Chega dezembro

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Dezembro chegou manso, trazendo expectativas não expressas. O sol já se mostrava claro e forte, aquecendo os corações. Somente ela continuava na sua caminhada, arrastada por um sonho do qual não podia se desligar.

Novamente lá estava ela em sua busca constante. A cabeça atormentada por tantas lembranças. O choro contido no peito. Precisava continuar. Caminhava entre os pedestres apressados. Tantos pacotes nas mãos daquela gente. Rostos desconhecidos a observavam. A dor estampada no rosto.

Encostado numa escada, entre trapos malcheirosos, um ser estirado, dormia a sono solto. A Candelária badalou seis horas e ela percebeu pessoas subirem as escadas, sem se importarem com os trapos. Lá no fundo o espírito se confrangeu diante da indiferença.

Caminhou rápido até lá e levantou aquelas vestes. O rosto era de mais um desconhecido. A vista se turvou e as lágrimas desceram insistentes. O mendigo se remexeu e ela soltou a coberta suja. O corpo voltou ao seu ressonar contínuo. Já dois anos passados. Tantas esperanças acalentadas e desfeitas. Novas tentativas. Tudo dava em nada, aniquilando-lhe o ânimo.

Era onze da noite. O rumor dos carros aumentou. Muitos voltavam para casa. Alegria de encontrarem os seus para um novo ano. Se ao menos pudesse ter um pouco de esperança, naquele dia especial. A sensação de desalento subjugava seu ser. Caminhou enfeitiçada para outro corpo deitado na soleira da porta de uma loja. Fio de esperança. Ergueu os velhos panos sujos e os olhos de uma criança a miraram com curiosidade. Sorriu, abriu a bolsa, retirou um doce e o estendeu. Viu o sorriso agradecido. Novamente o coração confrangeu no peito.

Rodou sem rumo. Caminhava há uma hora, quando um garoto de uns dez anos veio-lhe de encontro e tentou tirar-lhe a bolsa. Defendia-se, arquejando de fadiga. De repente parou e o observou longamente. O cabelo desgrenhado, o rosto sujo. Era ele. “Rodrigo!”. O garoto olhou-a sem entender.

Envolveu-o com os braços e sentiu-lhe o corpo frágil, descarnado. Ele se deixou levar. A violência parou imediatamente. O perfume dela o envolvia e a mente parecia trazer lembranças que não se fixavam. Entrou no carro sem nada perguntar. Quando chegaram diante da casa, ele começou a chorar inconsolavelmente e voltou-se para ela abraçando-a: “Não me deixe mais, por favor,”. “Não, nunca mais, meu querido”, respondeu-lhe, lembrando aquele dia em que pediu a ele para esperá-la no carro, enquanto entrava numa loja para as compras de Natal. Na volta a surpresa de não encontrá-lo.

Dois anos de angústia e de culpa se passaram. Queixas na polícia. Espera dolorida, Tantas brigas com o marido. Todos a culpavam de seu desleixo. Aquilo se tornou um tormento contínuo. O medo avassalador de nunca mais encontrar o filho amado.

Casamento desfeito. Mas, a eterna busca pelas ruas da cidade. A esperança fora sua única companheira. As críticas dos pais tamborilavam em seu cérebro. Passou a viver para aquilo. Seu tempo livre era caminhar pela cidade até o anoitecer, tentando adivinhar o rosto de Rodrigo na multidão.

Um ano se passou. Lento e moroso. Os dias do ano seguinte recomeçaram e sua busca atormentada não tinha êxito. Tudo aquilo parecia uma névoa, agora. Abraçou-o. Era a madrugada do primeiro dia de muitos anos que viriam.

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