OUTRO LIVRO RECOMEÇADO

capa-do-livro-A-Terra-e-azul

1. A gruta azul

 

Lentamente abriu os olhos, como saindo de um poço sem fim. Deparou-se com a beleza esplendorosa do planeta. A vegetação luxuriante emitia brilhos diversos, como a querer se comunicar com ela. Aquele local tinha mais vida do que já vira antes.

Parecia um exótico santuário, com possibilidades infindas de exploração. A emocionante impressão que a natureza lhe causava era muito maior do que seus mais inimagináveis sonhos. Fora uma idealização interna de um mundo em conservação, que buscara há décadas em seu imaginário. Havia um odor perfumado no ar, suavidade ao respirar, a floresta de um verde profundo e saudável.

Talvez estivesse sonhando realmente. Ou seria uma nova categoria de área protegida, oferecendo espécies selvagens que passavam por ela e não a atacavam. Mantinham seu espaço. Eram comunidades inteiras que saltitavam, outras caminhavam com a elegância angulada no andar, tal qual tigres em busca dos meios de subsistência digna, posto que seu cheiro humano não os atiçava . Parecia uma nação a caminho de uma nova era ecológica.

Um beco sem saída para sua mente perplexa. De repente uma mudança climática. Os bichos se assustaram e começaram a correr à procura de abrigo. Desabou um temporal. Era uma chuva límpida que adentrava a terra macia, agora sentida no apalpar.

O ecossistema era constituído de uma vegetação em formato de renda tramada sobre o solo, de onde brotavam árvores e arbustos cobertos de variadas espécimes de flores. Era tal a diversidade que não conseguia defini-la. O odor achocolatado da terra úmida subia, beneficiando-lhe os pulmões.

Andou alguns metros. Não sabia quanto havia percorrido. Avistou ao longe algumas terras florestais ilhadas entre lagos azulados. Um azul profundo, quase cobalto. No lado mais distante da sua participação erguiam-se montanhas majestosas, onde pássaros de beleza estranha sobrevoavam. Suas penas intensamente coloridas compactuavam com o cenário todo.

Em pouco tempo sentiu necessidade de pertencer àquela terra e viver na floresta. Consumida pelo desejo intenso, criava-lhe no íntimo um efeito cascata de amor pela paisagem e por todas aquelas espécies selvagens. Na verdade a população do local agora era semelhante a tigres, cães selvagens, leopardos, ursos, porcos selvagens, criaturas de todos os tipos. Seres de formatos singulares, moradores daquela floresta, que retornavam de seus esconderijos e corriam quais crianças, aproveitando o odor delicioso que pairava no ar, enquanto brincavam à beira dos lagos. Estranhamente não se agrediam. Era uma população pacífica. Imaginou que breve acordaria daquele sonho que a enviara a um plano onde tudo se transformara em beleza e cores na terra e no status da floresta.

De repente deparou-se com um ser vestido com uma longa túnica azulada, que emitia faíscas similares as da floresta. Seu aspecto facial era humano. Olhou-a com imensos olhos azuis. Dobrou a cabeça para a direita e para a esquerda, num movimento de expectação. Seus olhos encontraram os dela. Como hipnotizada ouviu aquele ser sussurrar, sem mexer os lábios:

Encontrou, afinal. Tua busca se deu, enfim. Muito mais conhecerás nesta tua terra.

Cecília ouviu aquelas palavras como se elas estivessem sendo pronunciadas dentro de seu cérebro.

Procura os outros e os encontrarás. Tua é a terra.

Ela tentou levantar-se, porque agora estava deitada sobre a relva rendada e macia, numa pequena clareira, de onde podia receber os mornos raios solares. Viu que o ser flutuava vagorosamente, por detrás dos arbustos, como se fosse esvanecer-se no ar.

Quem é você?! Gritou Cecília, a pleno pulmão, numa busca de entendimento que lhe escapava totalmente da realidade.

Como se saísse de um sono profundo as lembranças começaram a materializar-se. Estouravam-lhe bolhas no cérebro, com imagens diversas. Andava por diversos lugares, divagava de forma febril. Agora estava diante de uma gruta azulada, onde divisava alguns seres em canoas, outros nadando. Era uma imagem muito forte da gruta, porém não conseguia definir o tipo físico daqueles que por ali transitavam.

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