Mais livro publicado no LIVRORAMA

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Não deixe de passar por lá, o preço está um “mimo”. É poca natalina (rsd);

Descrição

Sinopse

Natália Castelli tornou-se uma advogada célebre no Brasil, antes de seu estrondoso sucesso ao expor suas telas em Paris. A garota simples, nascida no interior de São Paulo, tem o privilégio de conhecer Pierre, um marchand que a lança nas melhores salas da cidade luz. Num certo momento, desiludida emocionalmente, resolve abandonar Pierre e foge para sua vida cotidiana e sem brilho. Começando com uma perda e sempre em busca de redenção, a trama em que vive Natália é marcada por uma característica incomum: ela descobre que pode reencontrar o amor de sua vida, num mundo de sonhos e mistérios. Ele simplesmente não havia morrido e não faz ideia de qual seja a razão para que isso ocorra. Com uma trama absolutamente instigante, de amor, morte, traição, oportunidades perdidas e esperança, Natália Castelli percebeu, desde quando exercia a advocacia, seu talento inconfundível de exímia artista plástica. Ao retornar para sua arte e ser lançada no Brasil o drama de sua vida dá outra reviravolta.

O lixo que o homem já deixou na Lua

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Antes mesmo dos primeiros seres vivos estarem na Terra, a lua já fazia companhia para nosso planeta no espaço. Assim que a humanidade começou a habitar a Terra e interagir com o ambiente, a lua rapidamente se tornou motivo de admiração.

Ainda hoje, o satélite intriga não só pessoas comuns, mas também especialistas e cientistas que dedicam a vida para pesquisar a lua. Por mais que os estudos avancem, muito ainda há que se entender sobre a lua.

Além de pegadas, bandeiras e a marca histórica de pisar na lua, o homem deixou algumas coisas a mais nas vezes em que visitou o nosso satélite. Estima-se que mais de 180 toneladas de lixo tenham sido deixadas no local por astronautas, robôs e sondas espaciais. Parte do lixo é realmente de produtos descartáveis, mas ele também é composto dos dejetos orgânicos liberados por astronautas e experimentos que ainda estão em funcionamento.

A maior parte, é claro, são peças de sondas, enviadas ao longo de quase 60 anos de missões espaciais. São 70 veículos, de acordo com o último levantamento da Nasa.

Mas há também outros tipos de entulho e lixo orgânico (os astronautas que caminharam na Lua deixaram 96 sacos de urina, fezes e vômito). Bolinhas de golfe, bandeiras dos EUA, pares de botas, câmeras, revistas e mochilas também fazem parte das tralhas largadas em nosso satélite natural.

Parece que o homem não tem e nem terá respeito pelo espaço que lhe é dado pelo Universo. Será que algum dia isso mudará?

Vento de Agosto

Tardinha. O sol desaparecia de mansinho. Resquícios dourados pintavam o céu. Joana apoiou-se no gradil da sacada. Os pensamentos voavam à busca de lembranças.

Era como se ouvisse o vento assobiar novamente. Fora uma longa caminhada até o campo de golfe, naquele dia. Sentia-se agradavelmente envolvida por aquele sentimento, que imaginara não mais tomar conhecimento. O restaurante apareceu às suas vistas, protegido ao norte por imensas árvores, já envelhecidas e frondosas. Elas já estavam lá desde antes de construírem o condomínio.

A luz do sol naquela tarde cintilava por dentre as folhagens. Pensou no encontro que tivera com ele, ali mesmo alguns dias atrás. Ainda estava envolta em suas doces lembranças, quando o céu tomou uma cor cinza e tudo escureceu. O vento começou a enfurecer-se, de uma hora para outra. O redemoinho começou a se formar lá pelo lado sul e veio se avolumando, enquanto corria lambendo e levantando casas como se fossem brinquedos.

Viu-se dentro do restaurante. Pessoas em pânico corriam e gritavam para que se jogasse no chão. Sentiu a mão, que mais parecia uma tenaz, arrastá-la para dentro do banheiro. Lá já havia algumas pessoas. Os rostos demonstravam o pavor. O som aumentou ensurdecedor e eles imaginaram o rugido de um animal pré-histórico.

Aqueles minutos que permaneceram dentro do banheiro do restaurante pareceram séculos.

Quando tudo cessou, sentiu seus membros relaxarem e a dor contida tomou conta de seu ser. Saíram lentamente, um a um. A paisagem que viram em seguida foi desoladora. Havia um rastro deixado por onde passara o tufão. Casas inteiras ao lado de destroços, ferragens retorcidas e cimento, espalhando poeira pelo ar. A sensação é de que havia ocorrido uma guerra.

As pessoas saíam de suas casas num movimento letárgico, quase em câmara lenta, após o terror de, talvez, cinco minutos apenas.

Quando a realidade se fez presente em cada um, foram à busca de entes queridos, que podiam estar sob escombros.

Muitos perderam pessoas amadas. Pedaços de edificações foram encontrados longe.

― Ainda pensando naquilo, Joana?

Assustou-se com a pergunta. Estava tão abstraída em seus pensamentos que não percebera a chegada dele.

―Vez ou outra, ainda. ¾ Disse, à guisa de resposta.

―Os Gomes nos convidaram para uma reunião, hoje à noite.

Ela sorriu de maneira abstrata. ¾ Sim, sim, eu me lembro. Por volta das oito, não?

― Muito gentil da parte deles, você não concorda?

― Sabe se é alguma celebração?

― Ao que me consta vão recepcionar uma amiga vinda da Europa. Parece ser uma artista plástica. Não sei ao certo.

Estava pouco entusiasmada. Franco franziu as sobrancelhas.

― Oh, querida, você deveria se animar. Afinal estamos enfim nos relacionando com as pessoas.

― Sinceramente? Eu não tenho a mínima vontade de ir, porém você está coberto de razão. Precisamos nos relacionar. Quero esquecer…

― Você vai esquecer!

― Você já esqueceu?

― Perdi a filha… e a mulher…Mesmo estando para nos separar, não desejava isso à Elizabete. E Amanda… não vou esquecer nunca! Mas, precisamos continuar a viver, minha querida, e ser convidado para uma recepção nesta cidade é um fato a comemorar. Depois há a firma. Tenho que conviver com as pessoas, criar vínculos que me levem ao relacionamento comercial.

― Tem razão, querido. Vou me preparar.

*

De meias, entrou na cozinha, sentindo o odor delicioso do pernil assado, com um toque sutil de pimenta rosa.

Enquanto ele umedecia o assado, ela o observava, divertida.

Ele sempre gostara de cozinhar. Desde que se casaram, seis meses após o sucedido no condomínio. O que a divertia era que ele se paramentava todo para entrar na cozinha. Era o próprio chef du cuisine, como diriam os franceses. O chapéu enorme estava sempre extremamente engomado, como exigia de Rose, sua secretária doméstica.

― Hum, delicioso!

― Extremamente gentil de sua parte, mas precisa experimentar primeiro.

Ela sorriu e saiu da cozinha de forma espevitada.

Tinha, na verdade, vinte e dois anos. Uma moça alta, magra, com os cabelos negros lustrosos que escorriam até o meio das costas. A pele era clara, herdada da mãe e os olhos azuis do pai. Quando o sorriso aparecia na boca bem formada e expressiva, o rosto todo se iluminava, mas quando ficava deprimida e triste, seus olhos denunciavam os sentimentos interiores que a machucavam.

― … foi ótima a conversa com Otávio Gomes de Cerqueira, ontem ― dizia, Franco, enquanto colocava o pernil sobre a mesa. ― Creio que conseguirei um sócio para a exportadora ¾ continuou a falar. Ele virou-se para Joana que se aboletara à mesa e já estava, como uma criança, espetando a carne com o garfo.

― Psst! Modos!

Ela deu uma risada cristalina e os ombros subiram e desceram duas vezes.

― Quem era ao telefone? ― Perguntou Franco.

― Ah, Adelaide nos chamando para um jantar na sexta. Eu já confirmei, importa-se?

― Absolutamente… ― E a olhou admirado, mas feliz. A nuvem escura havia passado.

Após o almoço, com todos os pratos lavados e a cozinha arrumada, os dois seguiram para suas atividades. Franco deu-lhe um beijo no rosto e pegou as raquetes de tênis. Pretendia jogar com Otávio e terminar os acertos sobre a empresa e a futura sociedade. Joana vestiu o agasalho de ginástica e seguiu para o clube. Ia encontrar Adelaide, mulher de Otávio, para um jogo de vôlei. Pegou tênis, meias, shorts, camiseta e colocou-os na sacola.

Quando Joana chegou ao clube sentiu o vento. As folhas secas rodopiavam sobre o calçamento. Sentiu um arrepio percorrer-lhe a espinha. Empertigou-se e seguiu em frente. Adelaide a esperava.

Alguns metros do lago, sob a sombra de uma árvore, sentou-se próximo ao bistrô do Parque Barigui, ouvindo o silêncio da tarde. Na verdade o silêncio era o murmúrio de pequenos sons da natureza. Um peixe que pulava dentro do lago, o zumbido de uma abelha, tentando pousar sobre seus cabelos, que se esvoaçavam, ao longe um guincho de um ganso, o marulhar lento das águas mexidas pelo vento.

Olhou emocionada o papel nas mãos. Já havia lido inúmeras vezes, mas continuava a não acreditar.

As lembranças voltaram vivazes à sua mente. O irmão era seis anos mais velho que ela. As moças de Itu o cobiçavam. Era um dos partidos mais desejados da cidade. Bonito, alto, cabelos alourados do pai, olhos verdes, a pele sempre bronzeada do sol, jogava golfe como ninguém e ainda havia assumido as empresas de indústria de embalagens, após a morte do pai. A mãe era uma doce criatura que a mimava extremamente. Aquele tufão destruíra sua casa e as duas pessoas a quem mais amava, naquela época. Alguns dias antes havia encontrado Franco, que estava se separando da mulher e se envolvera com ele. Assim que ficou viúvo, também por culpa daquele tufão, casaram-se. E agora… Passou a mão sobre a barriga e uma lágrima rolou suave pela face. Agora uma vida se formava dentro dela. O passado devia enterrar seus mortos e o futuro esperar a vida.

Levantou-se lentamente do banco, pegou o carro e voltou para casa.

O vento assobiava por entre as frestas das portas envidraçadas da sacada.

― É o vento de agosto, Joana. Muita gente não gosta, mas eu gosto. Sinto saudades do tempo em que morava no campo com meu pai e minha mãe. Minha infância, enquanto corria solta e em liberdade. Agora ficamos todos presos, morando uns sobre os outros. ¾ Falou, Rose.

―Em segurança, Rose, em segurança…― Seguiu para a sala e sentou ao piano, lembrando da época em que a mãe sentava e tocava Chopin, para ela ouvir.

Os acordes tomaram conta da sala e ela sorriu feliz, imaginando uma garotinha sentada à sua frente, ouvindo-a tocar.

NOTA: Escute a música no vídeo acima. Você vai amar! Meu presente de Natal para você.

Crônica do Ano Novo

Boas-Festas

Ano novo, vida nova, assim é, como todos falamos. O mundo fala pela televisão, pela internet, em suas redes sociais, o mundo todo fala na melhoria da vida, dos fatos. São nossos sonhos, nossas expectativas para um novo melhor momento que começa a nascer devagar, enquanto outro vai morrendo entre fogos, espumantes, festas e até muita bebedeira, porque não dizer.

As pessoas escolhem cores para entrar com o pé direito no novo ano nascente. Os pudores desaparecem, a criança vem à tona, a confiança num Ser Maior explode dentro de cada um , a seu jeito de ser e de entender a vida.

Inúmeros lotam praias, jogam flores para Iemanjá, a rainha do mar, mesmo sem nunca ter pisado num terreiro antes. Entram no mar passando por todo tipo de perigo, ondas altas, ondas baixas mas com correntes até traiçoeiras, o importante é levar o seu presente.  Mais muitos mais, assistem as belas queimas de fogos. É o ano novo que arrebenta as correntes e se destrava o velho ano e seus desprazeres de nossos pés, as dores se esvaem pelas pontas dos dedos. O espírito do ser humano canta com histeria e loucura coletiva as músicas natalinas desde novembro. É uma loucura boa, como quem tira a roupa velha colada no corpo e que trouxe tantas decepções e agora veste a roupa nova e branca, e sem qualquer mancha, do ano que vai escrever uma nova história.

Comemorar a virada do ano com a ideia de que, já em janeiro, a beleza da vida vai explodir em beleza, sonhos e canções de amor aquele ano novinho em folha. É o ano da vitória nos dias que se seguirão pela vida, jogando por terra todo problema que existiu no ano anterior, enterrando dores e cantando louvores ao Divino, na espera de uma vida nova, pois na verdade estamos virando uma página e ela está totalmente branca a espera de escrevermos novos fatos.

Que importa aqueles que dizem ser um ano exatamente igual ao anterior, importa sim, acreditar na felicidade no desvendar mágico e nas resoluções infindáveis e belas de um novo desabrochar, como desabrocha a rosa branca levada para Iemanjá.

É nessa mesma época que fazemos planos, resoluções e desejos para o novo ano, em que planejamos tudo. Não importa se a gente acaba muita das vezes esquecendo nossos planos anteriores. Agora é hora de novos planos, novas resoluções e no recôndito do coração acreditarmos piamente que conseguiremos construir um futuro melhor.

Não tem a menor importância se acabamos com mais um ano sem metas cumpridas. Jogamos fora aqueles planos tolos e fazemos outros mais brilhantes e azuis da cor do céu. criando mais um ciclo maravilhoso de alegria que nos impulsiona a mudar e sair dessa grande redoma que fez o ano velho impossível de realizar nossos mais caros desejos.

Claro que às vezes as melhores coisas da vida são aquelas que não planejamos ou que não desejamos, ou o que desejamos tanto, e acabamos conseguindo nos momentos que nem mesmo percebemos ou até mesmo quando pensamos em desistir, e a vida acaba de nos devolver. O importante é acreditar no melhor e festejar o entusiasmo novo para criar com alegria momentos de felicidade. Essa é a força motriz da verdadeira melhoria do ano que explode em festa.

DIGNIDADE MANCHADA

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Estou escrevendo um livro de suspense sobre a história de um homem íntegro que se viu às voltas com a Justiça de forma inarredável, apesar de sua inocência. Este  é o início do primeiro capítulo, já revisado, cortado e talvez ainda venha a sofrer mudanças, mas deixo aqui para que meus leitores opinem.

1º Capítulo

Era Auditor Fiscal da Receita Federal e funcionário público federal. Esta é uma história longa e recheada de altos e baixos, como de resto é a vida.

Tinha 32 anos quando aconteceu. Passado quatro anos do ato de posse, abriram um processo administrativo contra ele.

“Talvez seja por ter levantado com o pé esquerdo ou passado por uma semana ruim no trabalho” — pensou Henrique. Mas, aquela situação insólita desencadeou uma crise de desânimo, confundindo-o.

Quanto mais tentava entender o imbróglio em que estava metido mais o estresse desorganizava seus pensamentos. O medo de continuar analisando os processos esfriava suas mãos, o estômago revolto trazia ânsias quase ao descontrole.

O tempo não passava, enquanto o processo administrativo corria contra ele e muitos mais que foram culpados de improbidade administrativa.

No final isentaram-no de culpa. Seu ânimo tinha ido a zero. Precisava acreditar no futuro, afinal sempre fora um homem honesto, íntegro. Seu ânimo começou a se erguer quando se recordou de seu pai.

— Você será um grande homem, filho. Eu não pude estudar, mas dei a você todo o estudo que precisa para enfrentar o caminho da vida. Tenho certeza de que não vai me decepcionar nunca. Você é honesto, estudioso, respeitador. Tudo que um homem de bem deve ser.

Porém, um grupo de insatisfeitos dentro da Receita Federal não quis ficar quieto, havia muita inveja e vingança no ar. O brilhantismo dele o alçara a Chefe de Seção. Isso acirrara os ânimos. O processo administrativo foi enviado pelo Procurador-Chefe da Fazenda Nacional direto ao Ministério Público Federal. Dado início ao processo judicial na Justiça Federal levou 6 meses e a sentença foi proferida em primeiro grau, por uma jovem juíza federal, que substituiu o Juiz Faizal, titular em suas férias. Desconhecedora das filigranas do processo prolatou sentença condenando Henrique ao crime de evasão de divisas para uma conta numerada e em seu nome no exterior.

Henrique só entendeu o embrulho em que estava metido quando leu os jornais e assistiu a televisão sobre o assunto. O jornal dizia algo assim:

Esquema de corrupção e sonegação é descoberto em delegacia da Receita Federal

A PF e a própria Receita descobriram que alguns fiscais recebiam propina de empresários e em troca não cobravam deles todos os impostos devidos. Prejuízo aos cofres públicos é calculado em mais de R$ 3 bilhões.

Um golpe descoberto em uma delegacia da Receita Federal, provocou prejuízos aos cofres públicos estimados em mais de R$ 3 bilhões.

Dinheiro guardado assim coisa boa não é: no fundo da casa, em fundos falsos, dentro de caixas de leite e levados para fora do país, numa conta na Suíça. O equivalente a quase R$ 13 milhões, inclusive em moeda estrangeira que, segundo suspeita da Polícia Federal, o dinheiro vinha de propina. Uma fonte que serviu para compra de carrões e mansões. Patrimônio incompatível com o salário de fiscal da Receita Federal. Mesmo sem provas cabais de que Henrique era dono de algum desses bens, constava contra ele a tal conta numerada e com vários saques.

Aquilo o deixava tonto e cada vez mais buscava entender como alguém podia abrir uma conta no exterior sem o seu consentimento.

O banco suíço enviou os documentos e os peritos brasileiros afiançaram que a assinatura do contrato era de Henrique, apesar de ele negar peremptoriamente.

Em uma investigação que começou em janeiro, a Polícia Federal e a própria Receita descobriram que alguns fiscais recebiam propina de empresários e em troca não cobravam deles todos os impostos que deviam. Algumas pessoas físicas também entraram no esquema para sonegar.

E mais um blá,blá,blá…”

Ele não quis mais ler. Já havia entendido onde o haviam colocado – no bolo dos desonestos – aquilo apenas o desalentava diante de tanto disparate. Tinha um advogado com grande cabedal de conhecimentos na área administrativa criminal e ele tentava fazer aquele homem entender a sua descrença.

 — Bastante difícil de acreditar que você desconhecia todos esses fatos dentro do setor que comandava. Sou seu advogado, mas sinto dizer-lhe que preciso da verdade. Essa ingenuidade não tem pé nem cabeça. Um homem que passa num concurso público, é alçado ao cargo de chefia do setor onde propinas eram o corrente, não há como lhe dar crédito se não ouvir a sua verdade dos fatos. – Mas, Henrique continuava negando, apesar de lembrar vagamente de uma conversa tida com o candidato ao Senado federal para as eleições daquele ano. Porém, nem mesmo aquilo o fazia cúmplice da bandidagem que havia se formado na Receita.

Depois daquela conversa ácida com seu advogado ele não mais o viu. As novidades seguintes lhe foram dadas pelos advogados dos demais quadrilheiros. Nem toda explicação sobre o assunto o convencia de sua participação. Somente se fora drogado para assinar um documento jamais visto. Ele não podia entender, pois nada havia feito daquilo que lhe imputavam.

O processo caminhava regular, enquanto o titular da Vara Federal estava em exercício. Nas férias do titular a jovem juíza foi procurada por um dos Procuradores da Fazenda Nacional e decidiu pela condenação. Não se provou fraude ou recebimento de propina, mas sabidamente a manipulação e evasão de divisas. A sentença dizia que ele mantinha uma conta no exterior em seu nome, de onde foram feitos saques de milhões de dólares.

O advogado contratado tinha fama nacional na área do Direito Administrativo e Criminalista, pagou regiamente seus honorários adiantado, mas foi o estagiário do escritório a defendê-lo. Ele deduziu que o advogado não deu crédito a nada que ouvira dele e deixou o processo a cargo de um jovem e brilhante advogado, sem qualquer experiência prática na área. Recém-formado na faculdade de Direito. Entrou com todos os recursos, seguindo seus cursos, e não houve procedimento, mecanismo, estatuto cautelar, tecnicidade, brecha ou pai-nosso que restasse em seu arsenal de medidas e procedimentos a obstar o prosseguimento do processo e ao final inocentá-lo.

— Não tenho mais nada a fazer, Sr. Henrique Vaz. Como conheço nossa lei brasileira, posso fazer o que alguns colegas fazem e entupir os tribunais com pilhas de petições e mandados de segurança inúteis e tantas outras papeladas imprestáveis, mas nada ajudaria nossa causa. A realidade é que não entendo como após tantas considerações, provas, os juízes e ministros se fazem surdos ao óbvio. Vários outros peritos que contratamos foram unânimes em dizer que sua assinatura naquele documento era de uma falsidade kafkiana.

O rapaz não devia estar carregando nos ombros aquela responsabilidade, pois apesar de haver sido pago, o professor deixou o caso nas mãos dele.

Os problemas disciplinares com a Estatal foram relatados no jornal corrente da cidade. Foi despojado de sua dignidade, sua honradez. A linguagem jornalística estava certa — uma condenação por cometer crime equivalente à cassação do cargo público por improbidade administrativa e evasão de divisas.

Ora, se improbidade administrativa é o designativo técnico para conceituar corrupção administrativa, ou seja, o contrário à honestidade, à boa-fé, à honradez, à correção de atitude, ele não havia cometido qualquer ato que o colocasse naquela situação. Mas, o processo dizia que o ato de improbidade cometido por ele era uma omissão praticada no exercício da função, possibilitando seus comparsas a enviarem divisas para um banco na Suíça e ainda a sua adesão e ganância no mesmo passo.

O enquadraram em violação ao princípio da Administração. Seu enquadramento foi feito baseado na Lei 8.429/92, também conhecida como Lei do “colarinho branco”. Havendo a evasão de divisas, além de responder civilmente, perder o cargo e ficar com uma dívida impagável, também foi processado na área criminal.

Antes do ocorrido, sendo e Chefe da Fiscalização da Estatal recebeu uma proposta de um candidato ao Senado Federal, um amigo pessoal, Hudson Carvalho de Morais, que frequentava sua casa. Ele solicitou:

— Henrique você pode resolver esse caso para mim. Você sabe que eu ganho o pleito se meu adversário for preso. Depois, ele é culpado e seus colegas estão levando grana alta nessa história. Encontre tudo contra aqueles que estão se locupletando do erário público. Como Senador eu poderei remanejar você para um cargo de alto escalão no Senado.

Mas, a consciência do homem probo não acreditou na conversa do amigo. “Afinal trabalho num órgão de pessoas idôneas, são funcionários públicos e precisam zelar pelo seu nome”. Tudo o impediu de dar guarida ao pedido. Do outro lado estava o dono de uma empresa fiscalizada pela Estatal que precisava ser fechada. Como Auditor Fiscal Chefe do setor na Receita Federal do Brasil tinha em mãos a decisão de proferir parecer no processo administrativo-fiscal; examinando a contabilidade daquela sociedade empresarial e em seguida encaminhar sua conclusão ao Procurador-Geral que normalmente cumpria o hábito de enviar ao Ministério Público Federal, solicitando o fechamento da empresa com averiguação de irregularidade fiscal. Este era o caso. Se ele o fizesse antes das eleições, prestes a acontecer, estaria colaborando com o amigo e aceitando tacitamente uma proposta indesejável para seus princípios morais. O cargo de Senador cairia no colo de Hudson Carvalho de Morais com facilidade e não de Ricardo Tomaz Aquino.

Henrique entrou em contato com seu superior hierárquico, via telefone e solicitou orientação. Deveria ele enviar o processo com um despacho para o fechamento da empresa, antes das eleições? No outro do lado do telefone o tom foi peremptório e quase estridente. — Não! Era preciso esperar o deslinde da questão, afinal faltavam apenas dez dias para o pleito eleitoral.

Ingenuamente fez questão de que todos soubessem que não ajudaria Hudson Carvalho de Morais. Ficaria neutro na questão e só encaminharia o processo com o pedido de fechamento da fiscalizada, assim que passassem as eleições.

Em seu pequeno mundo Henrique Vaz era conhecido como uma pessoa determinada, trabalhadora e sem ambições mirabolantes. Em todas as áreas em que operou dentro da Estatal antes de prestar o concurso para Auditor Fiscal era o auxiliar dos companheiros, ouvindo seus problemas, tentando solucionar com diplomacia qualquer empecilho familiar ou financeiro, sempre com suas planilhas contábeis, demonstrando a possibilidade de o colega sair do vermelho sem precisar se endividar mais. Nem isso fez com que o grupo de invejosos parassem.