Sentia-se um tanto deslocada entre os colegas. Todos a chamavam de gordinha numa época em que Mary Quant criou a minissaia, um símbolo que iria acompanhar a juventude rebelde dos anos 60, da qual fazia parte. Era a data da tesourada que a estilista um dia deu no vestido da famosa manequim Twiggy, provocando um impacto tão grandioso, chocando os padrões da época e mudando completamente a visão e a conduta da juventude.

Nessa história ela ficou de fora. Enquanto Twiggy lançava a modelo magérrima e com os cabelos curtos e lisos, ela era gordinha e tinha os cabelos mais crespos do mundo.

Receber um elogio, mesmo que ao seu intelecto, diante de toda a classe, foi a glória para Cecília.

Porém, quando o professor começou a ler um poema, ela ficou aterrada. Seu rosto gorducho de maçãs vermelhas foram ficando roxas, pois percebeu que todos iriam saber que aquele era o “seu poema”.

Na verdade nele estava implícito sua paixonite por um novo engenheiro recém-chegado na cidade e a quem ela dedicara o poema. Ele tinha 26 e ela 14 anos.

Seu poema era uma declaração de amor!

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