O poeta e a dor

castro-alves

A data é 14 de março de 1847. Nasce um poeta. Na fazenda Cabeceiras, a sete léguas de Curralinho, vem ao mundo Castro Alves, filho do Dr. Antônio José Alves e Dona Clélia Brasília da Silva Castro.

Tem a infância de um menino feliz. Vive seus tenros anos no sertão amado. Em 1854 parte para as plagas da capital baiana, iniciando sua vida estudantil. Quando aos dezesseis anos é enviado para o Recife para completar seus estudos e habilitar-se à matrícula na Academia de Direito, descobre a liberdade. A cidade ficou insípida para aquele poeta. Cai na irresponsabilidade que a liberdade somada a imaturidade conduz. Vem a reprovação no exame de geometria.

O ano de 1864 faz o adolescente matricular-se no Curso Jurídico.

A par de ser mau estudante, já lhe aparecem os pendores para a poesia.

Em anos seguintes haveria de escrever o poema “A Destruição de Jerusalém” e seguidamente “Pesadelo”, “Meu Segredo”, este inspirado em sua musa do momento, a atriz Eugênia Câmara. Outros viriam a seguir, “Cansaço”, “Noite de Amor”, “A Canção do Africano”, e outros mais. O poeta começa a desabrochar, inobstante ainda não o melhor de sua poesia.

Como dizia o adolescente Castro Alves: “A poesia é um sacerdócio, onde Deus é o belo e seu tributário o Poeta”.

Chega um dia fatal. O dia é 9 de novembro de 1864. A fumaça do cigarro enrodilhando no ar. O poeta sente uma dor fina no peito e o pressentimento lhe toma conta da alma. Bebe na sua dor a fonte maior da poesia. Cria por sobre sua dor individual o poema “Mocidade e Morte”.

Depois de suportar sua própria dor desperta o poeta para a dor do próximo e é no martírio dos negros escravos em “O Navio Negreiro”, seu canto poético maior. Em seguida, como ninguém, impinge os acentos da poesia ao exprimir a dor de todo um continente em “Vozes D’ África”.

Já não era mais o menino-poeta, mas o poeta maior que alçava vôo na terra brasilis.

Naquele ano de 1867, em meio ao Curso Jurídico, apaixonado pela portuguesa Eugênia Câmara, parte com ela para a Bahia, onde faz representar um drama em prosa que não lhe fazia jus, “Gonzaga” ou a “Revolução de Minas”.

Pretendia concluir o curso em São Paulo, para onde segue no ano seguinte. Passa pelo Rio de Janeiro assinalando os mesmos triunfos já vivenciados em Pernambuco.

Quando em São Paulo, em final do ano de 1868, fere o pé com um tiro acidental por ocasião de uma caçada. Resulta-lhe uma longa enfermidade, impelindo-o a submeter-se a inúmeras intervenções cirúrgicas e finalmente à amputação do pé. As forças já lhes esvaiam com a tuberculose pulmonar avançada que o faria regressar à província natal e sucumbir em 1871.

Em 1870, antes de voltar à terra natal, publica o livro “Espumas Flutuantes”, cantos definidos por ele como o estalar fatídico do látego da desgraça, refletindo o prisma fantástico da ventura ou do entusiasmo.

Profundamente melodramático na desgraça, mas gracioso e belo na ventura, assim, é Castro Alves. No seu entusiasmo de mocidade, apaixonado pelas causas da liberdade e da justiça, envolvido nas lutas da independência da Bahia, na insurreição dos negros de Palmares, deixa impresso em seus poemas toda a força e beleza de sua luta.

É um abolicionista ferrenho lutando pela causa do negro escravo. Mas este tema não fez parte de as “Espumas Flutuantes”. As composições de que trata o tema são o poema “Os Escravos”, arrematado pelo “A Cachoeira de Paulo Afonso”, obra publicada postumamente.

Castro Alves, o poeta dos poetas desta terra, atinge um lirismo supremo na sua obra “Adormecida”, depois pinta com cores admiráveis da verdadeira poesia “O Crepúsculo Sertanejo”. Mas foi cantando a dor de um povo com “Vozes D’ África” e “O Navio Negreiro” onde este poeta de escol mostra o melhor e o maior de sua poesia.

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