O risco e a alegria de escrever 

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Elaborar uma história, mesmo que fictícia, opinar sobre algo ou alguém cria angústias, no entanto libera da escravidão do silêncio e promulga a autenticidade. Não há como escrever sem se desvendar. Para a maioria dos escritores, articulistas, cronistas, a primeira palavra, o primeiro pensamento faz verter uma eventual falta de assunto. Quando se é obrigado a escrever, por profissão, o assunto foge à mente, a inspiração retarda. Quando enfim se encontra o que falar, a adrenalina sopra acelerada, acendendo todos os sentidos. É como um orgasmo intelectual que percorre o ser, enchendo-o de pura alegria. Mas, como já falado, escrever é desvendar o próprio ser, enquanto se permeia o assunto. Acostumar-se a esse momento de criação é viver na correnteza de um rio.

Outra ansiedade é lembrar sempre que a verdade de cada um não é a “pura verdade”. A ótica pessoal faz fluir sentimentos, vivências. Vezes há em que demonstra até o caráter do escritor, quando prefere direcionar assuntos, propondo-se a criticar ferrenhamente seus adversários intelectuais ou rodeando temas, sem abordá-los efetivamente. São os subterfúgios adotados pela mente para criar e fincar a  própria verdade. Neste momento ocorre o erro crucial daquele que escreve: a sensação do poder. Ter um espaço para dizer, opinar, criar, revelar fatos ou idéias, traz esta sensação que engolfa, ao mesmo tempo em que turva a objetividade.

A palavra escrita nunca será esquecida ou deixada ao vento, mesmo que jamais se volte a ler aquele assunto. Ela se fixa subliminarmente na memória e faz norma. Principalmente num país de poucos leitores, como o Brasil. Neste país de descuidados do saber, aquele que opina, sabe o que fala. Desta forma, o risco se faz. Ressalte-se, no entanto, que essa norma cria prova contra aquele que escreveu e o cognomina, posteriormente, de intelectual ou de debiloide, na faixa daqueles que sabem ler. Estranhamente não existe meio termo nesta hora de julgamento. Com suas opiniões impressas o escritor torna-se seu próprio algoz ou lança-se ao extremo do poder intelectualizado.

Felizmente a maioria quer expressar o seu melhor. Busca exercer o direito do cidadão que o lê. Transforma-se em arauto daqueles que necessitam de novos caminhos em todos os segmentos abordados. Porém, o que realmente entristece é ver aquele trabalho elaborado, após tantas vezes reescrito na busca da forma mais adequada e verdadeira, ser relegado às prateleiras empoeiradas de uma livraria, ou folhas de jornais ou revistas tapando vidros de janelas de prédios recém-construídos. É a história rebaixada ao menor plano. Não obstante esse revés, o escritor continua sua viagem à busca da inspiração e da criação de novos temas, novas histórias, numa sequência louca de dor e alegria. Claro que isso advém do prazer sempre maior do que a dor. Como já disse Michel de Montaigne: “Acho que os prazeres devem ser evitados se acarretarão dores maiores como consequência, e que as dores a serem desejadas são aquelas que resultarão em prazeres maiores”.

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