Luz e sombras

homem-belo

A fachada de tijolos era perfeitamente alinhada à beirada da rua. Atrás da porta, no vestíbulo, eram deixados o guarda-chuva e o chapéu panamá. A direita era o lugar onde sempre comiam. O salão era imenso. À esquerda ficavam dispostos os estofados, proibidos de serem usados pelas crianças. Logo ao lado da extensa mesa de jacarandá se erguia a escada que dava para os quartos. Era naquele corrimão que se escorregavam, quando crianças. Abaixo da escada estava o gabinete do pai, pequena peça de quatro metros quadrados com mesa, cadeira de espaldar alto, onde ele se sentava e à sua frente duas poltronas, para seus interlocutores. Ao lado as estantes iam até o teto. Os livros as abarrotavam, mas eram perfeitamente colocados e espanados todos os dias. O cheiro da comida penetrava através da porta, enquanto ele despachava com o advogado da cidade ou com o oficial de justiça. Sandra sentava-se no batente da porta e ficava perdida em seus pensamentos até que o pai a expulsava, naquela sua forma branda, corriqueiramente.
O jardim amplo, de comprimento igual à largura da casa, era fechado dos lados por muros. No centro a velha cisterna ainda permanecia. Lembrou do dia em que seu dedo foi espremido por aquela bomba. Agora o fato parecia hilário.
Teimara com a velha empregada do vizinho, que vinha constantemente pegar água naquele lugar. A mulher se irritara com sua teimosia e distraidamente bateu a bomba quando ela colocou o dedo. O pai avisado pela irmã mais velha saiu à caça da pobre mulher com vassoura em punho. Ele, o juiz de direito da cidade, um homem educado e polido, ficara completamente descontrolado ao ver o dedo da menina de quatro anos esmagado e sangrando. Posteriormente o médico costurou uma pequena ponta solta do dedo indicador e tudo ficou perfeito.
Seguindo seu caminho foi até o pátio cimentado, nos fundos do terreno. A goiabeira, beirando o muro, havia engrossado seu caule e crescera mais do que qualquer outra que já vira. Voltou-se para o outro lado do terreno e seguiu onde ficava a horta da família. Era ali que brincavam horas a fio.
Olhou com carinho aquele terreno e o quadro se fez em sua memória. Maria, sua irmã mais velha, era uma doce garota de olhos verdes e grandes. Costumava acreditar ingenuamente em todas as invencionices que ela, Sandra, trazia. Naquela manhã estavam brincando por entre as verduras e encontraram uma planta interessante. Os frutos eram pequeninos, vermelhos e cheirosos, parecendo tomates. Ela incitou Maria a prepará-los na cozinha usada para as brincadeiras das crianças. Não havia imaginado o desenlace da peraltice. Maria, uma garota franzina e alérgica, passara nos olhos as mãos que manusearam as pimentas vermelhas e agora mostrava o rosto e pescoço completamente enrubescidos e inchados. A conclusão fora uma surra de chinelo que sua mãe lhe aplicara, enquanto a babá atendia Maria, que choramingava. Subira para seu quarto e lá ficara quieta, sem chorar, maldizendo a todos, em pensamento, por terem plantado a tal pimenteira.
Girou nos calcanhares voltando para dentro de casa. Subiu as escadas. Sandra entrou nos quartos. O primeiro não estava mobiliado; mas o segundo, que era o quarto conjugal, tinha um leito e cortinas amarelas descoradas. Fechou os olhos e lembrou-se do quarto dos pais. A cama tinha a cabeceira em madeira entalhada. O lustre de cristal pendia sobre a cama, ladeada por tapetes persas. A penteadeira onde eram colocados os vidros de perfume ficava a esquerda da cama.
Novamente seu pensamento foi para aquele dia em que, apenas por traquinagem, resolveu puxar a toalha de crochê onde descansavam os frascos. Quando a mãe ouviu o barulho de vidros quebrados teve certeza de que era ela. Ao ver a mãe subir as escadas, passou correndo por ela, que não conseguiu segurá-la e escorregou pelo corrimão da escada, indo subir na goiabeira. O dia inteiro passou ali em cima. O odor do almoço fazia seu estômago apertar, mas a vista do chinelo na mão da mãe a fazia aconchegar-se no galho da árvore, velha amiga de guerra. Quando o dia escureceu, Cida, a babá, tirou-a de cima dos galhos meio sonolenta e a levou para cama. Somente no dia seguinte pode atestar que a raiva materna ainda não havia passado.
– Podemos ir? – Perguntou a locatária. – Ainda pretende olhar mais? Sabe, estamos no horário de almoço…
A voz da mulher a retirou de suas reminiscências. Teve vontade de dizer que não queria sair dali. Aquele lugar lhe dera os mais belos dias de sua infância. Para saborear a doçura daqueles tempos teria que viajar por países de nomes inexistentes, em carruagens, sob cortinas de sedas; escalar montanhas; ouvir o ruído de cascatas; respirar o odor da terra enquanto se aprecia o pôr do sol; olhar as estrelas salpicarem o negrume do céu. Tudo isso a um só tempo. Todos sonham com algum espaço na terra para produzir felicidade, com aquela doçura peculiar. Ali era o seu lugar, assim.
Desejava fazer confidências a alguém sobre isso, mas como explicar àquela mulher o inexplicável.
– Posso voltar à tarde?
– Voltar à tarde? – Perguntou espantada a dona da casa. “- Será que aquela moça já não havia visto tudo? Um casarão velho e carcomido pelo tempo, sem qualquer beleza na construção” – pensou a mulher. Não tinha mesmo para quem mostrar. Era tão difícil aparecer alguém para alugar uma casa. A cidade era pequena e todos já tinham suas moradias. Deu de ombros.
– Esta bem? Se assim deseja…
Saiu da casa a passos rápidos, como se fugisse à hipnose que o local exercia sobre ela. Deu um encontrão naquele homem de olhos verdes penetrantes, olhos bem mais sérios do que o sorriso cordial que lhe brotou no rosto. Desculpou-se e afastou-se com a locadora.
Sua mente se embaralhou e lembranças esparsas pareciam querer brotar em seu cérebro. Nada se definia.
Ao chegar ao hotel voltou à sua mente aquele olhar. Lembrou-se de um menino com quem brincava. Ele era um pouco mais velho que os demais, mas estava sempre entre eles.
Ela se recusava a acreditar que Mateus fosse aquele homem. Os olhos traziam a imagem do menino amado na infância. Deu-se ao tempo de rememorar aqueles momentos de folguedos. A infância ainda se mantinha intacta dentro dela. Era bom sentir-se criança outra vez. Seu mundo cor de rosa lhe ampliara os horizontes, mostrando castelos invisíveis, aventuras incansáveis
Seus olhos interiores a levaram a passear pelas lembranças. E como eles gostavam! Encantam-se com tudo. Para eles o mundo era assombroso. O banho de cachoeira no verão. Meninos correndo em fuga da fiscalização dos pais. Era uma turma de doze a caminho do toque da água fresca e cristalina a escorrer pelos corpos quase desnudos de todos eles. A sensação do vento na cara, espalhando os cabelos secados com gravetos batidos nos fios. Doce lembrança do barulho das folhas nos galhos das mangueiras. Seu nariz sentia ainda o cheiro do cedro-rosa. Os ouvidos continuavam a ouvir o som da viola e da harpa tocando a guarânia sentida e chorada. Aqueles olhos interiores lembravam das historias contadas pelo pai para adormecer os filhos. De olhar as estrelas, salpicando o céu do sertão. A lua redonda e soberana iluminando a mata. Os latidos de Lassie, a cachorra ganha no natal. A árvore natalina enfeitada com bolas coloridas e luzes pisca-pisca. Aquilo tudo estava ali ao seu alcance, bastava estender as mãos e pegar. Tudo parecia possível naquele momento mágico. Novamente sua criança interior suplantava qualquer dor.

A vida deferira-lhe grandes golpes , mas ela sobrevivera. Descobrira uma força interior que não sabia possuir.
Contratou um advogado que fez seu divórcio. Ela não teve notícias de Carlos, mas superara tudo tão bem que podia pensar nele sem sofrimento ou animosidade. Tornara-se óbvio que ele concordara em casar-se apenas por causa da gravidez e porque era ganancioso. Não vira mais utilidade para ela, quando descobrira que o aborto espontâneo ocorrera uma semana após a união deles. A herança desejada esfumava-se com a morte daquele pequeno ser. O casamento com separação total de bens somente o habilitaria tocar no dinheiro dela se pudesse ficar com o filho. Agora aquilo era um sonho impossível. Com o tempo Regina parou de culpa-lo, reconhecendo também que se casara por motivos egoístas, pois ficara grávida e tivera medo de enfrentar sozinha a criação de um filho. E Carlos nunca a enganara, nunca dissera que a amava. Haviam se casado por todas as razões erradas, e o casamento estivera fadado ao fracasso desde o início.
A viagem até a pequena cidade no interior de Mato Grosso do Sul traria a ela esperanças de uma vida mais simples. Deixara a empresa nas mãos de um Diretor Executivo de sua inteira confiança e partiu.

Ao retornar à tarde, já estava decidida. Compraria aquela casa tão cheia de memórias de sua infância. Talvez pudesse reencontrar Mateus e voltar a sonhar com uma vida emocional mais saudável.

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