Ler, pensar, decidir

 

leitora

As palavras bailam no cérebro, permeando o intelecto e integrando o imaginário. Somente colocadas no papel, ou agora na internet, com as minhas escusas a Johann Gutemberg, elas se transformam em realidade palpável, permitindo ao leitor se deleitar com o pensamento do escritor.

Sartre sugere em What is Literature? seja ela irritante, provocativa do leitor, para que ele próprio imagine seu término. Acredito, antes, deva ser ela instigante, para que o leitor venha a perseguir seu final e intuí-lo de variadas formas, recriando-o a seu bel prazer até que o autor o leve pela mão ao fecho que entende plausível.

Um livro que li outro dia afiançava que somente um leitor contumaz será capaz de descortinar a ciência, os mais altos saberes, as mais sólidas filosofias e religiões. Mas, a meu entender não basta apenas leitura. Há que se pensar sobre o que se lê. A consciência crítica do ser humano deve ser exercitada durante uma leitura. Seja o texto de reconhecido autor ou daquele que vive no obscurantismo.

Não vejo a leitura como exercício de antropofagismo, como o quer nosso poeta mineiro Murilo Mendes em seu dizer textual: “Quando eu não era antropófago – quando eu não devorava livros – … porque os livros não são feitos com a carne e o sangue daqueles que escrevem?”, filosofando Nietzche, que dizia só amar o que era escrito com sangue.

Também nessa linha temos nosso filósofo e pensador Rubem Alves, dizendo: “De modo que minha leitura é assim: vou devorando os meus autores e na medida em que isso acontece, eles são incorporados a mim. Chega um momento em que quando cito um escritor já não o estou citando, mas a mim mesmo!”

Não vejo dessa forma, com máxima vênia a esses gênios da literatura e filosofia.

Lendo com consciência crítica, as palavras de mestres e doutores virarão frases de amigos, como se todas as insondáveis vivências guardadas nas mentes e realizadas no papel se transformassem em confidências e conversas de velhos companheiros, capazes de despertar silêncios e reflexões, ou estimular análises contrárias, que clarearão verdades insondáveis.

A leitura deve fazer pensar, e o pensar deve levar ao exercício crítico. Somente esse caminho desaguará na melhor formação de um intelecto e o capacitará a decidir. Ainda aqui cito Nietzche, que dizia ser condição fundamental para a criatividade a riqueza em contradições internas. Ora, se o filósofo entende necessário o caos interior, para que o ser humano possa fazer conexões intelectuais insólitas, como aceitar submissamente as verdades de outras consciências, sem antes questioná-las?

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