Lembranças infantis

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            Nunca mais me esqueci daquele 12 de junho de 1961. O trem começou a diminuir a marcha até chegar na estação. Descemos, minha tia, minha irmã e eu. O frio era intenso. Meu coração apertou no peito, quando observei minha mãe. Estava magra, rosto encovado e havia dor no seu olhar. Queria tanto ver o seu sorriso. A tristeza era uma máscara pregada em seu semblante. O sofrimento com a morte de papai fora intenso. Mais sofrimento, ainda, quando ela viera embora para a casa daquele tio que eu não conhecia, mas que tivera a nobreza de receber a irmã viúva e seus cinco filhos. Tio Artur nos olhou com carinho.

Aquilo me confortou.

            O rosto de mamãe continuava intacto. Nem um músculo se mexia. A não ser a dor ali estampada. Abraçou-nos apertado e chorou mansinho. Era a saudade sendo drenada.

Ela decidira mudar-se para o interior do Paraná, após papai morrer, aceitando o convite de Tio Artur. Viera com meus três irmãos menores e deixara minha irmã e eu na casa de uma tia. Tínhamos que terminar o semestre escolar, para só então viajar para o Paraná. Foram três meses de saudade e um sentimento de abandono, que doía no peito. Agora lá estava ela ao lado de meu tio e minha tia Lila. Era estranho deixar para trás toda uma forma de vida naquela fase da infância. Tínhamos, onze anos, incompletos, eu, e treze anos minha irmã mais velha. Os irmãos menores tinham, respectivamente, oito, cinco e três anos. Eram cinco filhos a serem criados e educados por minha mãe, que agora se sentia triste e abandonada. Olhei aquele rosto que expressava dor e solidão e percebi que não teria o apoio pelo qual ansiava tanto. Senti pena de minha mãe pela primeira vez em minha vida. Imaginei como seriam nossas vidas dali para frente.

            Chegamos na casa de meu tio, após uma hora de viagem.

Era um lugarejo muito bonito. As ruas eram todas calçadas de paralelepípedos. No jardim central da pequena avenida viam-se árvores frondosas. As casas tinham um estilo completamente diferente de tudo que eu já vira antes. Mais tarde aprendi que aquele era o estilo alemão de construir residências. Os jardins eram muito cuidados. As folhas das árvores pareciam não despencar, de tão limpo. O sol brilhava, apesar do frio. Um frio que eu não conhecia. Três Lagoas, no Mato Grosso do Sul, era quente. Um lugar onde não se conhecia inverno. O único inverno era a época das chuvas, que refrescavam o calor escaldante.

O lugarejo onde, dali em diante se desenrolaria nossas vidas se chamava Harmonia.

            O que destoava daquela beleza toda era o cheiro. Um cheiro desagradável no ar. Perguntei ao meu tio, timidamente, o porquê daquele cheiro e ele explicou que era o cheiro do dinheiro dos Klabin.

            – Cheiro do dinheiro dos Klabin?!

            Ele olhou para mim com um sorriso matreiro e explicou:

            – O cheiro que vem da fábrica. Aqui tem uma fábrica de papel e quando se cozinha a madeira, que é basicamente o pinheiro com o eucalipto, juntamente com outros componentes, forma-se a massa donde virá o papel e dela se desprende esse cheiro desagradável. Mas disso depende a vida de todas as pessoas que aqui residem. Enquanto houver esse cheiro é sinal de que estaremos todos sobrevivendo.

            – Mas por que dinheiro dos Klabin? – ainda não havia entendido aquela história. Ele falara, falara, mas não explicara nada.

Meu tio percebeu que com criança não basta falar, é necessário explicar.

            – Porque a fábrica é dos Klabin. Eles ganham muito dinheiro com a fabricação do papel. O nome é Indústrias Klabin de Papel e Celulose S.A.. Ela é a maior fábrica de papel e celulose da América Latina.

            – O que é celulose?

            – Ah… celulose é a massa da madeira cozida que irá se transformar em papel depois de passar por vários estágios de beneficiamento.

            Assim, aprendi minha primeira lição sobre como fazer papel.

            A vida seguia seu rumo e nós tentávamos nos adaptar àquela realidade tão diversa de nossas vidas com papai, no interior de Mato Grosso do Sul.

            Mamãe ainda continuava triste.

            Certo dia soube pela minha irmã mais velha que iríamos mudar novamente. Meu tio havia conseguido uma casa onde moraríamos apenas com mamãe. Novamente outra adaptação, agora menos traumática do que a primeira. Sonhei em ver o sorriso de minha mãe, porém nada parecia abalá-la. Havia uma certa apatia na sua maneira de ser. Não sorria, mas também não chorava mais.

            Depois de um ano naquela casa houve um alvoroço. Os adultos estavam muito nervosos. Nós não entendíamos muito o que estava ocorrendo. Minha mãe determinou que pegássemos algumas roupas. Voltaríamos para a casa de titio. Não conseguia entender tanta mudança, até chegar lá.

            Minha tia, muito carinhosa, nos levou para os quartos do sótão, da nova casa deles, dizendo:

            – Assim a fumaça não chegará com tanta facilidade e as crianças poderão dormir mais tranqüilas à noite.

            – Fumaça?! E o por quê da fumaça, afinal? – pensei, intrigada. Somente naquele momento percebi que o aparente mal tempo reinante naqueles dias se devia à fumaça. Por isso vínhamos sentindo tanta falta de ar.

            A resposta à minha pergunta, que ainda estalava em minha mente, veio em seguida.

            – Artur foi para a linha de fogo, Edith.

            – Mas isso não é perigoso, Lila?

            – Ele precisa estar junto aos homens, Edith. Somente assim eles conseguirão vencer esse incêndio horroroso.

            – Você acha que não vai chover?

            – Gostaria muito. Somente a chuva impediria que o fogo se alastrasse e queimasse toda a reserva florestal dos Klabin. Depois tem o perigo de que ele chegue até aqui. O Artur disse que o fogo parece ter vida. Ele corre lambendo e queimando tudo que encontra pela frente.

            – Eu sei disso, Lila. Lá no hospital tem muitos queimados precisando de remédios e soubemos que muitos colonos morreram queimados antes que a ajuda chegasse.

            – Estamos ilhados e sem comunicação. Não há como chegar ajuda com essa fumaça que cobre o céu e impede a aproximação de avião. Nas estradas, nem pensar. Não passa carro. O fogo corre queimando de todos os lados.

            Aqueles dias foram de agonia e tristeza. Os adultos iam para a escola local, onde os corpos dos queimados que chegavam eram colocados, porque o hospital não mais comportava tanta gente.

            Depois de duas semanas sem saber de meu tio, a notícia chegou. O fogo iria chegar em Harmonia. A fábrica seria queimada e poderia explodir, por causa das imensas caldeiras que cozinhavam a massa de celulose.

            Dias depois saí para comprar açúcar no mercado e deparei-me com aquele espetáculo. Aquilo me fascinava. Eram línguas de fogo enormes e pareciam ter vida, vinham andando e rugindo. Fiquei parada por alguns minutos olhando o espetáculo que, ao mesmo tempo belo, me aterrorizava.

            Voltei para casa correndo. Encontrei minha mãe e não conseguia explicar. A voz não saía. Eu apenas apontava para fora. Todos saíram. O fogo já havia avançado bastante para dentro da cidade, queimando casas e estalando. Ouviam-se gritos das pessoas que corriam alucinadas pelas ruas.

            Minha mãe e tia Lila resolveram nos juntar a todos e seguir para a fábrica. Era o conselho de tio Artur. Havia um lugar dentro da fábrica onde poderíamos nos esconder.

            Descemos a ladeira que levava à fábrica, com a minha tia guiando aquele carro. Havia uma fila de carros com pessoas amedrontadas, seguindo para a mesma direção.

            Fomos levados para dentro da chamada Pasta Mecânicos. Era um lugar construído com tijolos duplos e todos diziam que talvez ali pudéssemos ficar a salvo do fogo e do calor que ele produzia.

            Muitos rezavam. Alguns observavam o caminhar do fogo, que continuava a crepitar e a rugir, enquanto expelia um vento quente e uma fumaça que nos deixava quase sem respirar.

            De repente o fogo começou a se desviar para o vale do rio Tibagi. Algumas pessoas tentavam explicar que o vale do rio estava sugando o fogo. Outras diziam que a mão Divina havia evitado o pior.

            Quando finalmente o fogo apagou houve um silêncio geral. Todos se olhavam admirados. O choro convulso tomou conta. Depois, como loucos, ríamos e cantávamos. Estávamos vivos!

            A partir daquele dia começamos a ajudar pessoas a reconstruírem suas casas. Todos ajudavam, inclusive as crianças, àquelas pessoas que haviam perdido seus entes queridos. As pessoas passaram a ser mais amigas umas das outras. Minha mãe voltou a sorrir e nós voltamos a acreditar que ainda poderíamos ser felizes e titio Artur pareceu aos nossos olhos como a figura do herói. Ele tinha sido a força daqueles homens que enfrentaram a grande queimada.

No dia que ele voltou para casa estava cansado e queimado, com os cabelos chamuscados. Olhei aquela figura e tive orgulho de meu tio. Soube, com a certeza dos meus doze anos, que teríamos nele um amparo sempre.

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