O entardecer na praia

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O rebuliço era imenso dentro do escritório. Havia adrenalina no ar. Mesmo após o estresse do ano todo, aquele dia parecia mais agitado. Alguns funcionários iriam sair de férias e, dentre eles, alguns advogados também.

A instituição aterrorizava a muitos advogados em relação aos prazos processuais. Não se permitia que assoberbassem os demais colegas com seus processos pendentes. Os prazos estavam vencendo e as férias forenses terminaria em meados de janeiro. Nem toda ansiedade e angústia vivida pelo ano inteiro poderia ser maior do que aquele vivenciado nos dias anteriores ao início das férias.

Márcia terminou finalmente a última petição e estava nas recomendações ao funcionário que faria a entrega dos autos na vara forense, quando percebeu a presença dele. Fernando entrou e a observou de longe. Ela sentiu o olhar queimá-la, mas não levantou os olhos. Não queria recomeçar todo aquele sofrimento dos dois últimos anos.

Aquela relação começara pela carência de Márcia.

Ela o sabia perfeitamente. Fernando era um homem charmoso e profundamente sensual. A sensualidade aparecia à flor da pele, e ela se envolvera completamente, esquecendo que ele era casado e tinha dois filhos.

A conversa havia sido a balela de sempre. Um homem mal casado, com uma mulher completamente desligada de suas necessidades físicas e emocionais e que não acompanhava a sua ambição em crescer social, financeira e intelectualmente. Neste momento quem sentia vergonha do próprio intelecto era Márcia. Ela não tivera um minuto sequer para desconfiar de que tudo aquilo não passava da lengalenga tantas e tantas vezes repetidas.

Juntou os papéis sobre a mesa. Havia terminado todo o suplício. Os processos pendentes haviam sido todos estudados e encaminhados. Levantou-se lentamente da cadeira e sabia que o suplício maior viria agora. Teria que se despedir de todos, inclusive dele. Não cabia na cabeça dela que os colegas sentissem pena de sua situação deplorável de “a outra”, posta de lado.

Decidiu que iniciaria por ele, assim poderia demonstrar todo o seu orgulho e coragem e… como dizem: é sempre mais interessante iniciar pelo pior.

Entregou os processos já prontos nas mãos dele. Além do mais era o chefe do setor e responsável pelo andamento dos serviços. Estendeu a mão para cumprimentá-lo, em despedida. Ele a puxou para si e deu-lhe um abraço forte. Ela pode sentir percorrer pelo corpo dele uma corrente elétrica, que imediatamente tomou o seu corpo. Quase fraquejou. Empertigou-se. Segurou uma lágrima teimosa, prestes a descer pela face. Deu-lhe um sorriso, que depois imaginou poderia ter sido mais um rito para careta, mas nada a importava. Queria apenas sair dali.

Passou em cada mesa. Abraçou os colegas, desejando para aqueles que também sairiam de férias um bom descanso e, aos demais, força para suportar a espera das próximas férias.

Dirigiu pela Marechal Deodoro e relembrou um tempo em que Curitiba ficava vazia naquela época do ano. Janeiro era um mês em que todos estariam na praia. A cidade havia crescido realmente, pensou. Finalmente estava na rua. Em casa pegou as malas já arrumadas e rumou direto ao aeroporto. Chegou na Região dos Lagos, perto de Búzios, as cinco da tarde. Pegou um táxi e após enfrentar alguns solavancos da estrada chegou naquela praia quase selvagem. Era ali o paraíso onde iria ficar por uns tempos. Tempo bastante, pensava, para esquecer Fernando.

Chegou no bangalô que havia alugado, soltou as malas no chão, retirou um short minúsculo e vestiu. Pegou uma cadeira de praia e seguiu para a areia. Sentou e se perdeu no tempo. O entardecer chegou como um espetáculo. O céu se pintou de todas as cores até chegar a um vermelho fogo, quando finalmente o sol se escondeu atrás do morro. Voltou para o bangalô, tomou um banho e deitou-se no sofá de almofadas fofas da pequena saleta. Pegou um livro e deliciou-se com o romance. Como era bom envolver-se com a ficção. Lá era o mundo do tudo certo, do tudo termina bem.

Acordou na manhã seguinte sentindo as costas. Havia dormido no sofá e o corpo sofrera o desconforto.

Iniciou sua rotina que viveria dali até o término de suas férias. Colocou um biquíni, juntou toda a parafernália que seria levada à praia: cadeira, guarda-sol, chapéu, livro, protetor solar e os colocou no carrinho. Seguiu seu caminho como uma garota que descobria uma novidade. Ficou sob o guarda-sol até perto das 11:30. Depois, como outras pessoas, foi para debaixo das árvores e lá ficou a ler seu livro. Observava a barraca de longe e ninguém mexia, ou mesmo chegava perto. Ficou feliz com essa constatação. Foi até o restaurante à beira mar e fez uma deliciosa refeição. Voltou para sua árvore. Espreguiçou-se na toalha. Quando acordou nem mesmo havia percebido o quanto dormira. A praia já estava quase vazia, até que somente restou sua cadeira sob seu guarda sol. Voltou a sentar sob o guarda-sol esperando, ansiosa, o espetáculo. Ele não demorou muito a acontecer. O céu se pintou de várias cores desde o amarelo, rosa, azul, lilás, até tingir-se totalmente de vermelho. Ela entregou-se ao êxtase até que o negro cobriu-o, por completo. Voltou para o bangalô. A alma ia leve. Apenas lá no fundo ainda persistia uma dor quase imperceptível.

Já vinte dias se passaram daquela rotina que lhe fazia tão bem. Havia se entregado completamente à beleza da natureza.

Voltou a sentar sob o guarda-sol. O céu começou a apresentar seu espetáculo do entardecer. Quando iniciou a colorir-se de vermelho, ela notou uma figura masculina recortada pelo lusco-fusco. Ele caminhava em sua direção. Parecia fazer parte de uma apresentação que a Natureza havia preparado para aquela tarde.

Quando ele chegou finalmente, ela o reconheceu. Mário era um ex-colega de faculdade que havia se casado na mesma época da formatura.

Foi esfuziante ao vê-la. Abraçou-a com carinho. Como era bom vê-lo! Percebeu que a paixonite da época da faculdade ainda lhe dava borboletas no estômago, mas logo em seguida retesou-se. Outro homem casado em sua vida… nunca!

Ele sentou-se feliz na areia ao lado dela e contou sobre o fim bastante dolorido de seu casamento por conveniência, como a fazer um “mea culpa”. Um ano já se passara que estava separado, mas não pretendia nova união tão cedo.

Ela sentiu-se tão envolvida com a história dele que lhe contou a dela.

Ele a olhou e ela percebeu que no fundo daqueles olhos havia certa alegria.

A rotina agora era a dois. Sentavam-se na areia e esperavam que a Natureza lhes proporcionasse a beleza diária.

Mas a Natureza não estava apenas preparando esse espetáculo a ambos. Certa manhã, quando ela saía do banho, ele entrou porta adentro. Olhou-a e encantou-se com o que viu e a natureza humana fez o resto.

Naquela tarde o entardecer perdeu dois espectadores assíduos, mas os últimos raios de sol foram espiar por entre as frestas, que o balanço da cortina proporcionava, os dois corpos nus, perdidos em si mesmos.

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